Érico Firmo
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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

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NOTÍCIA

A relação de Camilo e Bolsonaro

Camilo é o petista que mais fala bem de Bolsonaro, por justiça e por interesse
Camilo é o petista que mais fala bem de Bolsonaro, por justiça e por interesse

Camilo Santana (PT) foi o primeiro governador a ter um pleito relevante atendido pelo governo Jair Bolsonaro (PSL). Não deu tempo, é verdade, de outros nem pedirem nada. No segundo dia do ano, começou a maior série de ataques da história do Ceará, uma das prolongadas e intensas que o País já conheceu. Houve estranhamentos bobos, com o presidente e ainda mais com o vice-presidente. Porém, no aspecto técnico, a condução do ministro Sergio Moro foi irretocável. Os pleitos foram atendidos com velocidade. A parceria funcionou. Não é favor. O interesse não é do governador, mas da população. Cabe aos governos cooperar, independentemente de futricas políticas.

A boa relação prossegue e tem forte significado político. Camilo Santana é, disparadamente, o petista que mantém melhor diálogo com Bolsonaro. Ele não é apenas petista. É aliado a Ciro Gomes (PDT). Os acenos de Camilo a Bolsonaro têm forte simbolismo.

Camilo agradeceu ontem ao presidente e ao ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, durante entrega de moradias. A obra não começou e não transcorreu no atual governo. Mas, o governador aproveitou para fazer média. Para além do reconhecimento, há estratégia. Já afagou o ministro que toca a transposição, interesse número um do Estado.

O histórico de relações com presidentes e governadores é amistoso. Era assim entre Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Zeca do PT, do Mato Grosso do Sul. Assim como foi entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o mineiro Aécio Neves (PSDB). Pragmatismo puro. Governadores precisam do Governo Federal. Em particular os governadores de estados pobres, como o Ceará. A briga não interessa a eles. E, a quem está na Presidência, nunca interessa atrito. Já são muitos os desgastes, as cobranças e as resistências pelo simples fato de estar no cargo. Não precisa de mais briga.

É assim para qualquer governador e ainda mais para Camilo. É o estilo dele de administrar, de se compor com todo mundo. Os gestos na direção de Bolsonaro são o mais longe que ele já foi no espectro ideológico.

Quanto ao presidente, está no seu papel. Em várias decisões nos primeiros três meses, houve sinais de amadorismo. Mas, a relação com o governo cearense tem sido institucional. Que bom.

Reforma dos militares dificulta a dos civis

Não é o governo Bolsonaro que tem dificuldades de mexer nas condições de aposentadoria dos militares. Todos tiveram. FHC, Lula e Dilma Rousseff fizeram reformas. Nenhum mexeu significativamente na situação das Forças Armadas. A ponto de ter chegado ao ponto que chegou. Se tiveram dificuldades, mais ainda há de se supor que teria o atual presidente.

A reforma ainda não andou no Congresso, em parte porque os deputados exigiam a chegada da reforma para os militares. O motivo não era outro: não aceitariam condições muito desiguais. Não topam impor sacrifício demais para uns e pouco para outros.

Como ficaram as cotas de sacrifício? A projeção do governo é de economia total de R$ 1,072 trilhão em dez anos. Ontem, conforme anunciado, a previsão é de economia de R$ 10,45 bilhões no mesmo período. Ou seja, com os militares, a projeção é de economizar 1% da reforma. Os outros 99% ficam com os civis.

Mas, qual o tamanho de cada segmento no déficit? A maior parte é dos servidores do INSS: 68,3%. Os servidores civis respondem por 16,3%. Os militares, por 15,4% do déficit da previdência. Os números não são meus. São do Tesouro Nacional. Divulgados em janeiro pelo governo Bolsonaro. Parece justo a vocês quem responde por 15,4% do déficit arcar com 1% da economia?

Pois vejamos mais números do Tesouro: no ano passado, o déficit dos servidores civis cresceu 3,8%. Da iniciativa privada, no INSS, cresceu 6,7%. O dos militares, cresceu 12,9% de 2017 para 2018. Mais que o triplo dos servidores civis e quase o dobro do INSS.

Diante disso, onde lhe parece que a situação deficitária está mais descontrolada? Qual o tamanho do ajuste que lhe parece necessário nas aposentadorias militares? Parece a você que a cota de sacrifício das Forças Armadas está justa? Parece proporcional, por exemplo, ao que se exige dos policiais? O que se exige dos professores? Dos trabalhadores rurais?

Os pesos são desiguais e dificultam a tramitação da reforma.

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