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"Não existe aliança de um partido só", diz Camilo

| Eleições | Em conversa com O POVO, o ex-governador fez uma análise do cenário político local, voltou a elogiar Izolda e defendeu investigação das associações militares na CPI
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CAMILO foi alvo de ataques de Bolsonaro na última segunda por conta de medidas aplicadas no Ceará para o combate à pandemia (Foto: Thais Mesquita)
Foto: Thais Mesquita CAMILO foi alvo de ataques de Bolsonaro na última segunda por conta de medidas aplicadas no Ceará para o combate à pandemia

Ex-governador do Ceará, Camilo Santana (PT) retoma aos poucos a agenda política, que prevê encontros com lideranças no Interior do estado e honrarias concedidas por prefeitos nos próximos dias.

Nessa terça-feira, 3, em conversa com O POVO, o petista analisou o cenário político estadual e nacional e projetou o futuro da aliança que lhe deu sustentação durante sete anos de gestão, assumida por Izolda Cela (PDT) desde 2 de abril.

À reportagem, o ex-chefe do Executivo alertou que, embora membros do PT e do PDT tenham manifestado preferências eleitorais na disputa interna entre os nomes trabalhistas, “não existe aliança nem projeto de um partido só”.

“Esse projeto tem o PT, que é o meu partido, como esse projeto tem o PP, o MDB, esse projeto tem o PSB, o PSD, PCdoB”, disse Camilo.

“Claro que alguns partidos ou algumas pessoas têm preferências e ideias para colaborar”, acrescentou o petista, enfatizando em seguida: “Repito, não existe aliança de um partido só. Não existe projeto de um partido só. Existe um projeto de um conjunto de forças políticas que hoje têm contribuído para esse avanço do Ceará”.

Cotado para concorrer ao Senado, Camilo reafirmou ainda a crença em que o bloco governista conseguirá chegar a uma candidatura de consenso no estado.

“Nós teremos a maturidade e a responsabilidade de construir um nome que possa consensuar, que possa agregar mais, que possa ter aceitação do povo cearense, para que a gente possa apresentar esse nome desse conjunto de forças políticas”, declarou.

Concedida por telefone, a entrevista foi realizada pouco depois de o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) ter sugerido haver uma banda corrupta do PT no Ceará. Questionado sobre o tema, Camilo respondeu que ainda não tinha tomado conhecimento do teor das falas do aliado pedetista.

O POVO – A governadora Izolda Cela completou um mês de gestão. É um período curto, mas como avalia esse tempo inicial?

Camilo Santana – Pra mim não foi surpresa porque já conheço a Izolda há mais de sete anos, convivo com ela como vice-governadora, que foi muito importante para todo o nosso governo. E ela é uma pessoa extraordinária, sabe se posicionar de forma firme, tomando todas as decisões importantes, fazendo o governo dar continuidade a todos os seus projetos, ações, obras, entregas. Tem se destacado de uma forma como ela é, com muito diálogo, ouvindo a todos, mas com posições e decisões muito firmes, como tem tomado ao longo desse governo. A avaliação é muito positiva do atual governo.

OP – A governadora vem recebendo a bancada e promovendo reuniões com deputados federais, demonstrando habilidade política. Isso é importante pra quem é cotada pra disputa eleitoral ao Governo?

Camilo – Sem dúvida. Eu, lá atrás, quando se cogitava a minha saída, eu já dizia que ela era uma pessoa que tinha bastante habilidade, cheguei a brincar dizendo que tinha mais do que eu. É uma pessoa que tem um estilo muito parecido, é de muito diálogo, ouvir as pessoas, construir as relações. É isso que o cargo exige, além de ser um cargo de gestor, tratar as questões do dia a dia, como ela tem feito, do andamento das ações e das políticas, é também um cargo importante de diálogo com toda a sociedade, seja com a sociedade civil, seja com os poderes, os parlamentares, os representantes dos partidos.

A Izolda tem cumprido nesse primeiro mês esse papel, recebendo as bancadas, dialogando com o presidente da Assembleia, do TJ, do MP-CE, mantendo todos os fóruns e espaços de diálogo. Tem mostrado bastante habilidade. Para mim, pessoalmente, não é surpresa porque eu já acompanhava isso, ela foi muito importante durante todo esse processo e para todos os resultados do nosso governo. Repito: tem se destacado também nesse diálogo com a política, com os representantes do parlamento tanto federal quanto estadual.

OP – Essas qualidades fazem dela nome natural pra reeleição?

Camilo – Acho que a preocupação da Izolda agora é atender aos anseios da população, que é governar bem, atender às garantias do atendimento à saúde, continuar com os avanços na educação, ampliação do serviço da segurança pública, os concursos das universidades, as novas escolas. Esse é o papel que a Izolda tem se dedicado e tem colocado suas energias. Ela é uma pré-candidata entre todos os bons nomes que o PDT tem.

Sempre tenho dito pra esperar o momento certo pra que a gente possa definir aquele que representará o projeto. Sempre tenho dito também que não é projeto pessoal de ninguém, como não foi meu, como não é da Izolda, não é de nenhum outro nome. É um projeto coletivo, uma aliança de partidos, uma aliança de ideias, um projeto que vem se consolidando com avanços importantes. Terá o momento certo pra que a gente possa discutir a definição do nome que irá representar todo esse projeto na eleição de 2022 para o Governo do Estado do Ceará.

OP – Fora do governo, o senhor tem se dedicado mais às articulações. Como está a agenda e como estão as conversas com lideranças sobre o processo eleitoral no Ceará?

Camilo – Primeiro fui fazer um checkup, ver como estava a saúde. Fazia tempo que eu não fazia, graças a Deus está 100%. Tenho mantido conversas com lideranças, com deputados, com pessoas de várias áreas do estado. E agora também vou procurar fazer uma agenda mais caminhando pelo Interior, receber as homenagens, ouvir a população, prestar contas, falar um pouco do que o governo entregou ao longo desses sete anos nos quais estive à frente do Governo, o que a Izolda tem dado continuidade. Vamos dar uma caminhada e conversar, manter a relação com todos os nossos amigos prefeitos, lideranças e principalmente com a população – porque sempre foi meu estilo, ouvir – sobre o que ela está pensando, quais são os anseios, gargalos, dificuldades, para que a gente possa ir construindo caminhos e colaborar.

OP – O senhor já falou uma vez, em relação a um pronunciamento do prefeito José Sarto em defesa do ex-prefeito Roberto Cláudio, que era uma preferência pessoal. O deputado José Guimarães tem demonstrado publicamente uma preferência pela candidatura da governadora Izolda. Pode comentar essas declarações?

Camilo – Eu posso lhe reafirmar que eu, com toda sinceridade, acho que o mais importante não são as vontades pessoais ou os projetos pessoais que estão em jogo. O que está em jogo é um projeto político que tem trazido ao longo desses anos resultados importantes para o Ceará. O Ceará hoje é uma referência em educação, é uma referência em saúde, com todos os desafios e problemas que a gente enfrenta. O Ceará é um dos estados que mais investem na área da segurança, que é um gargalo e um desafio para todo o país. Tem se destacado como estado equilibrado e que mais fez investimento público ao longo dos sete anos. É um estado que tem diálogo, que tem transparência, que foi premiado, nota dez nos últimos anos como estado transparente. Enfim, estamos falando de um projeto. Precisa corrigir muitas questões, reavaliar alguns rumos, melhorar algumas áreas.

Claro que alguns partidos ou algumas pessoas têm preferências e ideias para colaborar. Mas o que posso lhe dizer é que não existe aliança nem projeto de um partido só. Esse projeto tem o PT, que é o meu partido, como esse projeto tem o PP, o MDB, esse projeto tem o PSB, o PSD, PCdoB, enfim. Todos esses partidos têm uma grandeza e um consenso de que o candidato deva ser do PDT, governador ou governadora. Agora acho que nós temos que tirar um pouco a ansiedade e debater de forma respeitosa, franca e sincera essa construção. Repito: não existe aliança de um partido só. Não existe projeto de um partido só. Existe um projeto de um conjunto de forças políticas que hoje têm contribuído para esse avanço do Ceará. Acho que teremos o momento certo.

O momento agora, quando falo da Izolda, é um momento para que ela possa governar com tranquilidade, que nós possamos apoiar. O posicionamento do prefeito Sarto foi um posicionamento pessoal, dele, individual, não é uma decisão do partido, não é uma decisão dos aliados. Como também a decisão do próprio Guimarães. Nós teremos a maturidade e a responsabilidade de construir um nome que possa consensuar, que possa agregar mais, que possa ter aceitação do povo cearense, para que a gente possa apresentar esse nome desse conjunto de forças políticas e o projeto que a gente quer continuar. Corrigindo rumos, melhorando, aperfeiçoando, mas mostrando os avanços importantes que o Ceará tem tido ao longo dos últimos anos.

O POVO – E esses aliados já estão sendo ouvidos no processo?

Camilo – Muitos têm perguntado e, de forma pessoal, se posicionado, mas acho que isso é uma construção. Nós temos aí até o final de julho, quase três meses, temos uma conjuntura nacional que está muito indefinida do ponto de vista das alianças, do cenário que nos preocupa muito. A importância de o Brasil ter uma mudança de rumo e de rota. Isso é uma das nossas prioridades enquanto políticos. Vamos agora passar por um processo que vai afunilando, de ouvir a população, ouvir os partidos, as lideranças, se reunir com as pessoas e no momento certo definirmos o nome que vai representar esse projeto. Mas sempre destacando: não existe nenhum projeto ou nenhuma aliança de um partido só. Nós somos um conjunto de forças em que cada um colabora e contribui com ideias e ações, dentro do próprio governo. E é preciso ouvir a todos nesse processo de construção coletiva.

OP – O senhor destaca a ideia de projeto, mas a gente vê manifestações como a do vereador Adail Júnior (PDT). Hoje mesmo (ontem) o ex-ministro Ciro Gomes se manifestou, em entrevista a um canal, sobre o PT, dizendo que haveria localmente uma banda corrupta do partido. Esse tipo de conduta pode colocar sob risco a aliança?

Camilo – Olha, eu não ouvi a entrevista, a fala do ex-ministro e ex-governador Ciro, portanto não posso falar de algo que não conheço, mas o que sempre irei defender e sempre irei me posicionar é que precisamos tratar as coisas com serenidade, com responsabilidade, respeitando e tendo a grandeza de que vivemos numa democracia, numa pluralidade de ideias, nunca perdendo nosso horizonte que é a construção de uma sociedade mais justa, mais solidária. Não abrimos mão disso.

Nessa construção, vamos com muita responsabilidade e muito diálogo, porque o que está em jogo não é um projeto pessoal de ninguém. O que está em jogo é o estado, são as pessoas, são mais de 9 milhões de cearenses que precisam melhorar sua saúde, educação, segurança, qualidade de gerar emprego. Estamos tratando disso. Para mim isso é o mais importante e é a base das decisões que precisamos tomar sempre, priorizando um projeto que está em curso no Ceará.

OP – O deputado federal Capitão Wagner se referiu ao candidato por ser escolhido pelo bloco governista como um “poste”. O senhor respondeu publicamente também. Acha que isso antecipa uma estratégia da oposição na disputa?

Camilo – Primeiro, isso mostra a arrogância e o desrespeito na política. Acho que a gente precisa fazer um debate de forma respeitosa, em cima de ideias. Garanto para ele que o nosso candidato nem apoia o Bolsonaro nem apoia motim, que é o que ele tem feito a vida inteira. A grande contribuição que esse parlamentar deu ao Ceará foi promover dois motins que deixaram a população numa situação vulnerável, criando terror, e nós firmemente enfrentamos isso. A política não se faz dessa forma, a política se faz colaborando, construindo, com ideias, projetos e ações, pelo bem da população do Ceará. Que se respeite esse projeto que está em curso. Se ele diverge, se ele tem questionamentos, vamos fazer um bom debate. Mas, nosso candidato nem apoiará o Bolsonaro nem jamais apoiará motim que deixa a população vulnerável, em pavor, como fez esse senhor.

OP – O senhor tem acompanhado a CPI do motim na Assembleia? Espera que resulte em alguma punição?

Camilo – Tenho visto pela imprensa. Acho que muitos pontos que foram levantados precisam ser investigados. É o que sempre coloquei ao longo do período em que questionei o papel dessas associações, o papel político. O uso político dessas associações, que não é permitido por lei. Temos que cumprir a Constituição. Quando falo sempre da questão do motim é porque é crime, está na Constituição. Por isso enfrentei o motim, não aceitei anistia, e o governo está expulsando os maus policiais que tiveram aquela postura, que toda população lembra: encapuzados, ameaçando comerciante, furando pneu de carro, ameaçando outros policiais, armados. Isso é crime. Temos que ter uma postura de respeitar as leis deste país, e é o que procuramos fazer aqui.

A nossa postura sempre será essa, de banir qualquer tipo de irregularidade. E as associações têm tido esse papel, nós denunciamos isso. As associações gastam milhões de reais por ano, dinheiro arrecadado do contribuinte, que é repassado pelos profissionais para essas entidades, que ao longo do tempo vêm cumprindo papel político. Os objetivos desses motins sempre foram políticos. É só lembrar que não teve na história, ao longo desses anos, um governo que apoiou tanto e deu tantas melhorias salariais (valorização, promoções) à Polícia do estado do que o nosso governo. Lembre-se de que eles chegaram até a comemorar na Assembleia e logo depois fizeram um motim.

Claramente é motim político, e é preciso que a CPI investigue. Investigue de onde foi o dinheiro para apoiar esse movimento. Esses saques feitos na boca do caixa, o que justifica isso? Como esse dinheiro foi gasto? Foi utilizado de forma correta? O papel da CPI é esse e acho que é um bom debate. Espero que a CPI possa trazer resultados importantes para clarear a população sobre o papel dessas entidades e desses políticos no estado do Ceará.

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