Após um início de ano agitado na área internacional, com os olhares voltados para a situação na Venezuela, as ameaças contra o Canadá e a Groenlândia e a proposta do Conselho da Paz para Gaza, Trump volta sua atenção para o Irã.
A tentação inicial é comparar os cenários da Venezuela e do Irã, dado que ambos possuem recursos energéticos relevantes e que a retórica de Trump parece indicar um padrão semelhante de ação. No entanto, o Irã dispõe de uma capacidade militar e de projeção regional muito mais ampla do que a venezuelana. Ainda que seu programa nuclear tenha sido significativamente afetado após os ataques de 2025, Teerã mantém capacidades relevantes, sobretudo no campo dos mísseis balísticos, o que amplia seu poder de dissuasão.
Além disso, a atuação regional iraniana, embora enfraquecida nos últimos anos, não foi eliminada. A perda de capacidade de grupos aliados por procuração, como o Hamas, os Houthis e outras milícias que operam em diferentes frentes, reduziu o alcance da influência iraniana, mas não a anulou.
Além disso, qualquer agravamento da situação envolvendo o Irã tende a produzir efeitos imediatos nos países do Oriente Médio, muitos dos quais, apesar de rivalidades históricas, demonstram um interesse compartilhado em evitar uma nova escalada que comprometa processos frágeis de estabilização em diferentes partes da região.
Mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo regime, evidenciadas pelos recentes protestos e pela crise econômica, esses fatores, isoladamente, não parecem suficientes para produzir uma mudança de regime. As exigências americanas tendem mais a ampliar a repressão política do que uma saída controlada. Nesse sentido, o risco é aprofundar tensões internas e externas sem garantir uma transformação efetiva interna ou o fim do programa nuclear do país.
Um cenário de mudança de regime que gere forte instabilidade regional não parece compatível com a lógica predominante da política externa de Trump, que tem priorizado resultados rápidos e negociações passíveis de serem apresentadas como vitórias políticas.
Trump tem utilizado, de forma recorrente, uma estratégia baseada em ameaças e pressão máxima com o objetivo de obter concessões. É plausível supor que esse mesmo método seja aplicado ao Irã, combinando retórica agressiva, sanções e sinais de força militar com uma abertura, ainda que limitada, para a negociação.
Por fim, o Irã ocupa uma posição geopolítica sensível, que envolve diretamente Estados Unidos, Rússia e China. Teerã é um aliado estratégico de Moscou e tem se aproximado economicamente de Pequim. Qualquer conflito de maior escala tende a aproximar ainda mais esses atores, ampliando o custo internacional de uma estratégia puramente coercitiva por parte de Washington.