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"Não vou mais me negar lugares onde eu possa ser quem quiser"

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Silvero Pereira, ator, diretor e dramaturgo, já tem 20 anos de dedicação à pesquisa sobre o universon trans (Foto: JULIO CAESAR)
Foto: JULIO CAESAR Silvero Pereira, ator, diretor e dramaturgo, já tem 20 anos de dedicação à pesquisa sobre o universon trans

Já são 20 anos de pesquisa intensa e profunda no universo do gênero e da sexualidade - e isso em 37 anos de vida. Antes dessa imersão, porém, houve Mombaça, o "brincar de novela" na roça, a decisão de ir para Fortaleza, a Escola Técnica Federal, a descoberta do teatro… De lá até aqui o ator, diretor e dramaturgo Silvero Pereira conquistou muito. O coletivo artístico As Travestidas se expandiu e, hoje, é um dos mais reconhecidos do Estado, desdobrando-se até em bloco de Carnaval na Capital. Expandiu-se, também, o alcance da figura de Silvero, que conquistou a televisão e o cinema com  memoráveis papeis, de Elis Miranda (na novela A Força do Querer) a Lunga (no filme Bacurau, de Kleber Mendonça filho). Os aprendizados foram outra coisa a se expandir. A educação é destacada pelo artista como instrumento necessário e importante, tanto para o contexto macro quanto para vivências próprias. O que marca essa caminhada, acima de tudo, é a luta, por si e para outrem, pela liberdade de ser quem se quiser ser.

O POVO - O contexto do seu crescimento em Mombaça, da primeira infância até o começo da adolescência, favoreceu seu contato com a arte? Havia referências?

Silvero Pereira - Desde pequeno eu me sentia alguém que tinha alguma coisa com a arte, mas não entendia o que era ela, até porque Mombaça, no período que vivi lá - até os 13 anos, era uma cidade onde não tinha a cultura de se praticar e ensinar arte. O que acontecia é que professores que tivessem inclinação para artes, que soubessem pintar ou fazer artesanato, se prontificavam a fazer essas tarefas. O contato que eu tinha com a arte era esse. O que sabia é que quando eu tinha a oportunidade de pintar, construir coisas, trabalhar com material reciclado, eram momentos em que me sentia mais feliz enquanto pessoa. Lembro muito do meu contato com a televisão, porque aquilo que chegava para mim sobre o artístico vinha dos filmes da Sessão da Tarde, das novelas, dos programas, então aquele universo mágico me chamava muita atenção e eu brincava disso, de imitar os filmes e novelas, com meus colegas no quintal da casa, na roça. Era a maneira que tinha de me libertar e já produzir arte, mesmo que inconsciente.

OP - Em que contexto você veio para Fortaleza? Como, aqui, a arte se
inseriu na sua vida?

Silvero - Decidi vir para Fortaleza porque sempre fui uma pessoa com uma cabeça à frente do meu tempo. Com 13 anos, já me considerava um adulto de 20, 25, e sabia que Mombaça não iria me oferecer o que eu desejava. Decidi me mudar para Fortaleza com a perspectiva de conseguir melhorias na educação e no profissional - há 24 anos, isso ainda era muito necessário para que você fizesse uma faculdade se você não fosse de uma família rica ou de classe alta do interior. Eu tinha o desejo de me graduar, então um dos meus primeiros objetivos era sair de Mombaça para entrar numa faculdade. O que queria, mesmo, era conseguir uma educação que me levasse à universidade, independente da área que fosse. Vim a Fortaleza para trabalhar numa lanchonete de uma tia e fiquei lá por quatro anos. Trabalhava durante o dia, à tarde estudava e à noite voltava para o trabalho. Aconteceu que, quando estava terminando o Ensino Fundamental para entrar no Ensino Médio, a Prefeitura de Fortaleza lançou um projeto chamado Pró-Técnico, no qual alunos de escola pública poderiam ingressar na Escola Técnica Federal (atual Instituto Federal do Ceará) sem prestar o vestibular. Ou seja, a rede pública de ensino municipal tinha direito a 80 vagas diretas dentro do Ensino Médio da Escola Técnica. Eram mais de 400 alunos estudando para essas 80 vagas, e aí ingressei. A arte só vai aparecer na minha vida quando entro na Escola Técnica, com 17 anos, e tenho pela primeira vez a imagem de um grupo de teatro se apresentando. É quando vejo teatro pela primeira vez de verdade, com professores habilitados e alunos que gostavam. É onde sou fisgado.

OP - Você disse que saiu de Mombaça porque a cidade não te daria o que procurava. Hoje, como você vê o acesso à cultura e educação no interior? Há algum grupo teatral em Mombaça, por exemplo?

Silvero - Com certeza existe uma grande descentralização hoje. Isso se deve muito aos movimentos de cultura e educação que aconteceram nos últimos anos. Por exemplo, a inserção do Centro Cultural Banco do Nordeste na região do Cariri foi de grande importância para movimentar aquele espaço; a inclusão de um curso de artes cênicas no Instituto Federal do Ceará fez um mercado para professores habilitados em artes cênicas que pudessem também ser inseridos no sistema da educação; a arte-educação passou a ser obrigatória e o mercado se abriu; os editais de arte tiveram abertura para o interior, fazendo com que grupos artísticos de todas as áreas pudessem produzir mais. Existe uma série de mudanças na cultura e na educação e por isso acho que evoluímos bastante. Ainda hoje, porém, não existe grupo de teatro em Mombaça. Eu, com esse movimento de ser um artista da cidade, com projeção, sou uma das figuras que de vez em quando tentam levar trabalhos para lá, mas ainda com certa dificuldade. Mesmo havendo uma abertura da atual gestão municipal, que é até bem interessada em trabalhar essas questões, ainda existe uma dificuldade de entender a importância de implementar ações culturais na cidade.

OP - O momento em que você começou a entrar em contato com teatro foi mais ou menos o mesmo em que você se aproximou do Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT), do Theatro José de Alencar…

Silvero - Exatamente. O professor de teatro da Escola Técnica era o Paulo Ess e ele também era do CPBT, dava aula de tarde e dividia turma com o Joca Andrade, que dava aula de manhã. O Paulo me falou que existia um curso técnico para iniciantes no TJA que era muito importante e vinha produzindo grandes artistas na Cidade. Foi quando fui assistir à minha primeira peça de teatro, que se chamava O Destino a Deus Pertence, um texto do Ricardo Bessa dirigido pelo Paulo que contava a história da grande atriz cearense Gasparina Germano (1918-1998). A peça me comoveu muito e, um ano depois, me inscrevi no Princípios Básicos.

OP - Que importância teve para você o contato com uma formação múltipla, advinda de políticas públicas?

Silvero - Isso ficou muito claro quando ingressei na Escola Técnica. Vou voltar sempre a falar dela, porque é um ponto muito importante de virada na minha vida, como pessoa e como profissional. Falei do sistema educacional não ter como obrigatório o ensino da arte no ensino básico e fundamental, mas a Escola Técnica era muito à frente nisso. Para eles, era obrigatório esse ensino, realizado por profissionais da área. Quando você entra numa escola em que profissionais da área estão manipulando essa habilidade, você entende o amor por esse processo e o que ele pode ser na sua vida. Entendi que, embora estivesse entrando em uma escola técnica que me prepararia para o mercado de trabalho, o grande diferencial seria ter uma formação humana ao mesmo tempo, o que era a grande filosofia da Escola Técnica. Foi a grande virada para entender que tipo de profissional eu seria.

OP - Você inclusive também teve experiências enquanto professor. Em que contexto isso aconteceu?

Silvero - Foi ainda na Escola Técnica. Por volta de 2000, eu já estava morando sozinho e me sustentava através de um projeto que se chamava Escola Fora da Escola, no qual alunos da Escola Técnica recebiam bolsa para darem aulas em escolas públicas do que quisessem - matemática, química, artes plásticas. Decidi dar aula de teatro. O que aprendia com o Paulo Ess, replicava nas aulas na escola pública. Foi assim que fui aprendendo a ser professor de teatro, construindo minha didática. Dois anos depois, a partir desse projeto, fui convidado a dar aula de teatro em uma ONG em Aquiraz chamada Fundação Parque do Tapuio. Acabei sendo contratado, fiquei lá durante 12 anos e montei um grupo chamado Passos de Teatro, no qual desenvolvi meu trabalho não apenas como professor, mas diretor e escritor.

OP - Foi em 2000, também, que você começou sua pesquisa no universo trans, até estrear o primeiro solo, Uma Flor de Dama, em 2002. Partindo desses 20 anos, como você avalia a trajetória da sua pesquisa, que se expandiu em outros espetáculos, TV, cinema?

Silvero - Eu estava encerrando o ensino médio em 2000 e tive acesso a um conto do Caio Fernando Abreu para realizar um seminário sobre autores brasileiros. Decidi trabalhar com o livro Dragões não conhecem o paraíso (publicação de 1988) e tive acesso ao conto Dama da Noite, que, deposi de dois anos de pesquisa gerou a adaptação teatral Uma Flor de Dama, meu primeiro solo com a temática LGBTQIA . Não foi uma coisa que pensei em construir dessa forma, foi acontecendo naturalmente. Decidi fazer esse espetáculo sem ter o menor contato com o movimento LGBTQIA . Não sabia dos movimentos, das ONGs, das lutas de diversidade e gênero - estamos falando de 20 anos atrás, com lutas completamente diferentes das que existem hoje -, mas só sabia que eu estava muito incomodado. Primeiro por ser um cara assumidamente homossexual que convivia no teatro, um lugar aparentemente muito permissivo e libertário, mas que era cheio de preconceitos com pessoas travestis e transsexuais. Praticamente todas as atrizes travestis e transexuais da minha época, que se formaram junto comigo, tiveram que abandonar o teatro por preconceitos que outros artistas tinham com elas. Diziam que elas tinham que fazer arte em boate, não no teatro. Meu primeiro impulso para montar esse trabalho partiu de questionar o próprio movimento artístico. A partir desse impulso e da montagem da peça, o movimento LGBT da época passou a me inserir nessa militância. Começaram a assistir ao espetáculo, a entender o projeto e a me convidar a fazer parte de seminários e ações que realizavam. Quando vi, naturalmente estava dentro do movimento. Acabei sendo um artista militante sem muita pretensão de ser, pelo próprio movimento que estava acontecendo. Depois disso, não consegui sair, porque o teatro se tornou muito importante na minha vida por ser um espaço que me atraía pelo político-social, por ser instrumento de questionamento, provocação social e de possível transformação. Através dessas três diretrizes - questionar, provocar e transformar -, comecei a traçar minha trajetória e minhas decisões na arte.

OP - Nesse percurso, é impossível não falar do coletivo As Travestidas. Como surgiu o grupo?

Silvero - As Travestidas se firmaram mesmo em 2008, depois da passagem do Zé Celso (diretor, dramaturgo e criador do Teatro Oficina) pelo Theatro José de Alencar com As Dionisíacas. Inclusive, a gente se intitulou "As" Travestidas como uma crítica a essa passagem. Nós tínhamos na época pouquíssimos grupos com apoio financeiro da Secretaria de Cultura e do sistema público do nosso Estado, mas um grupo de São Paulo chegava com um apoio de R$ 700 mil para fazer uma temporada. A estreia das Travestidas aconteceu exatamente três dias depois da temporada de As Dionisíacas no TJA. Nessa época, estava dando aula no Princípios Básicos - porque acabei virando professor de 2007 para 2008 - e, por isso, comecei a encenar Uma Flor de Dama nos espaços do teatro, nas salas que existem por lá. Isso foi atraindo muitos alunos do Princípios e muitos deles se tornaram integrantes do coletivo logo depois, como Jesuíta Barbosa, Yasmin Shirran, Verônica Valenttino, Patrícia Dawson, todas essas pessoas que estão comigo até hoje.

OP - É interessante que o primeiro trabalho do coletivo foi o Cabaré das Travestidas, justamente unindo o palco da boate ao do teatro. Que mensagem a existência do coletivo passa para o Ceará, o Nordeste, o Brasil?

Silvero - Foi como um contragolpe ao que estava acontecendo na classe artística, uma forma de ir contra esse movimento e trazer essas manifestações artísticas para dentro do teatro. Nesse período, eu já estava fazendo graduação em Artes Cênicas e meu ponto de estudo para a finalização do curso foi exatamente a questão da travestilidade com a teatralidade, a artesania e a construção do movimento drag através do figurino, da maquiagem, da interpretação. Várias performances de dublagem me comoviam muito mais do que tantas peças de teatro que estavam acontecendo na Cidade. A gente tinha que inserir esse movimento como mais uma modalidade das artes cênicas e começa isso com As Travestidas, levando o público para ver performances não só nossas, que éramos atores transformistas - como a gente se intitulava na época -, mas também convidando as drags, transformistas e divas de boate para estarem junto com a gente nesse movimento. As Travestidas conseguiram, ao longo de tanto tempo, tirar um pouco essa imagem do gueto e desconstruir o preconceito sobre as travestis, transexuais e a arte drag no nosso Estado. Isso porque, quando a gente faz o movimento de ir das boates, que são lugares mais restritos para uma comunidade específica, para o teatro, já ampliamos a discussão para outras comunidades que não apenas a nossa comunidade LGBTQIA . A gente acaba gerando mais conceito do que preconceito sobre o assunto, ampliando e transformando o pensamento. Esse é o ponto principal das Travestidas. A gente, hoje, não se intitula um grupo de teatro como no começo, mas um coletivo artístico, porque trabalhamos também com dança, audiovisual, bloco de Carnaval. Somos um dos maiores blocos de Carnaval de Fortaleza, talvez o maior, mas que não abre mão da questão do discurso, mesmo sendo uma festa extremamente popular e de entretenimento.

O POVO - Em um cenário geral, como você avalia o percurso da pauta da diversidade e do gênero dos anos 2000 até aqui?

Silvero - Uma coisa muito importante para que houvesse uma grande virada parte do movimento das ONGs LGBTs, que construíram uma rede de pautas que pudessem ser levantadas ao Brasil inteiro. Organizações do Nordeste ao Sul que foram construindo pautas que precisavam ser discutidas e aproveitaram o movimento político da época - que de fato escutava, acompanhava essa discussão e podia inclusive financiar projetos que pudessem falar sobre essas questões. Isso cresceu muito por conta desse movimento, que foi virando uma rede não só de artistas, mas também de instituições que começaram a educar as pessoas. O que a gente está colhendo hoje é o que a educação constrói durante muito tempo. Coisas que foram plantadas há 10, 15 anos, e que só hoje a gente consegue ter frutos.

O POVO - O quanto você acredita que a sua visibilidade maior na novela, no programa do Faustão - dois exemplos de entretenimento muito popular no país -, por exemplo, pode ter ajudado as causas defendidas por você?

Silvero - Essas experiências proporcionaram uma amplitude no meu discurso, na minha voz, que antes era muito restrita a um segmento específico, por fazer teatro no Nordeste. O alcance que eu tinha com as minhas discussões sobre gênero, diversidade, sobre ser nordestino, vir do interior, ser uma figura pobre, ter estudado em escola pública, todas as adversidades que passei, eram todos discursos muito fechados para um público específico. A televisão, através da novela e do Show dos Famosos (quadro do Faustão) me possibilitou que as pessoas tivessem mais acesso à pessoa física do Silvero e também à pessoa jurídica que o Silvero representa. As Travestidas, o coletivo que trago como bandeira, a comunidade que tanto levanto, as discussões nos meus trabalhos fizeram com que as pessoas, a partir do Silvero, procurassem também mais informações sobre essas questões - diversidade, gênero, preconceito, xenofobia, enfim, sobre tudo isso que envolve a minha existência enquanto pessoa, enquanto artista e enquanto sociedade. Foi possível através desses meios ampliar a minha voz, minhas inquietudes, meus questionamentos e minhas provocações sociais.

O POVO - Pensando em movimentos de mudança, reeducação, em uma entrevista ao O POVO de 2016 você questionou a representatividade nas telas, dizendo: "Para fazer nordestino, só pode ser nordestino? Para fazer Hamlet, só pode ser um branco dinamarquês?". Mais recentemente, em uma entrevista sobre Bacurau, você afirmou que Lunga era uma personagem trans no roteiro original e, por isso, argumentou com os diretores que ela deveria ser interpretada por uma mulher trans. O papel acabou sendo reescrito. O que mudou para você nesse tempo?

Silvero - A gente tem que territorializar as coisas. Continuo achando que, para fazer Hamlet, não precisa ser um branco de olhos azuis. Isso parte dos impulsos que você tem. Quais são eles? Eu, por exemplo, estou produzindo um Hamlet durante a quarentena. Não sou um branco de olhos azuis, mas tenho uma série de impulsos que me movem, transformam e questionam nessa dramaturgia. Se, dentro de um movimento, o lugar de empregabilidade e visibilidade só pode ser construído se for através dessas discussões e da valorização dessas pessoas nesses espaços, acho que, sim, a gente tem que valorizar isso e fazer isso valer na conta. Não posso tirar o lugar de representatividade e de empregabilidade de alguém. Eu, Silvero, mesmo sendo um ator assumidamente homossexual, tenho meus privilégios enquanto figura cis de conseguir outras oportunidades, sendo que as mulheres trans dificilmente terão as mesmas oportunidades que eu. Preciso ter a consciência, diante dos privilégios e oportunidades que tenho, que não posso aniquilar a oportunidade do outro que tem esse espaço para construir uma trajetória. Nós vivemos numa sociedade que ainda não está aberta para quebrar isso, o mercado de trabalho audiovisual ainda é muito preconceituoso. Eu mesmo, enquanto ator, só após Bacurau passei a ter convites para fazer coisas que não sejam sobre gays, travestis ou transexuais. Antes, só chegavam convites nessa perspectiva, porque é um mercado de trabalho ainda muito cheio de caricatura. Fui educado, fui me reeducando e fui construindo minha nova perspectiva. Toda a história que construí até agora foi para dar terreno e força para que esses movimentos sigam em frente.

O POVO - Em maio passado, no tapete vermelho do Festival de Cannes, e em novembro, recebendo o prêmio de Homem do Ano no Cinema pela revista GQ, você fez questão de ir como seu "alter ego de liberdade" Gisele Almodóvar. Foram posicionamentos e discursos, a partir da performatividade, sobre gênero, estereótipo, representação. Como você encara, de um ponto de vista pessoal, esses temas hoje?

Silvero - Fico sempre pensando quais são os espaços que tenho para questionar a masculinidade e o patriarcado da sociedade. A partir do momento que tenho a oportunidade de um holofote e posso levar a minha causa adiante, vou fazer isso a favor dela. Atravessar o red carpet como um ator desconhecido em Cannes, que nunca esteve ali, poderia ter sido uma passagem simples. Atravessar de Gisele Almodóvar foi uma grande revolução dentro do evento. Fui a única pessoa do filme a ter uma foto exclusiva no Instagram do festival, meu vestido foi eleito um dos sete mais bonitos, muitas pessoas começaram a pesquisar sobre o Silvero e porquê ele está vestido daquela forma. A partir desse porquê, chegaram nas questões que o Silvero vem levantando ao longo de 20 anos. De alguma forma, eu estava lançando olhar sobre as questões, os corpos e as 'corpas' que existem no País. Nas pré-estreias de Bacurau, fiz um jogo de gênero, em algumas fui de Silvero, outras fui de Gisele, então ficava sempre a curiosidade de como iria aparecer naquele dia. Quando ganhei o prêmio Homem do Ano, foi para dizer "vocês estão premiando um homem que na verdade é completamente contra essa ideia de 'homem' em nossa sociedade". Fico muito me questionando esse lugar do masculino. Fico muito honrado, mas se vocês estão premiando o Silvero como homem do ano, saibam que ele não é a representação do "homem" na nossa sociedade. Essa relação de gênero, masculino e feminino, não entra na minha percepção enquanto vida. Decido ser Silvero-masculino ou ser Gisele-feminina quando quiser. Resumindo tudo: durante muito tempo da minha vida, fui proibido de colocar para fora o meu lugar feminino. Hoje, com a oportunidade e o empoderamento que tenho, não vou mais me negar lugares onde eu possa ser quem quiser, possa me vestir da maneira que eu quiser, possa me comportar da maneira como eu quiser.

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