Pause

Aposta no fazer artístico é positiva para a saúde mental

Aproximar-se de diferentes maneiras do fazer artístico, mesmo de forma amadora, ajuda na saúde mental e é uma boa pedida para o momento de isolamento e quarentena
Edição Impressa
Tipo Notícia Por
Tutoriais, inspirações nas redes sociais e materiais via delivery foram alguns dos ingredientes que levaram Janaína Barros a arriscar-se na pintura nessa quarentena (Foto: Iara Monteiro / divulgação)
Foto: Iara Monteiro / divulgação Tutoriais, inspirações nas redes sociais e materiais via delivery foram alguns dos ingredientes que levaram Janaína Barros a arriscar-se na pintura nessa quarentena

Logo na abertura do poema "O que alguém disse", escrito pela portuguesa Florbela Espanca, a poeta avisa: "refugia-te na Arte". Assim mesmo, com A maiúsculo, como numa reverência a tal refúgio. No momento atual, em que o período de isolamento já se aproxima dos três meses, a arte se mostra como uma fiel companheira e ajudante para encarar a si mesmo e às próprias emoções nesses tempos. Seja em um contato amador ou "oficial", como no caso da prática da arteterapia, aproximar-se do fazer artístico desponta como um dos principais meios para cuidar da saúde mental.

Essa aproximação pode ser um precioso reencontro, como no caso da professora de balé Janaina Barros. Cearense, ela se mudou há um ano para Seattle, nos Estados Unidos, onde tem passado o período do isolamento ao lado do marido e da filha. A partir de postagens de uma amiga designer que compartilhava trabalhos, inspirou-se a se arriscar na pintura. "Estou num reencontro com o desenho - quando adolescente sempre gostei muito de desenhar roupas -, porém pintar sempre foi uma barreira: lidar com as cores, mexer com tinta, sem falar no custo dos materiais", inicia Janaína. 

Alguns dos trabalhos feitos pela professora de balé Janaína Barros no período da quarentena
Foto: Iara Monteiro / divulgação
Alguns dos trabalhos feitos pela professora de balé Janaína Barros no período da quarentena

Procurando vídeos na internet e pesquisando locais que faziam entrega de materiais, viu que a ideia era acessível. "Comecei a pegar dicas, ver vídeos. Fazia isso por algumas horas e depois levantava do sofá e ia, inspirada, fazer experimentos sobre o que foi ensinado", reconta a artista amadora. A professora de balé divide ter Transtorno de Déficit de Atenção e vê o contato com a pintura como algo "transformador". "É um desafio em todos os sentidos, já que exige foco e disciplina", ressalta, afirmando que vê o impacto da arte na saúde mental como "positivo e agregador". "Nesses meses onde o impacto da desatenção e da angústia poderiam estar em alta e causando um desconforto muito grande, tenho percebido que todo o processo (da pintura) tem sido muito gratificante. Tem sido transformador me colocar nesse canto, ficar em silêncio e perceber cores, pontos de luz, tentar experimentar, finalizar. Me sinto vitoriosa a cada pintura que finalizo, não só pelo que está no papel, mas por todo o processo a que me propus", celebra.

A psicóloga Eveline Rêgo, assim como Janaína, também se reaproximou do fazer artístico no período do isolamento. "Sempre gostei de desenhar e ter rascunhos, papel, lápis. Dentro desse contexto, por várias vezes me peguei nessa prática desse rabisco e pensei 'vou desenhar!'. Comecei e gostei muito, é realmente uma terapia com efeito interior. Me reorganiza, me faz ser mais clara", considera. Como ressalta a psicóloga e artista visual Laura Moreira - da conta do Instagram @laubordando, onde dá dicas e disponibiliza tutoriais sobre bordado -, a conexão com o processo de fazer é um dos ganhos que o fazer arte traz consigo. "A atividade manual enquanto prática artística traz uma série de efeitos super interessantes para a nossa mente. Além de ser um caminho para expressão de emoções, o fazer com as mãos nos trás também uma nova relação com o tempo. No nosso cotidiano, somos bastante desconectados do processo das coisas e poder acompanhar e criar algo do zero tem esse poder de trazer satisfação e significado", explica Laura.

Artista e psicóloga, Laura Moreira destaca que a conexão com o processo manual ajuda a ressignificar relação com o tempo
Foto: Laura Moreira / divulgação
Artista e psicóloga, Laura Moreira destaca que a conexão com o processo manual ajuda a ressignificar relação com o tempo

A prática pessoal de Eveline, ela conta, tem ajudado também na prática profissional. "Sempre percebi como a arte na terapia ajudava a expressar, elaborar e ressignificar situações e momentos da vida. Nesse momento que tenho trabalhado por teleatendimento, tenho orientado a algumas pessoas que têm se sentido mais agitadas, preocupadas, a procurarem elementos do desenho, da arte, das cores, no que se tem em casa", afirma a psicóloga, que destaca: "O desenho foi uma das primeiras maneiras das pessoas se comunicarem. Toda vez que a gente desenha, estamos comunicando alguma coisa".

Esses resultados do uso da arte como ferramenta aliada são especiais para um momento de emoções confusas e em ebulição. No entanto, Laura destaca que é importante não fazer desse contato manual algo baseado na lógica de ser "produtivo". "O fazer artístico pode ser um aliado nesse momento, mas é importante lembrar que o objetivo não é entrar na lógica da produtividade, mas sim encontrar um momento no dia em que você possa realizar algo que dá prazer, que cria espaço para a expressão pessoal e que pode ajudar a acalmar o fluxo de pensamentos. O importante aqui não é o resultado. É o processo desse fazer", ensina.

Artista visual Beatriz Soares produziu na quarentena a série de vídeos
Artista visual Beatriz Soares produziu na quarentena a série de vídeos "Ficar sem AR TE sufoca", que aborda pontos da arteterapia

Arte como ar: conheça projeto sobre arteterapia criado pela artista Beatriz Soares

Para a artista visual Beatriz Soares, a arte foi, desde cedo, um meio de expressar sentimentos e elaborar experiências. No contexto desafiador que se impôs ao ano de 2020, a jovem quis dividir com os outros o quanto o fazer artístico lhe fazia bem para tornar mais leves dias difíceis. É a partir daí que ela, após estudar o assunto em livros, artigos e filmes, criou o projeto “Ficar sem AR TE sufoca”, voltado a explicar de maneira simples e direta preceitos da arteterapia a partir de vídeos curtos - todos já disponíveis no Instagram da artista.

A base de estudo de Beatriz foi o livro “Arte como terapia”, de Alain de Botton e John Armstrong, no qual são listadas sete funções terapêuticas da arte: Rememoração; Esperança; Sofrimento; Reequilíbrio; Compreensão de si; Crescimento; e Valoração. “Por meio de ilustrações, animações gráficas, fotografias e recursos visuais, foram criados sete episódios, buscando fornecer uma perspectiva artística e didática”, inicia a artista. “Há breves reflexões pessoais, devidamente narradas por mim e alinhadas à comunicação visual, o que também traz alguns trabalhos relacionados, muitos dos quais são conhecidos pelo público em geral”, afirma.

Na experiência pessoal de Beatriz, a arte é ferramenta de reflexão e expressão e, por isso, ela se engajou em dividir esse potencial. “Ficar sem arte é como ficar sem ar. Acredito também muito no potencial de aprendizagem e amadurecimento através da arte. O contato com ela oferece um leque de possibilidades, como uma visão terapêutica que nos tranquiliza; nos dá ainda acesso a uma melhor versão de nós mesmos e nos auxilia a ter uma vida mais plena”, observa. “A arte pode ser um poderoso canal de expressão da nossa subjetividade, permitindo-nos acessar conteúdos emocionais e reelabora-los. Ela nos ajuda a criar uma realidade alternativa, na qual é possível figurar e reconfigurar nossos relacionamentos com nós mesmos, com os outros e com o mundo”, finaliza.

">

Confira o projeto em: @beatrizsoaress__
Mais informações da artista: www.biasoares.com.br

Onde pedir materiais

Mormaço (@lojamormaco)

As filias do Centro e do Edson Queiroz da loja de art e decor estão fazendo entregas. No Instagram @lojamormaco, é possível ver os números de contato de cada estabelecimento. É possível encontrar opções de tintas, pincéis e telas

Fort Tudo (@forttudo)

A loja de variedades disponibiliza alguns itens relacionados ao fazer artístico, como tinta, canetas, lápis, cadernos. Vale entrar em contato com o teleatendimento do local para ver mais possibilidades. Mais informações em @forttudo.

CDMAX Store (@cdmaxoficial)

No Instagram @cdmaxoficial, é possível encontrar os números de contato para pedir itens via delivery na loja. Há grande variedade de papelaria e arte no estabelecimento.

Onde se inspirar

Sobrado Dr. José Lourenço (@sobrado154)

O equipamento cultural oferece no Instagram tutoriais de brinquedos recicláveis e isogravura e, além deles, o feed também ajuda a inspirar - exposições e obras que passaram pelo local estão sendo relembrados nos posts.

Laubordando (@laubordando)

A artista e psicóloga Laura Moreira disponibiliza diversos tutoriais inspiradores no IGTV de sua conta. Há desde timelapses (vídeos rápidos) de processos a dicas de como fazer novos pontos.

Leveza Ateliê (@levezaatelie)

Indicado por Laura Moreira, o Leveza Ateliê tem disponíveis no IGTV tutoriais trazendo opções de peças que podem ser feitas a partir da técnica do macrame.

Rayana Rayo (@rayanarayo)

Outra dica de Laura, Rayana Rayo é uma artista de Recife que vem dividindo na rede social técnicas do tear. Ela fala, ainda, dos próprios processos criativos. A inspiração é certa.

Roberta Maia (@atelierobertamaia)

A artista alagoana, também indicada por Laura, disponibiliza na bio do perfil um link de acesso para o download gratuito de um e-book produzido por ela com diversas mandalas para colorir. O perfil, naturalmente, também é fonte certa de inspiração.

 

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais