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Para enfraquecer Rodrigo Maia, Bolsonaro conversa com MDB, DEM e Centrão

Presidente vai lançar mão de troca de cargos por apoio no parlamento, para enfraquecer possibilidades de deposição
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 Senador Eduardo Braga (AM), líder do MDB no Senado, coloca máscara à saída do encontro com Bolsonaro, no Planalto (Foto: DIDA SAMPAIO/AE)
Foto: DIDA SAMPAIO/AE  Senador Eduardo Braga (AM), líder do MDB no Senado, coloca máscara à saída do encontro com Bolsonaro, no Planalto

Mesmo que tenha dito no ato do último domingo não querer negociar com ninguém, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) abriu conversas com partidos do Centrão em busca de solidificar base de apoio na Câmara dos Deputados e no Senado. Ontem, ele esteve reunido com Baleia Rossi (SP) e Eduardo Braga (MDB-AM), dirigente nacional do MDB e líder da Maioria no Senado, respectivamente. Hoje, há na programação dele encontro com o presidente nacional do DEM, o prefeito de Salvador ACM Neto. Bolsonaro movimenta-se na direção das duas legendas e de partidos do Centrão no sentido de reduzir a esfera de influência de Rodrigo Maia (DEM-RJ) perante os deputados.

O presidente necessita ainda pavimentar caminho para a aprovação de agenda de tramitações pós-pandemia. No radar dele também há a preocupação de afastar qualquer margem para abertura de um processo de impeachment, o que já é encorajado sobretudo pela oposição petista e pedetista em Brasília. Bolsonaro vive às turras com o presidente da Câmara e já declarou publicamente que vê em Maia um adversário e, principalmente, uma possibilidade de ser deposto. Pressionado e com o sinal de alerta ligado, ele iniciou negociações de cargos com legendas do Centrão.

Ao Partido Liberal (PL), por exemplo, teria sido prometida a presidência do Banco do Nordeste (BNB), sediado em Fortaleza. A legenda é presidida por Waldemar Costa Neto, preso no âmbito do mensalão petista. Ao PP, o comando do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e a presidência do Departamento Nacional de Obras contras a Seca (Dnocs). As duas legendas, juntamente com MDB, DEM e outros partidos, constituem bloco com 221 dos 513 deputados.

 A tarefa do Planalto é a de tentar fazer com que estas negociações não assumam ar contraditório, uma vez que o presidente se elegeu em 2018 ancorado em discurso de críticas sistemáticas ao "toma-lá-da-cá" inerente ao que se chama de "velha política". Este tipo de busca por governabilidade foi a tônica dos governos tucanos e petistas.

A tensão política na qual Bolsonaro está submerso escalou após participação dele em ato abertamente antidemocrático, no qual se pediu a reedição do Ato Institucional Número 5 (AI-5), que cassou liberdades na Ditadura Militar (1964-1985), o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), ainda não havia clima para tomada de posição mais enfática da agremiação, mas o sentimento no petismo é de que não há outra alternativa após o último domingo.

O PT chegou à decisão de aderir ao movimento "Fora, Bolsonaro" em videoconferência entre as bancadas da Câmara e do Senado com o ex-presidente Lula, liderança máxima da legenda. Candidato derrotado na corrida presidencial, Fernando Haddad (PT) também participou da conversa. "No Congresso Nacional", diz Costa, "diferentemente de algum tempo atrás, já se fala abertamente, sem qualquer tipo de comedimento, da eventual possibilidade de impeachment."

Na tarde desta quarta-feira, 22, o PDT de Carlos Lupi e dos cearenses Ciro Gomes e André Figueiredo, líder da oposição entre os deputados federais, anunciou que irá protocolar na Câmara dos Deputados o pedido de impedimento do capitão da reserva do Exército. O POVO fez contato com Figueiredo, sem ter obtido resposta.

Eunício reage a especulação sobre BNB

Ex-presidente do Senado e responsável pela indicação de Romildo Rolim à presidência do BNB, Eunício Oliveira (MDB-CE) reforçou elogios ao apadrinhado e afirmou que eventual troca no comando da instituição para dar vez a novo nome "apenas por acomodação política" será resultado da mais "condenada, nojenta e obscura velha política".

A administração da instituição pode cair no colo do Partido Liberal (PL), presidido nacional por Valdemar Costa Neto, a quem o cearense se referiu ironicamente como o "conhecido, conhecidíssimo Costa Neto." E disse: "Se for o PL (a indicar o novo presidente), é uma negociação velha, antiga, com o velho Valdemar Costa Neto."

Na prática, a indicação de aliados para o comando de órgãos públicos é forma extraoficial de garantir ou expandir influência. É comum que partidos façam indicações a estes cargos e, como troca, deem apoio a governos em matérias de interessa que tramitam votações no Legislativo.

Alinhado com as bandeiras de Bolsonaro no Ceará, apesar de atualmente de distante do presidente, o deputado federal Heitor Freire (PSL) disse em nota que indicações políticas são naturais do processo, mas disse ser inaceitável o "toma-lá-dá-cá". "Não aceito esse tipo de negociata e nem me deixarei ser 'comprado' ou voltar à era PT de corrupção", ele afirmou.

Eunício disse que foi procurado por Rossi para dar opinião sobre a conversa com Bolsonaro. Ele garantiu que, com base no diálogo com o correligionário, o MDB não foi discutir cargos, continuará independente e que a posição de Osmar Terra de alinhamento automático não reflete o pensamento do MDB. "Mas não vamos criar nenhum tipo de problema para atrapalhar a volta do crescimento do Brasil."

A visão do cientista político

O cientista político Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), entende que o presidente age correto ao se curvar às demandas dos partidos por espaços de poder na máquina federal. "Ele precisa de governabilidade para fazer com que o País saia dessa crise econômica que virá após o coronavírus. Em segundo lugar, você evita uma crise política que poderia resultar no impeachment."

O professor destaca que o presidente ter iniciado negociações tanto por pressão dos militares que participam do governo como por exigência da conjuntura, repleta de tensionamentos. Os dois fatores trouxeram "realismo ao presidente da presidente", conforme prossegue Oliveira, mas o horizonte ainda é incerto. O primeiro ponto é saber se o presidente cumprirá a promessa com os partidos, ele diz. O segundo, se os partidos vão confiar no presidente.

E completa: “Como irá reagir a base do presidente? Tenho duas hipóteses, ela irá apoiar a decisão, justificando que só assim o presidente pode governar, e consequentemente ignorar (o toma-lá-dá-cá). Ou, numa segunda hipótese, parcela dessa base vai reclamar do presidente, e o presidente desfazer o trato com os parlamentares."

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O cientista político Adriano Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), entende que o presidente age correto ao se curvar às demandas dos partidos por espaços de poder na máquina federal.  "Ele precisa de governabilidade para fazer com que o País saia dessa crise econômica que virá após o coronavírus. Em segundo lugar, você evita uma crise política que poderia resultar no impeachment." 


O professor destaca que o presidente ter iniciado negociações tanto por pressão dos militares que participam do governo como por exigência da conjuntura, repleta de tensionamentos. Os dois fatores trouxeram "realismo ao presidente da presidente", conforme prossegue Oliveira, mas o horizonte ainda é incerto. O primeiro ponto é saber se o presidente cumprirá a promessa com os partidos, ele diz. O segundo, se os partidos vão confiar no presidente.  


E completa: “Como irá reagir a base do presidente? Tenho duas hipóteses, ela irá apoiar a decisão, justificando que só assim o presidente pode governar, e consequentemente ignorar (o toma-lá-dá-cá). Ou, numa segunda hipótese, parcela dessa base vai reclamar do presidente, e o presidente desfazer o trato com os parlamentares."

Ex-presidente do Senado e responsável pela indicação de Romildo Rolim à presidência do BNB, Eunício Oliveira (MDB-CE) reforçou elogios ao apadrinhado e afirmou que eventual troca no comando da instituição para dar vez a novo nome "apenas por acomodação política" será resultado da mais "condenada, nojenta e obscura velha política". 


A administração da instituição pode cair no colo do Partido Liberal (PL), presidido nacional por Valdemar Costa Neto, a quem o cearense se referiu ironicamente como o "conhecido, conhecidíssimo Costa Neto." E disse: "Se for o PL (a indicar o novo presidente), é uma negociação  velha, antiga, com o velho Valdemar Costa Neto." 


Na prática, a indicação de aliados para o comando de órgãos públicos é forma extraoficial de garantir ou expandir influência. É comum que partidos façam indicações a estes cargos e, como troca, deem apoio a governos em matérias de interessa que tramitam votações no Legislativo.   


Alinhado com as bandeiras de Bolsonaro no Ceará, apesar de atualmente de distante do presidente, o deputado federal Heitor Freire (PSL) disse em nota que indicações políticas são naturais do processo, mas disse ser inaceitável o "toma-lá-dá-cá". "Não aceito esse tipo de negociata e nem me deixarei ser 'comprado' ou voltar à era PT de corrupção", ele afirmou.


Eunício disse que foi procurado por Rossi para dar opinião sobre a conversa com Bolsonaro. Ele garantiu que, com base no diálogo com o correligionário, o MDB não foi discutir cargos, continuará independente e que a posição de Osmar Terra de alinhamento automático não reflete o pensamento do MDB. "Mas não vamos criar nenhum tipo de problema para atrapalhar a volta do crescimento do Brasil."



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