Durante muito tempo, aprendemos que um casamento "bem-sucedido" é aquele que não termina. Pouco importava como ou a que custo. Permanecer era tratado como sinônimo de maturidade e compromisso, enquanto a separação carregava o rótulo de fracasso pessoal, moral e familiar.
Embora ninguém se case pensando em se divorciar, essa lógica de manutenção da relação a qualquer "preço" ignora uma verdade incômoda: nem toda permanência é virtude, assim como nem todo rompimento representa derrota. Há vínculos que se sustentam apenas pela inércia, pelo medo do julgamento social ou pela dificuldade de recomeçar.
Na prática, o divórcio raramente nasce da impulsividade. Ele costuma ser o último capítulo de uma trajetória marcada por tentativas silenciosas, diálogos adiados, frustrações acumuladas e um esforço contínuo para "fazer dar certo". Decidir sair, nesses casos, não é desistir do amor, mas reconhecer que o afeto já não existe de forma saudável ou suficiente para sustentar uma vida em comum.
Dados do IBGE ajudam a compreender essa transformação social. Em 2025, cerca de 470 mil casais se separaram no Brasil, enquanto o tempo médio de duração dos casamentos caiu de aproximadamente 16 anos, em 2010, para 13,8 anos em 2023. Esses números não indicam fragilidade dos vínculos, mas revelam maior autonomia emocional, econômica e jurídica para encerrar relações que já não fazem sentido.
Há coragem em admitir que o projeto que um dia foi construído a dois deixou de comportar quem cada um se tornou. Coragem para enfrentar julgamentos, reorganizar a vida financeira, redefinir a própria identidade e elaborar o luto por uma família que não continuará do mesmo modo.
Quando há filhos, o peso da decisão parece ainda maior. Muitos pais e mães permanecem em relações esvaziadas acreditando protegê-los. No entanto, crianças não precisam de lares intactos, e sim de ambientes emocionalmente seguros. Crescer em meio a silêncios hostis, ressentimentos e conflitos normalizados ensina muito mais sobre medo do que sobre afeição.
Na perspectiva do Direito das Famílias, o divórcio não é uma falha. É uma realidade a ser organizada. O Judiciário não existe para apontar culpados, mas para garantir que, mesmo no fim, haja dignidade, corresponsabilidade e proteção aos mais vulneráveis.
É indispensável afirmar: há separações que não são apenas corajosas, mas necessárias, especialmente quando envolvem violência, abuso ou violação de direitos. Nesses casos, sair não é escolha, é sobrevivência.
Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de "por que não deu certo?", deveríamos questionar: "ainda fazia sentido continuar?". Afinal, não é fracasso o fim do casamento. Fracasso é permanecer onde já não há respeito, cuidado ou possibilidade de crescimento. Coragem, muitas vezes, é saber o momento de ir embora.