Com a chegada das chuvas, a cena se repete na orla de Fortaleza: trechos do mar escurecidos, com aparência e odor que levantam alertas. A cada novo episódio, o termo comumente utilizado nas manchetes e nas falas oficiais vai se popularizando: "manchas escuras". A expressão sugere um fenômeno difuso, quase natural, associado à chuva e ao carreamento de sedimentos pelas galerias pluviais. Mas por que evitamos chamar esse problema pelo nome que ele quase sempre tem?
De fato, chuvas intensas arrastam sedimentos e resíduos urbanos até o mar, mas quando o fenômeno é recorrente e vem acompanhado de forte odor, o problema é outro. Em muitas cidades brasileiras, galerias pluviais que deveriam conduzir apenas água da chuva acabam operando como canais de esgoto.
O que me chama a atenção é o cuidado excessivo com a linguagem. Falar em "mancha escura" é mais confortável do que falar em esgoto. O termo suaviza o impacto, dilui responsabilidades e sustenta a dúvida, reduzindo a força do problema. Já "esgoto" escancara falhas históricas de saneamento, planejamento urbano e gestão pública, além de tocar em temas sensíveis como saúde pública, turismo e meio ambiente.
Essa escolha de palavras não é por mero acaso. A linguagem molda a forma como percebemos os problemas e, principalmente, como cobramos soluções. Quando o esgoto vira "mancha", a poluição vira algo temporário, pontual e não representa o problema histórico e estrutural. Os impactos, porém, são mais difíceis de serem mascarados. O contato com água do mar contaminada representa riscos reais à saúde. Tratar o problema como um "fenômeno" associado à chuva reduz a urgência das respostas, que se limitam a recomendações temporárias, enquanto soluções estruturais seguem adiadas.
Talvez a pergunta não seja do que é feita a "mancha escura", mas por que nossas galerias pluviais continuam funcionando, na prática, como tobogãs de esgoto para o mar. Enquanto evitarmos a palavra esgoto, seguiremos tratando um problema crônico como um inconveniente sazonal. E convenhamos: nosso mar é bonito demais para tamanho descaso.