Itamar Vieira Junior pede licença à reportagem do O POVO para fazer uma pequena pausa na entrevista e abrir a porta do escritório que ocupa - pois "os cachorros querem entrar". À vontade, o autor dos romances "Torto Arado" (2019), "Salvar o Fogo" (2022) e "Coração Sem Medo" (2025) mostra um pouco sobre como se desenrola a rotina atual: tranquilo, cercado por livros, cuidando dos bichos de estimação, dedicado à leitura e à escrita. A calmaria é quebrada apenas pelos compromissos vinculados ao ofício - em geral, atender jornalistas para entrevistas e viajar para eventos no Brasil e no Exterior.
Apenas o romance de estreia, "Torto Arado", já foi traduzido para mais de 30 idiomas. O fenômeno editorial se revela no quantitativo de vendas e na adesão do público. Por semanas, a obra ficou entre as mais vendidas do País. Parte do sucesso, explica Itamar, se deve ao fator cronológico. Durante a pandemia, em 2020, quando todos estavam reclusos, ele conseguiu conversar virtualmente com leitores de centenas de clubes de leitura. O "trabalho de formiguinha" gerou frutos - que hoje passam pela adaptação para peças musicais, proposta de produção audiovisual e a ansiedade do mercado pelos "próximos livros de Itamar Vieira Junior".
Antes de se firmar como escritor, entretanto, o baiano construiu uma carreira na geografia como servidor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) - de onde está atualmente licenciado para se dedicar exclusivamente à produção literária. A literatura - com suas narrativas - e a geografia - com suas análises do mundo - se misturam na obra do escritor de 46 anos. O conjunto de três romances, chamado de "Trilogia da Terra", dá conta de um Brasil que Itamar encontrou primeiro nos clássicos da literatura brasileira e, anos mais tarde, no campo em contato com paisagens e personagens.
O POVO - Hoje você é um dos escritores mais aclamados do País e com uma obra muito consistente no sentido de vendas, de números e de uma espera dos leitores por saber qual vai ser o próximo livro que Itamar Vieira Junior vai lançar. Como você lidou e lida com a repercussão? Causa interferência na produção literária?
Itamar Vieira Junior - Ao longo dos anos tenho conquistado um público expressivo. Mas acho que não tem nenhuma interferência, não sinto nenhuma interferência. Embora os leitores manifestem expectativas, acho que é tudo de uma maneira muito natural. Não há nenhuma interferência nem dos leitores, nem dos editores, em relação às novas histórias. Às vezes, a urgência é minha, né? Eu já tenho 46 anos. Tenho uma vida literária que iniciou oficialmente quando eu publiquei meu primeiro livro de contos, há 12 anos. De lá para cá, eu publiquei cinco livros e um livro infantil, que é menor. Então, é um número aceitável para o tempo. E acho que a minha relação com os leitores não interfere em nada no que eu escrevo, nem nas ideias que eu tenho, nem de quando cada trabalho vai surgir e vai sair. Acho que essa é uma relação que eu tenho com o meu próprio projeto.
OP - Dentro desse marco temporal de 12 anos de publicação, quando você começou a se entender como um escritor?
Itamar - Demorou bastante! Não foi neste começo. 12 anos, 13 anos, na verdade. Eu escrevo desde a infância, passei a adolescência escrevendo. A primeira tentativa de escrever foi aos 16 anos. Eu cheguei a escrever 80 páginas de uma história naquele período, numa máquina de escrever. Mas a escrita sempre fez parte da minha vida. Embora eu nunca tivesse projetado, vamos dizer assim, esse meu interesse como um dom ou como alguma habilidade que se tornaria uma profissão. A escrita sempre fez parte da minha vida. Mas eu nunca assumi a identidade de escritor. Demorou bastante. Mesmo publicando. Eu publiquei dois livros - um em 2012 e outro em 2017 - eram dois livros de contos, mas, ainda assim, eu tinha dificuldade, eu não afirmava ser escritor.
OP - Mas temos "Torto Arado" - obra publicada em 2019 que é um sucesso editorial inegável. Como esse livro emblemático interferiu no processo de se reconhecer enquanto escritor?
Itamar - "Torto Arado" foi publicado em Portugal e eu precisei viajar para lá para fazer lançamentos. Antes de publicar no Brasil, fui receber o Prêmio Leya, e eu precisei falar com a imprensa. Falei com jornais e todos me apresentaram como escritor. Depois eu ia ler as notícias e eu falei para mim mesmo: "Vocês que estão dizendo que eu sou escritor, acho que posso assumir essa identidade também". Foi uma coisa que aconteceu naturalmente. À medida que eu chegava em cada evento literário e feira literária, ou que eu tinha um encontro com jornalistas e leitores, esse meu lugar era pontuado por essas pessoas. Muito das nossas identidades, inclusive a nossa identidade de trabalho, passa e é referendado pelas pessoas que estão à nossa volta. Então, foi assim que aconteceu, foi assim que eu passei a me chamar escritor também. E até colocar lá no formulário dos hotéis (risos). De fato, a escrita se tornou, pelo menos durante este momento, a minha principal atividade de trabalho.
OP - Então o Prêmio Leya funcionou como um divisor de águas na tua carreira?
Itamar - Foi, foi sim. Eu tinha publicado em duas editoras pequenas no Brasil, duas editoras da Bahia, antes da escrita do romance ("Torto Arado"). O meu segundo livro de contos foi finalista do Prêmio Jabuti. Mesmo tendo publicado por uma pequena editora, ele foi finalista do Jabuti. O que eu achei uma coisa muito boa. Mas o divisor de águas foi o Prêmio Leya. Eu escrevi "Torto Arado" e não tinha uma editora para publicar no Brasil. Eu cheguei a oferecer até para a editora que já tinha me publicado e não tinha cronograma ou acho que não tinha interesse. Para mim, só restaram os prêmios e os concursos literários. E o Prêmio Leya é um concurso às cegas. Se escreve com pseudônimo e eles avaliam o texto. E é um prêmio de grande importância, pois tem uma ampla divulgação para inéditos em Portugal. Ele chama atenção, além de tudo que o prêmio é, eu me lembro que eu recebi um valor de 100 mil euros por conta da publicação.
OP - Foi a primeira vez que você ganhou uma remuneração expressiva pelo ofício de escritor?
Itamar - (risos) Foi, foi a primeira vez que eu ganhei algo sólido e ativo com um trabalho literário. E isso me fez entender que este talvez fosse o caminho. Então, para mim, o Prêmio Leya foi muito importante. Importante, inclusive, para que eu conseguisse uma editora no Brasil para publicar. E, sem esse prêmio, talvez o livro não tivesse feito esse percurso.
OP - Você falou agora pouco sobre a máquina de escrever e sobre ter batido 80 páginas nas teclas quando adolescente. É algo que requer tempo e paciência, dois ingredientes que não temos na contemporaneidade, pois vivemos sem dar a devida atenção para o instante presente. Como esse tipo de relação interfere na escrita?
Itamar - Essa escassez de tempo que vivemos hoje tem uma relação com a atual fase do capitalismo. Onde toda fração de tempo livre é vista como um valor e nada pode ser desperdiçado. Nenhum tempo, né? Isso realmente é um grande desafio e a gente tem o princípio, por exemplo, das redes sociais, tem uma relação muito forte com a propaganda, com a mídia, com a publicidade. As pessoas perdem um tempo enorme nas redes sociais achando que estão tendo alguma interação social. Mas essas interações não têm validade, elas talvez não sejam duradouras. Essa relação que mantemos com o tempo, com horas de trabalho, tem uma relação com a atual fase do capitalismo. E aí você disse uma coisa certa, Isabel… O tempo da leitura e o tempo da escrita exige paciência. E é até um ato de resistência para não sucumbir em tempos tão acelerados onde hoje tudo é visto como valor, inclusive o próprio tempo.
OP - E como entender o ato de ler e escrever na atualidade?
Itamar - A leitura e a escrita exigem de todos nós uma quantidade de horas, uma quantidade de tempo, uma capacidade para refletir que o ser humano vem perdendo. E vem substituindo por posts, por cliques. A própria imprensa se preocupa muito com a manchete - que tem mais valor do que o teor da reportagem. Porque o que importa é ter anunciantes. E aí vivemos tempos estranhos, né? Onde a leitura ocupa um papel de resistência, porque ninguém lê um romance em dois, três dias. Pode até ler, mas não é o comum. A gente precisa de uma semana para degustar, para - em meio às atividades do cotidiano - poder refletir sobre aquela história. E a escrita do mesmo jeito. Ninguém escreve em três meses, seis meses. Passamos muitos meses, passamos muitos anos, às vezes, desenvolvendo uma história. E esse tempo é o tempo necessário, é o tempo adequado. É uma maturação. É uma luta diária. Mas vivemos tempos estranhos. A leitura ocupa hoje um lugar de ato de resistência. É um ato contra essa imposição de que tudo precisa ser rápido, tudo precisa ser imediato.
OP - Os seus livros são histórias de família?
Itamar - Pensando bem, talvez os livros de contos, não. Mas os romances, sim, pois eles têm como paisagem e pano de fundo a nossa história, a história brasileira. Mas eu sempre parto desse microcosmo social que nós chamamos de família. São os relacionamentos mais próximos, mais imediatos. A família é um núcleo micro da sociedade. Depois a gente vai ter várias escalas: a comunidade, a vizinhança, o bairro onde você vive. E pode pensar em outras escalas sociais e espaços sociais, mas a família é esse núcleo mais imediato. É onde os laços humanos de solidariedade, de divergência e laços mais imediatos, se desenvolvem. É mais fácil pensar a história e pensar a sociedade a partir desse núcleo. Nos três romances, a família ocupa um lugar importante.
OP - Então essa literatura, especificamente nos romances, acaba sendo também uma experiência antropológica?
Itamar - Eu acho que sim, Isabel. Como a minha formação é em geografia e em antropologia, então, é inegável que tudo aquilo que me interessa, tudo aquilo que me formou enquanto ser humano e todo o meu repertório intelectual atravessam o texto literário e a arte que eu me proponho a fazer. Acho isso fértil! Para mim, pelo menos, é fértil. É rico. Porque não está desconectado de outras compreensões do mundo e de outras compreensões de vida. Se eu olho para a paisagem e vejo ali camadas de história, camadas de tempo, isso se deve a minha formação. Se eu olho para o ser humano e costumo pensar a relação que eles mantêm com a história e com o seu meio social, da mesma maneira. Então, para mim, a antropologia e a geografia atravessam aquilo que eu escrevo sem descaracterizar o projeto literário. Elas, de fato, vêm para somar e para me permitir outra perspectiva que não seja somente a perspectiva da arte. Até porque a arte é um projeto estético, mas é um projeto intelectual também. E a nossa compreensão de mundo atravessa a nossa arte.
OP - Queria que nós retornássemos para as suas raízes, para tua história de infância… Quais memórias se conectam com o Itamar escritor?
Itamar - A minha família é mestiça, é uma família com muitas origens. A família de minha mãe tem ascendência portuguesa e negra. A família de meu pai tem ascendência indígena e negra. Meu pai tem uma história ligada ao campo. Minha mãe já é fruto da cidade. Eles se casaram muito jovens. Meu pai concluiu um curso técnico de contabilidade, minha mãe sequer concluiu o ensino fundamental. Eles tiveram quatro filhos, então, era uma casa pequena onde passávamos algumas dificuldades. A leitura se tornou essa janela para que eu pudesse conhecer o mundo, conhecer os lugares, conhecer outras pessoas. Para mim foi muito importante ter esse contato com a leitura.
OP - Mas essa leitura chega primeiro em um processo de letramento…
Itamar - Eu fui alfabetizado pela filha de um vizinho. Esse vizinho era dono de um armazém de cereais e tinha verduras também. Era a pessoa que tinha o pequeno comércio no bairro. E a filha dele, Marlene, foi a minha professora. Isso com 5 anos e meio. Ou antes, talvez. E ali, naquele momento, eu acho que um mundo novo se descortinou. Porque eu começava a ler as coisas. Tudo que chegava em casa - não os livros, pois os livros eram raros. Mas o jornal que vinha embrulhando o cheiro verde…
OP - E a ler o entorno também?
Itamar - Sim, os muros, os ônibus. Eu comecei a ver o mundo. O mundo poderia ser descrito por palavras, inclusive aquilo que sentimos e não sabíamos o nome. Das coisas que sentíamos e desses sentimentos difusos e diversos. E ali, naquele momento, eu comecei a ler.
OP - Então, chega a escrita?
Itamar - Sim. Foi nesse momento, poucos anos depois da minha alfabetização, que eu comecei a escrever. Cada história que eu lia me arrebatava, vamos dizer assim. Eu comecei a escrever para tentar reproduzir aquela sensação que eu sentia.
OP - Mas você falou que a presença de livros em casa era rara…
Itamar - Tínhamos uma enciclopédia em casa muito simples, que se chamava Enciclopédia do Estudante da Editora Abril. E essa enciclopédia tinha verbetes. Eu ia descobrindo os autores, os escritores e depois ia procurar os livros, pegava na biblioteca. Nesse momento, eu nem frequentava a biblioteca, mas eu tinha um vizinho que estudava numa escola que tinha uma boa biblioteca e ele fazia os empréstimos para mim. E assim eu tive contato com Machado de Assis, com Eça de Queiroz, com José de Alencar e com todos esses escritores românticos e realistas da literatura brasileira. Anos mais tarde, já adolescente, formado, eu comecei a ter contato com os autores brasileiros do século XX: Lima Barreto, Mário de Andrade, Jorge Amado, Rachel de Queiroz.
OP - Alguns dos autores que você citou têm obras que se conectam com a terra, com a representação do Brasil. Foi por esse mecanismo que a geografia chegou na tua vida?
Itamar - Ela chegou porque, muitos anos antes, talvez aos 10 anos, minha mãe descobriu que eu escrevia textos literários. Naquele momento, parecia mais dramaturgia aquilo que eu escrevia. Mas eu não sabia definir. Eram histórias. Ela ficou um pouco decepcionada, porque existia esse interesse na educação dos filhos. Ela achou que eu estava perdendo tempo. Talvez eu deixasse de fazer uma tarefa ou outra na escola para poder escrever e ela se mostrou um pouco decepcionada. E, a partir dali, eu passei a sentir um pouco de vergonha de dizer que eu escrevia ou deixar as histórias à mostra. Continuei a escrever, mas eu segui outro caminho. A geografia chegou porque, quando já estava no ensino médio, eu estudava numa escola e tinha uma biblioteca muito pequena. E nessa biblioteca tinha alguns livros de literatura, e depois que eu li tudo o que tinha lá, eu fui ler os livros de história e geografia e disse: "Nossa, geografia também me põe em contato numa outra escala, com lugares diferentes, com pessoas diferentes". Uma paisagem diferente! É tão bom entender como o mundo se movimenta, como o mundo funciona. E aquilo foi importante. Antes da geografia, eu cheguei a cogitar que eu seria jornalista (risos). Mas não prosperou essa intenção. Eu fiquei mais afeito à geografia. E assim que eu me formei, eu ingressei na universidade, depois me formei, fiz mestrado. Achei que seria professor de geografia, mas eu lecionei apenas por dois anos. Depois, fui trabalhar como servidor público no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
OP - Então, o vínculo com o Incra chega de maneira despretensiosa?
Itamar - Eu cheguei no Incra com aquela angústia que passa por muitos jovens brasileiros recém-formados: "Eu vou trabalhar com o quê? Eu preciso trabalhar, eu preciso me manter, eu preciso ajudar a família". A preocupação chegou dessa forma. Era um período que tinha concursos e eu fiz alguns concursos para ser professor, fui aprovado, mas no mesmo período eu fiz um concurso para o Incra e fui aprovado também. Eu cheguei no Incra sabendo um pouco do que se tratava o trabalho, mas sem saber exatamente o que era.
OP - E como a época de trabalho no Incra perpassa a produção literária?
Itamar - Eu era um jovem de 25 anos e achava esse trabalho muito interessante, pois me levava para o interior (do Brasil), para conhecer lugares e paisagens, para crescer. Era sedutor. Comecei a trabalhar no estado do Maranhão. Foi um choque ao mesmo tempo que era interessante. Um choque porque, quando eu cheguei no campo, vi aquelas obras que eu havia lido, que tinham sido escritas 60 ou 70 anos antes e eu achava que eram datadas, mas elas eram muito atuais.
OP - Foi um período que certamente contaminou a literatura que você faz?
Itamar - Ter contato com pessoas durante o meu tempo no Incra foi valiosíssimo. Talvez eu continuasse a escrever, mas as histórias que tratam do campo não tivessem essa densidade, essa profundidade que a experiência me deu.
OP - E agora, como é a tua relação com a instituição?
Itamar - Há três anos, quase, estou licenciado sem remuneração. Eu me afastei. Enfim, mantenho o vínculo. Mas foi algo que não passava pela minha cabeça que ia acontecer. Sempre achei que iria conseguir conciliar (o vínculo e a escrita). O caminho que o romance "Torto Arado" fez foi tão grande, tão vasto. É, tem traduções para 33 idiomas. E eu comecei a receber convites para fazer lançamentos fora, participar de festivais fora do Brasil, participar de atividades no Brasil e era impossível conciliar com uma carga horária de 40 horas por semana. Eu decidi pedir licença, até porque eu andava exausto. E faltava tempo para escrever. Eu disse: "Agora eu acho que eu vou tentar como escritor". Pelo menos por um alguns anos para ver como isso se transfigura.
OP - "Torto Arado" fez um caminho também para outras plataformas. Temos as traduções, proposta de adaptação para o audiovisual, peças teatrais realizando longas temporadas. Como você enxerga essa produção em outras plataformas?
Itamar - Eu acho que esse é um caminho natural. É muito bom e natural surgir esse interesse de quem trabalha com cinema e teatro de adaptar histórias. E eu achei muito interessante. Acho que as adaptações foram respeitosas com o autor e com o texto. Não participei ativamente de nenhuma delas, mas cheguei a assistir como espectador. E, como espectador, essas adaptações foram muito satisfatórias. Acho que conservaram a alma da história e deram uma outra energia. Acho que o teatro é mágico porque ele nunca se repete. Cada sessão é uma sessão. E o trabalho do escritor é solitário, porque é ele, sozinho, escrevendo. No teatro é um trabalho coletivo que envolve os atores, a iluminação, o figurino, o cenário e os diretores. São essas pessoas emprestando o seu corpo para que a história aconteça. É, para mim, fabuloso.
OP - Você falou sobre esses "outros Brasil" que encontrou ao trabalhar no campo e sobre esse País que estava descrito na literatura e como, de certa forma, era familiar, mas mesmo assim proporcionou um choque. Quando você começa a circular pelo Brasil e a receber convites de viagens. Você encontra também outro País?
Itamar - Tenho circulado bastante e participei de festivais literários, feiras literárias de norte a sul do País. Já há alguns anos, logo depois da pandemia, eu acho que isso acelerou. E eu tenho, sobretudo, encontrado os leitores. Porque o tempo que eu passo nesses lugares não é muito e não me permite de uma maneira muito intensa contemplar, refletir, pensar. Desfrutar mesmo. Mas eu gosto de conversar com os leitores, com as pessoas que me recebem. E eu saio sabendo sempre mais um pouco. O que eu posso dizer é que nosso País continua profundamente desigual. Ele ainda carrega as marcas do seu passado. Isso é algo que não vai passar nem nesta, nem na geração seguinte. Mas eu vejo um momento também promissor, eu sou otimista. Eu vejo um momento promissor, porque talvez, pela primeira vez, os leitores, aqueles que se interessam pela literatura, têm me mostrado que o Brasil tem se encontrado com o próprio país, tem se encontrado com as suas origens, tem renovado o seu interesse pelas coisas daqui. Literatura brasileira, só para ficarmos na literatura, já que é o campo que eu transito neste momento, tem se tornado mais diversa. Ela tem apresentado escritores de norte a sul do País. Temos os autores ocupando esse lugar de populares. Isso mostra que a nossa literatura cresceu nos últimos anos e que ela tem encontrado leitores. Isso mostra o interesse por essa nova literatura brasileira que está ancorada, ou pelo menos esboça, uma diversidade que é única, que é nossa. Talvez as pessoas estejam estejam atraídas pela literatura brasileira neste momento na tentativa de encontrar um País que não conhecem ainda. Ou, para alguns, o País que conhecem, mas que nunca viram retratado na literatura.
Acolhimento em Fortaleza
O escritor passou pela capital em dezembro de 2025. Na Biblioteca Pública Estadual do Ceará, foi realizado o lançamento de "Coração Sem Medo", livro mais recente de Itamar e que finaliza a Trilogia da Terra. O autor também participou da estreia de "Torto Arado - O Musical", montagem que realizou curta temporada no Cineteatro São Luiz. Na abertura, ele foi ovacionado pelo público.
Livro de cabeceira
Itamar Vieira Junior citou autores brasileiros de diferentes gerações. A leitura de cabeceira eleita é "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa: "É um livro que eu volto sempre que eu posso. Ele é um monumento. Algum escritor disse que se você leu a Bíblia e esgotou a Bíblia, 'GS:V' tem tantas histórias quanto. É uma obra atemporal, monumental, que fala da nossa brasilidade, da nossa história, de violência, mas também de esperança".
Visita ao O POVO
Na passagem por Fortaleza, Itamar visitou a sede do O POVO. Participou de programa na Rádio OPOVO/CBN, visitou os estúdios e a Redação. Leitores que trabalham na empresa solicitaram fotos e dedicatórias, sendo atendidos.