Vivemos um profundo ponto de inflexão na política internacional. Um que inevitavelmente nos convida, ou, neste caso, nos força, a traçar um paralelo histórico entre o hoje e o início do século XX. As âncoras de sustentação do sistema como conhecemos desde o fim da Segunda Guerra Mundial cederam, e não se trata mais de desgaste gradual. O que vemos são escolhas conscientes que privilegiam vontade individual sobre compromissos coletivos. Foram os Estados Unidos da América que sustentaram a lógica liberal do sistema global: pilar da segurança coletiva e da estabilidade global, liderança e alicerce político-econômico em momentos de crise, tanto pelo seu poderio militar quanto pelo econômico. E é a política externa americana o epicentro da perigosa transformação que experienciamos hoje. Abandonando doutrinas de longo prazo e deixando de lado tratados e acordos, a presidência sem freios institucionais de Donald Trump projeta para fora uma instabilidade que nasce dentro.
O resultado, de acordo com Seva Gunitsky e Semuhi Sinanogl, é uma ordem cada vez mais personalista, na qual decisões estratégicas dependem menos de interesses de Estado e mais de impulsos, ressentimentos e cálculos eleitorais - como sugeriu o próprio Trump, em seu discurso após invadir a Venezuela e prender o presidente Nicolás Maduro: "Ele tentava imitar a minha dança". Nesse cenário, normas internacionais são tratadas como obstáculos, a diplomacia é substituída por táticas de choque, e a previsibilidade dá lugar à improvisação. O Capítulo II da Carta das Nações Unidas tornou ilegal o uso da força para resolver conflitos e proibiu a conquista territorial por violência, em uma mudança de paradigma legal fundamental patrocinada pelos EUA, ainda que eventualmente apenas no discurso. Agora, se o Direito Internacional não é favorável ao interesse nacional (ou mesmo ao interesse pessoal), dá lugar à lei do mais forte, erodindo gradualmente qualquer noção de multilateralismo. Mas não é incomum que o interesse nacional seja míope às consequências futuras: na década 1930, os EUA, em defesa do próprio interesse, aumentaram tarifas aduaneiras para lidar com a Crise de 1929. A crise se tornou depressão global, nutrindo os nacionalismos e fascismos que originaram a Segunda Guerra Mundial.
A história é clara: quando o personalismo substitui as regras, a anarquia não é exceção, mas destino. Em um mundo de ogivas nucleares ativas, o Ocidente enfrenta uma janela estreita (e possivelmente, uma última vez) para escapar da concepção hobbesiana e demonstrar que cooperação e regras são vitais para evitar um retorno à instabilidade sistêmica iminente.