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Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.

Izabel Gurgel arte e cultura

Museus e criança

Tipo Crônica

Dezoito de maio é o dia internacional dos museus. Internacional quer dizer, então, que a data vale para o Ocidente e o Oriente? Vale para as crianças da Palestina e as de Potengi, onde o mestre Antonio Luis mora em uma casa-museu no sítio Sassaré?

As crianças nos ensinam, ou nos fazem lembrar, que é possível ter interesse pelo que não conhecemos. Vivem a eterna porque mutante descoberta do mundo. Como um bom museu, elas são mestras em olhar para fora a partir do que lhes acontece por dentro. Anotei historinhas com criança. Quase todas de antes da pandemia.

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"Mãe, por que esse pezão é tão importante", perguntou Luana à mãe galerista, sobre Abaporu, pintura da Tarsila do Amaral.

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O caminhão ia pesado e devagar. Carregava o parque de diversões. Desmontado, claro. Ficou mais lento ainda quando passou em frente à escola, fim do turno da manhã. Ângelo teve um motivo a mais para chorar ao ver o parque indo embora. O que de fato aconteceu.

Só no pensamento e, sem perceber, mexendo os lábios, percorreu o que estava escrito no para-choque da frente: "tra - go trago a - legria alegria". E disse baixinho o da traseira: "le - vo levo sau - da - de". Subiu a rua correndo e, até entrar em casa, não parou de repetir: "Trago alegria. Levo saudade. Trago alegria. Levo saudade".

Havia aprendido a ler.

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"Raoni, por que você não veio à aula ontem?", pergunta a professora ao menino de cinco anos. "Estava ensinando meu pai a escrever o livro dele."

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A cadela chegou no dia em que Sofia fez 6 anos. Presente de aniversário. Latiu ao ver o gato Graciliano, como se o reconhecesse de outras vidas. Ganhou o nome de Baleia. Sofia: "Mãe, por que a Baleia não pode ser minha irmã de sangue?".

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Ela tem 8 anos. E duas bibliotecas: "Uma de estudar. A outra é só de ler", explica. "Como é isso?", pergunta o tio. "Uma tem os livros de tarefa da escola. A outra tem uns 50 mil livros", diz Juliette. Espanto: "50 mil?". Juliette: "Cada livro de historinha que você vê tem um monte de outros livros dentro dele".

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Maria Eduarda, 3 anos e meio, brinca de fazer bolinha de sabão: "Ai, ai, ai, saudade delas!".

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A última é do tempo pandêmico. Por telefone, converso com Flor: "Como está a escola, FlorFlor?". Cansada de explicar as coisas pra gente grande, ela repete: "Não tem escola, tia BelBel, só tem aula".

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É isso. Ao contrário da maioria de nós, as crianças seguem no modo espanto, o que não cessa de cutucar qualquer lógica estabelecida. Não está normal. Não existe novo normal. E não tem volta. Tão absurdo quanto professor indo para uma escola cristã dar a aula remota que poderia fazer de casa é criança desaparecer do mundo por assassinato em série, não importa a crença.

A historinha que não passa de passar no meu juízo cintila no fragmento "Duas doses de uma vacina que já existe". Li no instagram @museudolapis. Preto no branco, tipo explicação do mundo cada vez mais explícito. Modo luto.

 

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