
O frágil estado de saúde do papa Francisco, que adiou viagem ao continente africano, alimenta os boatos sobre uma possível renúncia, mas os analistas alertam que tal cenário não deve ser considerado algo certo. Em entrevista divulgada nesta segunda-feira, 4, o pontífice negou a possibilidade. "Nunca passou pela minha cabeça. No momento não, no momento não. Realmente!", disse à agência de notícias Reuters.
Apesar disso, ele reiterou que renunciaria se a saúde o impedisse um dia de liderar a Igreja. Questionado exatamente sobre isto, o pontífice respondeu: "Não sabemos. Deus vai dizer".
O papa afirmou ainda que em breve poderia visitar a Ucrânia e a Rússia. "Eu gostaria de ir para a Rússia primeiro para tentar ajudar de uma forma ou outra, mas gostaria de ir às duas capitais, ou seja Kiev e Moscou".
A visita à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, prevista para para este início de julho, foi adiada por tempo indeterminado. A viagem ao Canadá, marcada para 24 a 30 de julho, foi confirmada, apesar das dores no joelho.
O pontífice argentino explicou que sofreu uma "pequena fratura" no joelho, que foi tratada com laser e terapia magnética. O chefe da Igreja Católica também negou os boatos de que um câncer teria sido diagnosticado durante a operação para remover parte do cólon em julho de 2021 e denunciou o que chamou de "fofocas".
O pontífice tem sido observado com expressões de dor durante algumas aparições públicas. Desde o início de maio, o pontífice de 85 anos utiliza uma cadeira de rodas ou uma bengala, debilitado por fortes dores no joelho direito. Em abril, durante visita de dois dias a Malta, ele pareceu enfraquecido por problemas nas articulações e teve que usar uma plataforma elevatória para entrar e sair do avião. Em maio, o Líbano anunciou o adiamento da visita de Francisco agendada para junho, alegando "razões de saúde". Ele também sofre de dores no quadril que o fazem mancar e em julho de 2021 foi submetido à operação no cólon.
No último sábado, 2, Francisco expressou "grande pesar" por não poder fazer a viagem planejada à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul. "O Senhor sabe quão grande é o meu pesar por ter sido forçado a adiar esta tão desejada e esperada visita", disse o papa em uma mensagem de vídeo divulgada pelo Vaticano. "Mas não vamos perder a fé e alimentemos a esperança de nos encontrarmos o mais rápido possível", acrescentou.
Francisco recebe regularmente injeções e passa por sessões de fisioterapia, segundo o Vaticano, que mantém a discrição sobre a saúde do líder da Igreja Católica.
O tratamento "segue seu curso e está dando resultados", afirmou uma fonte do Vaticano. As mudanças de última hora na agenda da Santa Sé, no entanto, reacenderam as preocupações sobre a capacidade de Jorge Bergoglio para governar e despertaram boatos sobre uma possível renúncia.
"Esta teoria retorna de maneira cíclica", afirma o vaticanista italiano Marco Politi, autor do livro Francisco, a peste e o Renascimento. "Os rumores são alimentados pelos adversários do papa, que desejam apenas ver a saída de Francisco", disse.
Em 2014, o pontífice ajudou a alimentar a hipótese, ao considerar que Bento XVI "abriu uma porta" ao renunciar ao cargo.

Alguns analistas reduzem as chances de uma renúncia. "No entorno do papa, a maioria não acredita muito na possibilidade de uma renúncia", disse uma fonte do Vaticano à AFP.
"A partir do momento que começam a falar que o papa está muito doente podem passar muitos anos: a doença de João Paulo II começou em 1993 e terminou em 2005", recorda Alberto Melloni, historiador do cristianismo e secretário da Fundação de Ciências Religiosas.
"São coisas em que há vontade de entender, de especular, mas há pouco a dizer", acrescentou, antes de lamentar um "frenesi excessivo da mídia a respeito do papa e da Igreja".

O estado de saúde de Francisco já havia alimentado especulações quando ele passou por uma cirurgia no cólon em julho de 2021. O pontífice sofre de uma ciática crônica e teve que remover parte de um pulmão em sua juventude.
"Com João Paulo II, o progresso da doença era muito visível, perguntas foram feitas durante anos e também havia notícias falsas", recorda o padre Federico Lombardi, ex-diretor de imprensa da Santa Sé.
"Com Bento XVI foi mais a fragilidade da idade que progrediu e o levou à renúncia, de forma gradual", acrescenta, em referência ao papa emérito, que tem 95 anos e vive em um mosteiro do Vaticano.
Em setembro de 2021, Francisco — que continua recebendo líderes políticos e religiosos a cada manhã — ironizou os boatos. "Ainda estou vivo, embora alguns desejem minha morte", disse.
Mas três eventos servem para aumentar os boatos, entre os quais o consistório de 27 de agosto que designará novos cardeais, incluindo os futuros eleitores em caso de conclave, um momento muito incomum para esta reunião.
Em seguida, o papa reunirá os cardeais do mundo em Roma e visitará o túmulo de Celestino V, que renunciou no século XIII, em L'Aquila.
A conjunção de fatores sem precedentes intriga a imprensa italiana e internacional e alguns consideram uma oportunidade para o pontífice anunciar sua decisão.
"Mas no momento temos que ser realistas e não alarmistas", disse Marco Politi. Para ele, o encontro pode ser apenas um "momento de discussão geral sobre a reforma da Cúria", o governo do Vaticano, oficializada pela entrada em vigor de uma nova "Constituição" no início de junho.
Outro tema central para Francisco é o Sínodo Mundial de Bispos, uma amplia consulta sobre a organização da Igreja que terminará em 2023.
Este evento "é quase um miniconcílio: então parece difícil imaginar que o papa queira deixar este grande projeto que ele mesmo decidiu pela metade", opina Politi, que também aponta a dificuldade de ter três papas no Vaticano.

O papa Bento XVI foi o primeiro papa a renunciar em sete séculos. O que se viu em 2013 não acontecia desde a Idade Média. Porém, por mais de um milênio, não era raro que papas fossem obrigados adeixar as funções. Alguns poucos também renunciaram por vontade própria, pelas mais diversas razões

Aos 95 anos, o papa emérito Bento XVI chegou a idade não atingida por nenhum outro pontífice na história. O recorde foi alcançado desde 4 de setembro de 2020. O alemão Josef Ratzinger renunciou em 2013, quando estava prestes a completar 86 anos. Ele nasceu em 16 de abril de 1927.
Antes dele, o papa mais velho havia sido o italiano Leão XIII, que morreu com 93 anos em 1903, segundo cálculos do jornal episcopado italiano Avvenire e da revista Famiglia Cristiana. Leão XIII segue o mais longevo entre os pontífices que estavam em exercício naquela idade. Ele era um aristocrata italiano nascido em 2 de março de 1810, conhecido por ter escrito a primeira encíclica dedicada aos problemas sociais. Há de se considerar, contudo, que os dados disponíveis sobre idade dos papas nem sempre é confiável, ao se considerar cerca de dois milênios de história.
Diferentemente do curto pontificado de Bento XVI, o italiano Leão XIII liderou a Igreja Católica por mais de 25 anos e aparece na terceira posição de pontificado mais longo, atrás de Pio IX (1846-1878, 31 anos) e João Paulo II (1978-2005, 26 anos).
Bento XVI foi papa em uma época na qual as exigências como figura pública e personalidade midiática transformaram a função de líder do catolicismo, bem como as demandas por viagens internacionais.
Ratzinger ensinou Teologia por 25 anos em universidades alemãs, antes de ser nomeado arcebispo de Munique, virar por mais um quarto de século o guardião estrito do dogma da Igreja em Roma e, finalmente, tornar-se papa durante oito anos (2005-2013), antes de virar um pontífice "aposentado".
A decisão pessoal de renunciar foi causada pelo declínio de suas forças e não devido à pressão de escândalos, assegurou Bento XVI em um livro de confidências publicado em 2016. (Com AFP)

O papa Francisco nomeará 21 novos cardeais de todo o mundo, incluindo quatro da América Latina, durante o próximo Consistório em 27 de agosto. Será o oitavo Consistório do pontificado. Em caso de conclave, apenas 16 deles, com menos de 80 anos, poderão participar da eleição de um novo papa.
O anúncio do papa era esperado há vários meses, já que o número de cardeais eleitores caiu para 117, quando tradicionalmente é pelo menos 120. Em 27 de agosto, o número de cardeais deve subir para 133.
Entre eles estão Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus no Brasil, e Paulo Cezar Costa, arcebispo da capital, Brasília. Também estão listados o arcebispo de Assunção, o paraguaio Adalberto Martínez Flores e Jorge Enrique Jiménez Carvajal, arcebispo emérito de Cartagena, na Colômbia. Este último está entre os cinco que não poderão votar durante o conclave por terem mais de 80 anos.
Além disso, em maio, Francisco nomeou como líder da Igreja italiana o cardeal Matteo Zuppi, conhecido por suas posições progressistas e membro proeminente da Comunidade de Sant'Egidio, envolvido em vários processos em favor da paz na África e na América Latina.
Arcebispo de Bolonha (norte) desde 2015, Zuppi, de 66 anos, é muito popular por ser um autêntico "pároco de rua", próximo do povo desde a década de 1980, quando era pároco da igreja romana de Santa Maria em Trastevere e mediava pela paz nos conflitos em Moçambique e na América Central.
O movimento católico conhecido como "ONU de Trastevere" está presente em mais de 70 países e costuma aplicar o que chama de método de Sant'Egidio: gerar nas partes de um processo de negociação a vontade de se chegar a um acordo e, para tanto, paciência é necessário, como demonstra o longo, mas duradouro processo, de paz em Moçambique (1992).
Com posições próximas às do pontífice argentino, Zuppi também defende o acolhimento de imigrantes na Europa e tem sido um defensor dos homossexuais dentro da Igreja.
Nomeado cardeal em 2019 por Francisco, terá que enfrentar as crescentes queixas de pedofilia contra padres da Igreja italiana. (AFP)