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Ana Addobbati: Carnaval sem assédio é lei e decisão 
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Ana Addobbati: Carnaval sem assédio é lei e decisão 

.A experiência prática no desenvolvimento de protocolos de prevenção e resposta ao assédio demonstra que campanhas simbólicas não bastam. O enfrentamento exige método, articulação institucional e responsabilidade
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Ana Addobbati

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Carnaval e grandes eventos no Brasil simbolizam liberdade e ocupação do espaço público, mas também expõem riscos estruturais, especialmente para mulheres. O assédio, a importunação e a violência não são "excessos da festa", são crimes previstos em lei — e leis que não são aplicadas não protegem ninguém. Dados mostram que metade das mulheres já sofreu assédio no Carnaval e que o medo ainda é majoritário, evidenciando uma sensação persistente de insegurança.

A experiência prática no desenvolvimento de protocolos de prevenção e resposta ao assédio demonstra que campanhas simbólicas não bastam. O enfrentamento exige método, articulação institucional e responsabilidade. Protocolos como o "Não é Não" funcionam quando são tratados como sistemas vivos: com equipes treinadas, fluxos claros de acolhimento, integração com forças de segurança, comunicação acessível e responsabilização efetiva. Sem improviso.

No Carnaval, os desafios se intensificam pela alta concentração de pessoas, consumo de álcool e curta duração do evento. Estados e municípios lidam com limitações orçamentárias, rotatividade de equipes, disputas de competência e, muitas vezes, resistência política. Mesmo onde houve redução de registros, a violência segue real e subnotificada. 

A abordagem territorial é essencial. Protocolos eficazes respeitam dinâmicas locais e envolvem quem já atua no território: coletivos, produtoras, comerciantes, ambulantes e equipes de segurança. A participação ativa da sociedade civil fortalece as políticas públicas. 

A iniciativa privada também tem responsabilidade direta. Marcas que patrocinam e lucram com grandes eventos devem investir em prevenção ao assédio como parte de compliance, ESG e respeito às pessoas — não como marketing.

Garantir a aplicação das leis depende dessa engrenagem coletiva. Protocolo bom é o que funciona no momento crítico, quando alguém pede ajuda e é acolhida. Carnaval pode ser alegria, não medo. Protocolos protegem vidas, experiências e a democracia no espaço público. Dá trabalho, mas dá resultado — e ninguém quer voltar ao improviso.

 

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