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Entrevista: Gilmar de Carvalho, o homem que tem asa no pé

CULTURA E COMUNICAÇÃO| Gilmar de Carvalho, um dos maiores nomes nacionais na pesquisa de tradições populares nordestinas, aborda a rica diversidade do Ceará descoberta ao longo de anos de viagens
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FORTALEZA, CE, Brasil. 23.10.2020: Páginas Azuis com o professor Gilmar de Carvalho. (Fotos: Deisa Garcêz/Especial para O Povo) (Foto: Deisa Garcêz/Especial para O Povo)
Foto: Deisa Garcêz/Especial para O Povo FORTALEZA, CE, Brasil. 23.10.2020: Páginas Azuis com o professor Gilmar de Carvalho. (Fotos: Deisa Garcêz/Especial para O Povo)

Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho rebentou ao mundo nos idos de 1949, entre dias quentes que passam até mais devagar e noites mornas. Nasceu na cidade de Sobral, com asa no pé e corpo afeito à estrada. Professor, escritor, jornalista e publicitário, Gilmar é um homem visitador: conhece cada município do Ceará Profundo, enfrentou "o pedregulho, a areia, a extrema beleza e a profunda miséria" e sentiu nos nervos o mistério da criação. Mestre encantando pelos saberes da terra, Gilmar é griô das tradições. Adentrou o sertão inteiro do interior ao lado do fotógrafo Francisco Sousa, sob o céu azul de paz, azul de oração. Caçador, coletor e semeador de histórias, o pesquisador é autor de mais de 50 livros.

Desde 19 de março, chuvoso Dia de São José, Gilmar de Carvalho mantém-se em isolamento domiciliar rígido imposto pela pandemia da Covid-19. Viajador, encontrou na rede social Instagram uma passagem de trem pelos contos e causos do Ceará, cada estação uma memória. "O meu Instagram, @professorgilmardecarvalho, tem raízes mais antigas. Em 2002, conheci o Francisco e ele se fez fotógrafo — e assim meu olhar ficou mais rico. Eu acho que domino bem a escrita, mas queria me exercitar em outros códigos. Retomei a conta agora na pandemia, para falar com as pessoas".

As outras sociabilidades acentuadas pela pandemia, defende Gilmar, causam também rebuliço no fazer jornalístico. "O jornalismo estava muito acomodado, muito viciado, muito agenda. A pandemia terá um saldo muito grande para a humanidade e também para o jornalismo. É tempo de fazer algo com mais aprofundamento, com mais amadurecimento. Os jornais estão se reinventando. O mundo será totalmente diferente quando acabar essa pandemia", acredita.

O POVO: O senhor graduou-se em Direito em 1971 e em Comunicação Social no ano seguinte, em 1972. Como se costurou essa trajetória entre leis e letras? Sua formação no Direito reverberou no trabalho enquanto pesquisador e professor?

Gilmar de Carvalho: Essa costura não houve. Fiz Direito porque era um desejo do meu pai. Ele era Bacharel em Direito, foi promotor de Justiça em Granja, Quixeramobim e Sobral e veio para Fortaleza onde foi Procurador Geral do Estado. O sonho dele era que eu fosse do campo do Direito. Nunca tive vocação. Prestei vestibular em 1967, passei e comecei o curso. Era estudante profissional, pago para estudar. Fui bom aluno, fiz o curso em cinco anos e meu pai morreu dois meses antes da minha colação de grau. Quando fazia o segundo ano, resolvi que iria fazer o que queria e achava que seria minha praia: Comunicação Social. Prestei outro vestibular, em 1969, e tirei o primeiro lugar. Não fui atrás de brechas para me dar bem. Estudei o ano inteiro, deu certo. Naquele tempo, era possível fazer dois cursos na mesma Instituição. Fazia Direito pela manhã e Comunicação Social à noite. Era puxado, mas era o que eu queria. A barra era pesada. Nos dois Cursos tive professores dos quais tenho as melhores lembranças, como Roberto Martins Rodrigues, Mário Baratta, Adísia Sá, Luiza de Teodoro Vieira. Tinha também as pestes que entregavam a gente às autoridades do golpe, que houve, e teve consequências funestas para a vida brasileira. Nunca imaginei que teria um AI-5 na juventude e um governo desastrado de extrema-direita incompetente e retrógrado na velhice. Os dois cursos não deram "liga". Posso dizer que o Direito me ajudou nas aulas de Ética e Legislação no Jornalismo, que ministrei durante muitos anos. Nunca passou pela minha cabeça largar o Curso de Direito. Foi um compromisso assumido com meu pai. Não gosto de ter nada interrompido na minha vida. O que começo, levo até o fim. Tive noções de Direito Romano. Aprendi na Teoria Geral do Estado que a democracia se baseia nos partidos políticos, donde boa parte das crises que o Brasil vive, com legendas de aluguel, sem programas, sem ideologias. Era ainda mais forte o nepotismo, com professores levando parentes para serem assistentes. Otimista, eu acreditava que muita coisa poderia mudar e eu poderia ser professor um dia, graças a um concurso público, o que aconteceu anos depois.

OP: Ao longo de três décadas, o senhor lecionou na Universidade Federal do Ceará e acompanhou gerações de jornalistas e publicitários. Qual é o lugar do ensino em sua trajetória? Qual é a importância dessa construção da educação pública?

Gilmar: Sou apaixonado pelo ensino público e de qualidade. Não sei como seria minha vida numa particular, mesmo que se diga filantrópica, para não pagar impostos. O ensino me deu um espaço, como se diz hoje, "um lugar de fala". Trabalhei pouco em jornal, mas fiz coisas interessantes. Comecei publicando crônicas na Gazeta de Notícias. Saí porque me acusaram de escrever pornografia. Imagine pornografia em um jornal do Grupo J. Macedo, em 1969, com o Brasil governado por uma Junta Militar. Voltei à Gazeta e editei um tabloide chamado "Balaio", na Gazeta de Notícias (1972). Saí porque o jornal foi vendido e eu não cabia no novo formato. Trabalhei três anos reescrevendo normas técnicas em um escritório de engenharia. Caí em uma agência de publicidade, por sugestão da Dodora Guimarães ao Barroso Damasceno (Scala). Fiquei quatro anos lá. Augusto Pontes, o diretor de criação, queria que a gente lesse, o que não foi fácil. A agência adotou uma linguagem regional de publicidade e lá fui eu atrás de maracatus e pastoris. Comecei a guardar cordéis que depois foram usados no meu Mestrado. Fiquei mais uma temporada na Mark Propaganda. Fui bem pago, bem tratado e não tenho do que me queixar. O jornalismo e a publicidade me deram objetividade, concisão. Tinha de dizer tudo em pouco espaço e pouco tempo. Foi quando apareceu um concurso público da UFC para jornalismo impresso. Tirei o segundo lugar, ainda que o ideal teria sido me reprovar. Depois explico o porquê. O concurso foi em 1981. Em 1984, depois que a Justiça disse que o primeiro lugar não poderia assumir, por ter mais de 60 anos, resolveram me chamar. Mas não foi fácil. Parte dos professores, meus futuros colegas, não queria que eu fosse chamado porque era gay. Foi preciso uma mobilização dos alunos, Paulo Mamede à frente, como presidente do Centro Acadêmico, para reverter o quadro de homofobia. Conseguiram, conseguimos. A UFC me deu a oportunidade de eu me construir. Tinha 35 anos. Corri para fazer o Mestrado, logo que pude sair. Fui para a Metodista de São Paulo. É particular, mas é confessional. Foram anos de muita satisfação, de afirmação, de resultados. O lugar do ensino foi central. Tanto que deixei a ficção e o teatro. Não queria mais ser artista, mas um "scholar". Vivi intensamente estes anos de magistério superior.

OP: O senhor nasceu na cidade, o primeiro sertão foi construído na escuta, na imaginação. Como o encantamento pelo sertão cearense rebentou em sua vida? Como é adentrar o interior do Estado?

Gilmar: Nasci em Sobral e vim para Fortaleza com um ano e alguns meses. Fiz meu segundo aniversário aqui. Meu sertão era o da minha madrinha Dadá, de Granja, que cantava benditos como "Maria Valei-Nos", trechos da "Nau Catarineta" e sabia fazer petas e outros acepipes. Mantivemos os laços com Sobral através da Isolda Sousa, vizinha dos meus pais, à Rua Santo Antonio (hoje Padre Fialho). Fui um menino chato, destes que lêem tudo, de Proust a Joyce, de Guimarães Rosa a Clarice Lispector. Tinha o nariz empinado. Devia ser insuportável. Um dia, um amigo fluminense, Jandyr Henriques, de Campos dos Goitacazes, já falecido, me convidou para ir com ele a Juazeiro do Norte. Foi em 1976. Voltei completamente mexido. Vi um mundo que não compreendi, num primeiro momento, mas que sabia novo, sincero, sem afetação, sem frescuras. Era o mundo da religiosidade e das tradições populares. Voltei com 90 folhetos de cordel, embrião de uma coleção que vendi, em 2010 para a Universidade Estadual da Paraíba (Campus de Campina Grande). Visitei a Folhetaria São Francisco, dirigida por dona Maria de Jesus Diniz, filha do fundador José Bernardo da Silva. Conheci Mestre Noza, Expedito Sebastião da Silva, tanta gente, tanta coisa. Pequenas e grandes epifanias. E eu tendo de administrar aquilo tudo. Voltei ao Juazeiro do Norte para as pesquisas do Mestrado e depois do Doutorado, na PUC de São Paulo. Estudei Padre Cícero no cordel e na xilogravura. Minha grande imersão no sertão começou depois da morte de Patativa do Assaré, em 2002. Fui muito fundo com mais de 500 páginas de entrevistas, visitas mensais ao poeta e precisava dar um rumo para minha vida. Não queria ficar apenas no Cariri, ainda que seja a região mais rica. Conheci Francisco Sousa e embarcamos na direção do Ceará Profundo. Fomos à Ibiapaba, Sertão Central, Inhamuns, Vale do Jaguaribe. Visitamos todos os 198 municípios cearenses. Visitamos mesmo, indo pelas estradas vicinais, aos sítios mais remotos, em busca de rabequeiros e de manifestações culturais que valessem a pena ser registradas. Era uma viagem ao meu interior. Meio clichê de analisado, coisa que venho fazendo desde 1969, passando por várias técnicas, teóricos diferenciados, e terapeutas, médicos e psicanalistas. Hoje, trabalhamos a partir de Lacan. Posso dizer que conhecemos o Ceará melhor que autoridades que fazem viagens preparadas desembarcam dos jatinhos e vão para as Prefeituras. Enfrentamos o pedregulho, a areia, a extrema beleza e a profunda miséria. Vale a pena.


OP: Quais cidades cearenses mais te despertaram o olhar, a curiosidade do pesquisar, o desejo de escrever?

Gilmar: Nosso interesse é pelas pessoas, pelo que elas fazem, como elas aprenderam, qual a visão de mundo que têm. As cidades são contextos interessantes, são onde as pessoas vivem, trabalham, onde as coisas acontecem. Viajamos exaustivamente. Este ano não existiu. A última viagem que fiz foi para o aniversário do Patativa, dia 5 de março. Na volta, a pandemia, o caos, o negacionismo e a interferência dos governadores que foi decisiva para que não tivéssemos uma mortandade maior. Impressionante a pulsão de morte do senhor que ocupa a Presidência da República. Não sei como será 2021. Espero que tenhamos vacinas que possamos sair. Nossas viagens são bancadas por nós. Fazemos questão de não aceitar hospedagem, alimentação, combustível, revisão do carro, pneus. Queremos ter isenção para escrevermos o que achamos que devemos escrever ou fotografar. Gosto muito do Cariri. Juazeiro do Norte é a metrópole. E tem sempre novidades. A gente nunca sai de lá sem anotações, gravações, fotografias. Gosto de Tauá, da Ibiapaba, de Morada Nova, onde pesquisamos sobre velhos vaqueiros. Estas viagens me deram noção de que o cordel se espalhou e é feito em todo o Ceará, em boa parte, por conta das lan-houses e das gráficas rápidas. Essa constatação me levou a fazer o trabalho que faço agora. Ler cordéis feitos em Chaval, pelo Tadeu Durval; em Baturité, pelo Raimundo Julião; em Monsenhor Tabosa, pelo Pahé Pensa Fundo. Sonho em voltar a Ocara para conhecer o poeta Dim Raposo. O Ceará, como dizia o funk, tem o "sangue bom". Viajar energiza, fortalece as defesas, restaura a imunidade. É muito prazeroso.

OP: O poeta Patativa do Assaré foi um dos seus principais interlocutores: são mais de 50 horas de entrevistas e 10 livros publicados sobre o repentista. Como foi o processo de biografar vida e obra do Patativa, Gilmar? Qual é a importância de preservar essa historiografia?

Gilmar: Tivemos, não apenas eu, mas Rosemberg Cariry, Tadeu Feitosa, Oswald Barroso, Eleuda de Carvalho, Cláudio Henrique Sales Andrade, Fabiano Piúba, Tiago Santana, o privilégio de conhecermos Patativa e de nos relacionarmos com ele. Eu levei a amizade às últimas consequências. Viajei muito para vê-lo. Investi muito, mas era algo do campo da afetividade e não para vender livros depois. Patativa merecia estas maratonas. Era alguém muito especial, daquelas pessoas que de cem em cem anos nasce um. Quando morrem, quebram a forma. Incrível a coerência dele, a politização, a poesia que era poesia da melhor qualidade e não se "contaminava" por palavras de ordem, bordões. Era uma poesia que mantinha uma excelência e se inscrevia como algo que merecia um tratamento especial pelos gestores culturais. Fabiano Piúba fez o que prometeu: uma edição de uma antologia de Patativa para as escolas públicas do Ceará. O trabalho foi feito voluntariamente e envolveu até pesquisadores do exterior, como a holandesa Ria Lemaire, que vive em Poitiers. O complicado é que foi feita uma tiragem de mil exemplares. Queremos mais. Patativa não pode ficar confinado ao Assaré. A tiragem que Santa Catarina fez de Cruz e Sousa foi de cem mil exemplares, bancados pela Ambev. Temos grupos econômicos tão fortes no Ceará. A gente lê a relação dos nossos bilionários. Será tão difícil assim abrir a carteira? Penso que seja importante levar Patativa para as novas gerações. Faz dezoito anos que ele subiu. O tempo pode diluir a memória. Ainda bem que temos o Memorial e uma família que cuida da memória e dos objetos com muito cuidado. Precisamos de Patativa do Assaré, cada vez mais.

OP: A pesquisa da tradição marca o percurso de pesquisa do senhor. Em sua leitura, é possível pensar uma cultura nordestina? Como essas múltiplas e tão diversas linguagens dialogam?

Gilmar: Quando a gente padroniza, tenta fundir, e quer dar às teorias uma abrangência maior, é grande o risco do reforço aos estereótipos. Eu nem sei o que é o Ceará, se é que algum dia soube. Trabalhamos com uma ideia de cultura que se move, que se molda a novas situações, que tangencia, que se aproxima, se superpõe ou mistura coisas tão díspares, na busca de uma fusão. Se Pernambuco é tão diferente do Maranhão, Sergipe do Rio Grande do Norte, por que insistirmos na cultura nordestina? Tão difícil pensar em algo que dê certo para Milhã e para a Barroquinha, para Viçosa do Ceará e para Ererê. Penso que a educação deva viver estes impasses. Na cultura, os desafios são maiores. Claro que temos pontos em comum, que independem da língua, da colonização. Seria uma espécie de Fundo Comum da Humanidade. Mas se Deus está nos detalhes, a cultura faz questão de exaltar as diferenças, na construção do novo, que não se confunde com a novidade, como dizia Barthes. Temos uma certa dificuldade de conviver com a memória do tempo que passou. Daí nossa ânsia de demolição. Para a construção de coisas feias. Fortaleza não é uma cidade bonita. A praia do centro deu lugar a um estaleiro. E por aí vai. Penso que a cultura tem sua dinâmica e as coisas se ajeitarão. Não adianta pressa, nem políticas culturais equivocadas. Muitas vezes, precisamos dos insumos. Osmar da Tapioca chama a atenção para o fato de nossa goma não ser branca. Muita gente que trabalha com barro reclama da dificuldade de extração e transporte. Espedito Seleiro é exemplo de artista cearense de expressão internacional, mas tem seus problemas de comercialização. A umburana dos santos e gravuras continua sendo apreendida. Por que não buscarmos outras madeiras? Algumas questões técnicas precisam de esclarecimentos. Nunca a distribuição de modelos do que fazer, de como fazer. Já vi isso em Viçosa do Ceará e em Itarema. Fiquei muito constrangido. Creio que o pessoal que ministrava oficinas também. Por que o barro de Viçosa do Ceará precisa ter rendas decalcadas? Ou imitações de inscrições rupestres que não são de lá? Quando são manifestações da Indústria Cultural, não adianta reclamar. O forró será sempre tributário da sofrência, do axé, do brega. Faz parte. A vaquejada imitará rodeios e a cantoria continuará conservadora, para alegria do povo do RAP.

OP: O senhor conheceu muitos mestres da cultura popular cearense — de vaqueiras a rabequeiros — que foram reconhecidos como Tesouros Vivos. Qual é a importância da valorização desses modos de vida e de trabalho tradicionais e ancestrais, Gilmar? Nesse ínterim, no que as políticas públicas ainda devem avançar?

Gilmar: Quando comecei a viajar com o Francisco, em dezembro de 2002, não existiam os Mestres da Cultura. A legislação é de 2004. Vimos o fim de uma era e o começo de um novo tempo. Nunca fiz parte de júris que escolhem os Mestres porque assessoro muitos candidatos, escrevo textos, ajudo a fazer dossiês. Francisco faz fotos e vídeos de graça e a gente acha que, do ponto de vista ético, seria indefensável inscrever e julgar. A escolha dos Mestres se mostrou importante. As famílias e as comunidades passaram a respeitá-los. O dinheiro ajuda, mas não é tudo. As viagens os aproximam uns dos outros. Os Encontros (Mestres do Mundo) possibilitaram trocas muito ricas. Algumas terreiradas foram históricas. A Secult tem sido cuidadosa. Não sei como fazer. Não tenho receitas de bolos, mas penso que poderia haver alguma indução para que tivéssemos algumas manifestações presentes ao conjunto dos Mestres. Por exemplo: não temos um labirinteiro ou labirinteira. Falaram-me de uma senhora de Aracati, chamada Maria do Geraldo, que faz labirinto até em organdi. Dona Zefinha, que faleceu este ano, foi uma descoberta importante: rede de dormir feita em almofada, com renda de bilros. Síntese da renda portuguesa com a "ini" (rede indígena). Dona Raimundinha, do Trairi, é exemplo de escolha séria. Uma rendeira de bom gosto, politizada, preocupada com a moda, ensinando a moças da Timbaúba. Mandei de presente para ela o livro da Valdelice Carneiro Girão, sobre as Rendas do Ceará. Depois da morte da Nice Firmeza e da dona Assunção, de Juazeiro do Norte, temos pouca comida cearense. O canjirão de Itaiçaba e Aracati poderia estar presente, bem como a tapioca. Uma peixada exemplar e uma galinha caipira no molho ou na cabidela. As petas, sequilhos da Casa dos Licores, de Viçosa do Ceará. É preciso acabar com essa ideia de artesão rico, o que fez com que Espedito Seleiro fosse escolhido, retirado da lista e escolhido de novo, anos depois. Temos representantes de etnias indígenas e uma rainha de maracatu. Uma mãe de santo e tanta coisa importante. As políticas ainda não avançaram o bastante na parte da transmissão dos saberes que os mestres acumulam. Mas os avanços são grandes e a política me parece muito bem sucedida.


OP: No dia 15 de outubro, o Mestre Raimundo Aniceto — último integrante da segunda geração da bicentenária Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto — faleceu. Em entrevista ao O POVO, o senhor afirmou: "Parece que tudo foi dito sobre os Irmãos Aniceto. Não foi". Quais saberes encantados e subterrâneos nos traduzem os Aniceto do Cariri em píferos e zabumbas?

Gilmar: É preciso viver para saber, para sentir. Desaconselho o olhar de turista sobre qualquer manifestação, principalmente algo tão rico e tão visceral quanto os Irmãos Aniceto. A mídia vai lá, grava e pensa ter resolvido o problema. Importante voltar muitas vezes, ainda que a lógica do capitalismo queira respostas imediatas. Os jornalistas têm muitas pautas para cumprir. Por outro lado, quem vai fazer pesquisa acadêmica pode irritar o mestre ou o grupo. Muitas perguntas, muita insistência. Passamos uma semana no Juá, Irauçuba, para o vídeo sobre Mestre Vino (Chico Célio, Darwin Brandão, Helena Martins, Igor Caracas e Francisco Sousa). Deu certo. Os Irmãos Aniceto têm de ser compreendidos como um grupo que toca — muito bem —, que dança — uma dança anímica que vem dos indígenas — e tem seus segredos, seus mistérios, que precisam ser decifrados com o tempo, com paciência, com silêncios, com atenção redobrada. Desconfiem de quem saca tudo num olhar apressado. Quer se ver livre da incumbência. Eles têm uma concentração que o povo do teatro e da dança tem ou deveria ter. A performance acontece no improviso, ainda que cada apresentação se pareça com outra. Eles têm outra noção de tempo. Rejeitam a cronometragem dos eventos organizados pelos gestores públicos. É uma crueldade interrompê-los. Também não podemos ficar a noite inteira com eles. Tudo isso é de difícil montagem, equilíbrio, articulação. Precisamos de muita sensibilidade, o que não é nada fácil na hora da festa, no calor da hora. Os Aniceto são nosso lado indígena, difícil de serem arrumados nas gavetinhas.

OP: O Movimento Armorial, criado pelo dramaturgo e romancista paraibano Ariano Suassuna em 18 de outubro de 1970, completou 50 anos de lançamento em 2020. Quais as heranças do Armorial no Ceará? Que artistas e grupos continuam esta tradição?

Gilmar: Walter Benjamim dizia que todo documento de cultura é um documento de barbárie. Podemos dizer que todo movimento cultural é algo que se impõe pela força que o torna hegemônico, por um determinado período. O movimento cultural se afirma, em boa parte, pelo manifesto que traz. Mas, ironicamente, todo movimento tem sua data de validade. Ele tem de se diluir para poder "contaminar" outras manifestações, para continuar a se fazer presente. Todo movimento cultural se esgarça, perde a força, o vigor. Ele fez sentido em um determinado período. Para que movimento mais interessante que a Tropicália para sacudir o marasmo de uma ditadura militar? A ideia de volta, do retorno de algo que foi importante, é sempre um fiasco. O Armorial foi um movimento interessante. Manteve-se por mais tempo porque fazia boa música, boa gravura. O que fazia tinha um padrão de qualidade acima da média. Ariano Suassuna sabia bem dosar os ingredientes, tinha "boa mão". Mas não foi muito longe e não adianta termos saudades do que se foi. Vejo que tínhamos artistas que se relacionavam bem com o Armorial, como Natércia Campos, Eleuda de Carvalho, Virgílio Maia. Mas, ainda bem que não tivemos um "símile" ou um "cover" do Armorial. Penso que ele se diluiu e às vezes,a gente percebe traços dele. Mas não existe mais. Só na saudade de alguns. Precisamos ter nossos próprios movimentos, para não cairmos numa cópia mal feita ou num engessamento das manifestações culturais, ainda que puxados por bela teoria, sons competentes, cordéis mirabolantes, traços e cortes hieráticos.

OP: Por fim, o senhor compartilhou ao POVO em Páginas Azuis há 15 anos: "Os meus laços com Fortaleza estão cada vez mais frouxos. A minha relação com a Cidade hoje é de indiferença. (…) Não é a Cidade do meu projeto de futuro". Os seus laços com o interior cearense floresceram, mas como está sua relação com Fortaleza hoje? Revisitando o Gilmar de Carvalho de 2005, seu olhar sobre Fortaleza ainda é o mesmo?

Gilmar: Meu sentimento é algo visceral. O mal-estar não mudou. Apenas desenvolvi ferramentas para conviver com ele. Tenho sempre projetos, o que é ótimo. Estou sempre ocupado. Faço dois ou três livros de uma vez. Tento compensar as irritações, o tráfico de influências, outra vez o nepotismo, com trabalho, produção que eu penso ser de qualidade e o legado que pretendo deixar. Fortaleza piorou muito nestes quinze anos. A violência aumentou muito. Saio de casa todos os dias — antes da quarentena e espero que depois —, mas é sempre um risco. A culpa é das elites insensíveis, que concentram renda com uma velocidade estonteante. Os contrastes de Fortaleza me incomodam. O povo é muito pacato, conformado. Aceita tudo com muita resignação. Estou bem e minha meta é envelhecer sem perder a capacidade de indignação, como a que sinto ao ver a UFC sob intervenção do desgoverno Federal, mas sabendo dosar a amargura.

Quadro 1

Graduado em Direito (1971) e também em Comunicação Social (1972) pela Universidade Federal do Ceará, Gilmar de Carvalho é Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1991) e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo (1998). Sua tese, intitulada "Madeira Matriz - Cultura e Memória" recebeu o Prêmio Sílvio Romero, da Funarte,

em 1999. Também ganhou o Prêmio Érico Vanucci Mendes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Quadro 2

Autor de uma extensa bibliografia acadêmica e literária — como "Artes da tradição: mestres do povo" (2005); "Patativa do Assaré: um poeta cidadão" (2008) e "Memórias da xilogravura"(2010) —, Gilmar de Carvalho dedica-se agora a um livro sobre cordel, citando mais de 300 autores em uma acurada pesquisa. 

Quadro 3

Em 19 de setembro de 2005, Gilmar de Carvalho foi entrevistado das Páginas Azuis do O POVO. À época, o pesquisador conversou com Daniella Cronemberger e Felipe Araújo sobre sua trajetória em Fortaleza e a crise em política em Brasília. Agora, na era da virtualidade acentuada pela pandemia, Gilmar e a jornalista Bruna Forte trocaram dois dedos de prosa ora por telefone, ora por e-mail — com o desejo de um encontro presencial logo que possível, como todo repórter de rua gosta.

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