Os jornais noticiam uma das mais severas tempestades de inverno a atingir a cidade de Nova Iorque, onde as temperaturas médias chegaram a -7 °C, resultando em uma das faces mais cruéis do frio extremo: dezenas de mortes por hipotermia. Na esmagadora maioria, as vítimas são pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social, vivendo nas ruas. Do outro lado do Atlântico, Fortaleza ingressa em sua quadra invernosa sob o impacto de chuvas intensas que, para além de exporem as múltiplas facetas do caos urbano, impõem uma reflexão mais profunda sobre seus efeitos sobre adultos, crianças e idosos em situação de rua, que figuram como as principais e mais vulneráveis vítimas não apenas das intempéries da natureza, mas também do reiterado descaso do Estado e da sociedade.
Nova Iorque e Fortaleza, apesar das abissais diferenças econômicas, culturais e geográficas, compartilham um ponto nefasto em comum: a invisibilidade e a indiferença direcionadas à população em situação de rua. O frio que, para muitos, representa apenas alguns minutos a mais na cama constitui, para outros, o verdadeiro desespero cotidiano. Para quem não dispõe de um teto, cada gota que rasga o céu cai com a força da injustiça social, e cada noite fria se transforma em uma disputa cruel entre o frio e a fome. Essas circunstâncias revelam o quanto a exclusão social mata silenciosamente nas grandes cidades.
Dito isso, impõe-se uma reflexão acompanhada de ação urgente. É necessário olhar para a população em situação de rua com empatia e, ainda que por um breve instante, colocar-se hipoteticamente naquela condição. É preciso afastar os julgamentos rasos e preconceituosos, muitas vezes moldados pelo chamado higienismo social urbano, que busca retirar do campo de visão aqueles que a desigualdade produziu e reduziu a meros números estatísticos.
São, na realidade, seres humanos que, neste momento, necessitam da mão que acolhe, e não da mão que apedreja. Essa responsabilidade não se impõe apenas ao Estado, no exercício de seu poder-dever, mas também à sociedade, a quem cabe um inafastável dever moral e social.