Quando lemos uma obra literária, adentramos na estória ao lado do narrador, sentimos as dores e alegrias dos personagens e viajamos para cidades e países como se realmente estivéssemos no lugar. Muitas vezes, ao ler um livro, na solitude de um quarto, rimos, choramos e sentimos prazer com os personagens. É a magia da narratividade do autor.
Porém, quando nos aproximamos do fim, da última página, a angústia toma conta do espírito porque não queremos o encerramento do drama. Queremos perpetuar os personagens, por isso o sucesso do folhetim publicado nos jornais no século XIX. Daí a razão de ser das telenovelas atuais, corta-se o capítulo no clímax para ser retomado no dia seguinte.
O fim de um livro pode ser triste ou aliviador. Muitos atrasam o fim da trama, suspendem a leitura, refletem, leem devagar, degustando os últimos momentos antes da despedida final. O leitor não deseja finalizar a obra, pois os personagens o fascinam. O fim significa término, morte da ficção recriada. Há um clamor contínuo dos leitores para a retomada do enredo. Deseja-se a continuidade dos personagens, do autor e do narrador no imaginário de cada leitor.
Ninguém, penso, deseja o fim do héroi e da narrativa, mas uma continuação das aventuras e peripécias, por isso o fim nos angustia. Sinto, a cada leitura, como leitor, um fim de um ciclo, de pertencimento e de identidade com os personagens.
Esses sentimentos surgiram quando recentemente terminei de ler Cem dias entre céu e mar de Amyr Klink. Estive com o autor-personagem durante os cem dias da travessia de barco a remo entre a África e a América do Sul pelo Oceano Atlântico, mais especificamente entre Lüderitz na Namíbia e Salvador no Brasil.
Assim como o autor, vivenciei todo o percurso e senti medo pelos tubarões, admiração pelas baleias e gaivotas e pelos golfinhos, além de enfrentar tempestades na terrível noite escura.
A travessia é tranquila como diz o autor, o pior é a chegada, o fim do caminho.