Católicos e evangélicos: diferentes, mas nem tanto
Politica
Católicos e evangélicos: diferentes, mas nem tanto
Pesquisa qualitativa revela sentimentos comuns sobre assuntos como corrupção, direita e esquerda, relação entre religião e poder e sobre personagens da política nacional
Foto: ADOBESTOCK COM INTERVENÇÃO SORA
Religião e Política
As opiniões dos católicos e evangélicos de Fortaleza sobre a política têm menos diferenças do que se pode imaginar, revela pesquisa qualitativa realizado pela Cenário Inteligência com exclusividade para O POVO. Apesar de particularidades em temas sociais e figuras públicas, há mais convergências do que oposições em valores, percepções e sentimentos em relação à vida política brasileira.
O levantamento buscou entender expectativas, desejos e percepções de católicos e evangélicos sobre atores, instituições e problemas do país.
Tanto católicos quanto evangélicos afirmam gostar de política, mas a descrevem de maneira semelhante como algo “desonesto”. A maioria dos entrevistados não admira nenhum político. Corrupção, desigualdade social e insegurança pública aparecem como os principais problemas do Brasil para representantes de ambos os credos.
Nos dois segmentos de entrevistados, a opinião mais recorrente foi de que religião e política podem caminhar juntas. Entre os evangélicos escutados, 67% acreditam nessa possibilidade; entre os católicos, 58%. Nos dois recortes, a maioria afirma não discriminar políticos pela religião que professam.
O presidente Lula (PT) é visto de forma relativamente mais positiva pelos católicos, ainda que também enfrente rejeição. Entre os pontos positivos, aparece com força a ideia de que “ajuda os pobres”, mas também há menção a decepção. Aparecem críticas também à política em relação à questão climática e menção de que "nunca deveria ter saído da cadeia".
Entre os evangélicos, críticas ligadas à corrupção, mas também reconhecimento por ações voltadas aos mais pobres. "É do povo, tem empatia", diz um dos comentários. Um dos entrevistados afirma: "Qualquer presidente que entrar fará a mesma coisa. Normal".
"São comuns os sentimentos de que Lula é corrupto e os primeiros governos foram melhores", aponta o professor da Universidade Federal de Pernambuco Adriano Oliveira, fundador da Cenário Inteligência, responsável pela pesquisa.
No comparativo, Lula é mais bem avaliado do que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) entre os dois credos. Bolsonaro desperta sentimentos comuns como “genocida”. Entre os evangélicos, há os que o definem desde "pilantra covarde" e "sem compaixão" aos que acham que "criaram imagem muito distorcida a respeito dele" e que é um " grande homem".
Entre católicos, é mencionado como "desequilibrado", "amador" que "fala muita besteira" e "teve oportunidade e não vingou". Mas há quem diga que "foi um bom presidente" e que gosta "do lado humano, família e religioso", embora "agressivo às vezes". Há também quem se declare "indiferente" ou diga que "não foi tão ruim", ainda que o defina como hipócrita.
Nos dois credos, tanto a direita quanto a esquerda geram sentimentos negativos, embora sejam associadas a valores distintos.
"Ambos associam a direita ao capitalismo e à defesa das classes mais favorecidas. Já a esquerda é associada por parte de alguns católicos e evangélicos à defesa das minorias e das pessoas", explica Oliveira.
Mais evangélicos se identificaram como de direita: 33% dos que foram ouvidos. Já entre os católicos, houve mais se dizendo de esquerda — o percentual foi também de 33%, mas para o espectro ideológico oposto. "Os militantes dos dois credos definem o centro como 'em cima do muro'", disse o professor.
A pesquisa mostra que, embora haja diferenças na forma de professar a fé e em questões sociais específicas, católicos e evangélicos têm mais semelhanças do que divergências quando o tema é política. A percepção de corrupção como problema central, a rejeição generalizada a políticos aproximam os dois grupos religiosos.
Veja resultados da pesquisa
Você gosta de política?
Evangélicos
Sim: 58%
Não: 42%
Católicos
Sim: 67%
Não33%
Defina a política em uma só palavra
Veja as respostas de cada entrevistado
Evangélicos
Conflito
Desonestidade
Moral
Horrível
Base do funcionamento da sociedade
Democracia
Democracia de todos
Base para benefícios privados
Horrível
Ilegítima
Neutra
Complicada
Católicos
Um jogo de cintura que envolve muitos interesses
Hoje é cada um por si só e Deus por todos
Corrupção é um crime contra a nação
Administração
Totalmente desonesta
Fundamental
Essencial para a sociedade
Honestidade
Corrupção, jogo de interesses
Necessária
Tudo é política
Gosto, mas não sou fanático
Qual político brasileiro você mais admira?
Evangélicos
Nenhum: 25%
Lula: 17%
Jair Bolsonaro: 17%
Capitão Wagner: 8%
Ciro Gomes: 8%
Gabriel Aguiar: 8%
Marina Silva: 8%
Nikolas Ferreira: 8%
Católicos
Nenhum: 42%
Lula: 25%
Eduardo Campos: 8%
João Campos: 8%
Nikolas Ferreira: 8%
Renata Vasconcelos: 8%
Qual sua opinião sobre Lula?
Evangélicos
Um ator que representa muito bem o povo
Não deveria estar na Presidência
O primeiro governo foi bom, mas de lá pra cá não foi gerado o que era esperado
É bom, mas o atual governo deixa a desejar
Muitos erros em relação à gestão ambiental, porém na gestão social tem acertado
Gosto dele e voltou a fazer um bom trabalho
É péssimo. Taxação de tudo
Os primeiros foram bons. Agora tá sendo pior que o Bolsonaro
A pior possível. Estão ocorrendo coisas contrárias: aumento enorme do desemprego
É do povo, tem empatia
Qualquer presidente que entrar fará a mesma coisa. Normal
Se envolveu em um dos maiores esquemas de corrupção e passaram a mão na cabeça dele
Católicos
Procura muito ajudar o povo de baixa renda e tentar acabar com a pobreza
Tem feito uma ótima gestão e sua história é admirável
Decepção
Votaria 10 vezes. Ajuda os pobres. Não se formou, mas sabe de política
Fala muita besteira
Não foi um bom presidente em nenhum mandato
Trouxe bons benefícios para a população, mas não gosto do fato de ele ser a favor do aborto
O Brasil hoje tá com a economia ruim, mas ele sempre foi um cara que lutou pelos pobres
Está descentralizado e deixando a desejar nas questões climáticas
O câncer do Brasil. Nunca deveria ter saído da cadeia
Poderia ser melhor. Não quis estudar mesmo com oportunidades
Batalhador. Tentou ajudar na questão do tarifaço
Qual sua opinião sobre Bolsonaro?
Evangélicos
Soube administrar o Brasil mesmo com todo o mundo parado. Grande homem
Criaram uma imagem muito distorcida a respeito dele, mas foi um bom presidente. Se perde quando fala
Não é meu candidato ideal. É sem compaixão
Horrível. Se continuasse estaríamos em guerra
Seus erros superam as mínimas coisas boas que fez
É um pilantra, covarde, cagão, moleque e assassino
Horrível. Genocida. Fez muita coisa errada
Pensa nele e não no povo. Não tem nenhum pingo de noção política
Foi ótimo. Não fez muita coisa porque foi barrado
Não gosto. Vem de uma direita extremista que prega violência
Igual a todos os outros
Um cara decente. Tentou bater no sistema, tem uma opinião forte
Católicos
Louco, não gosto dele. Desequilibrado e sem respeito
Pecou em algumas coisas. Tomou algumas decisões infelizes
Amador. Tinham pessoas com ele que deixavam muito a desejar
Nazista, genocida
Fala muito besteira também
Indiferente
Gosto do lado humano dele, família. Religioso. Agressivo às vezes
Foi um bom presidente
Não deveria ter sido eleito e deveria estar preso por todos os crimes que cometeu contra a pátria
Lutador. Quem alertou o Brasil sobre o futuro, para não virar uma Venezuela
Teve a oportunidade dele e não vingou
Não foi tão ruim, mas é hipócrita: fala uma coisa e faz outra
O que é ser de esquerda para você?
Evangélicos
Falta de caráter
Não sabe
Rebelde
Sabedoria
Ir contra políticas mais conservadoras
Liberdade
Ser conservador
Algo que discordo
Pessoa sem inteligência
Defender as pessoas, o meio ambiente e a ética
Não sabe
Ser a favor de tudo que o governo atual proclama
Católicos
Ser liberal
Contraditório
Ser contra o sistema extremo da direita
Objetiva
Defende o lado social e minorias
Discordar da maioria dos ideais que acredito
Vergonhoso
Ser do povo
Busca lutar pelos ideais de todos
É um atraso total
Não sabe
Uma pessoa muito trabalhadora
O que é ser de direita para você?
Evangélicos
Lutar pela verdade
Não sabe
Hipócrita
Não sei
Conservadorismo
Estupidez
Ser autoritário
Não traz benefício para a sociedade
Ser culto, ser elegante e defender os princípios tradicionais
É defender classes favorecidas
Não sabe
É ser contra tudo que a esquerda apoia
Católicos
Vandalismo
Mais favorável
Capitalista
Destruição
Defende o livre mercado
Procura ter uma sociedade mais equilibrada
Menos vergonhoso
Esperança para o nosso país
Buscar lutar pelos ideais baseados em conceitos da religião
É a esperança
Não sabe
Só aceita aquilo que lhe convém
O que é ser de centro para você?
Evangélicos
Em cima do muro
Não sabe
Alguém sem posicionamento
Equilíbrio
Indecisão
Pessoas que querem uma terceira opinião frente ao extremismo
Neutro
Defende meus próprios ideais
Indeciso
É ser indeciso. Ir para linha de defesa que está sendo mais vista e valorizada
Não sabe
Não são nem de direita nem esquerda, mas no decorrer das eleições se mostram diferentes
Católicos
Não tem opinião própria
Neutralidade
Equilíbrio entre os lados positivos da direita e da esquerda
Possível
Meio termo
Não sei
Ter opinião de escolha, sem favoritismo
Honesta
Meio termo
Ficar em cima do muro e comer dos dois lados
Do povão. Não tem opinião concreta nem segue um partido centro
Sempre estará disponível para ajudar
Qual sua posição ideológica?
Evangélicos
Direita: 33%
Esquerda: 25%
Centro: 25%
Nenhum: 17%
Católicos
Esquerda: 33%
Direita: 25%
Centro: 25%
Nenhum: 17%
Política e religião podem caminhar juntas?
Evangélicos
Sim: 67%
Não: 25%
Não sei: 8%
Católicos
Sim: 58%
Não: 42%
Você gosta ou não gosta de um político em razão da sua religião ou independente?
Evangélicos
Sim: 17%
Não, é independente: 83%
Católicos
Sim: 17%
Não, é independente: 83%
Qual o principal problema do Brasil hoje?
Evangélicos
Corrupção e a discordância dos poderes
Os conflitos políticos
Quantidades exacerbadas de imposto e corrupção
Economia
Falta de diálogo político
Desigualdade social
Desigualdade social
Egoísmo
A falta de pensar em relação as decisões políticas
Desigualdade social
Falta de investimento na educação
Falta de segurança pública
Católicos
Corrupção
Desigualdade
Corrupção
Desigualdade social
Falta de cultura e civilização
Desigualdade social
Falta de segurança
Economia
A corrupção
A esquerda querer implantar o socialismo
Falta de investimento em educação e saúde
Corrupção
Metodologia
Técnica de entrevistas em profundidade
Foram entrevistadas 24 pessoas, em 21 localidades. As entrevistas foram individuais de modo remoto
Os entrevistados foram segmentados da seguinte forma:
Área geográfica
Faixa etária
Profissão
Gênero
Religião
Tempo de morada: 5 anos ou mais
Período da realização da pesquisa: 11 a 14 de agosto de 2025
O que é a pesquisa qualitativa e como foi feita
A pesquisa qualitativa busca compreender o significado, e não a magnitude, explica o fundador da Cenário Inteligência, o cientista político, professor da Universidade Federal de Pernambuco e articulista do O POVO Adriano Oliveira. No lugar de medir percentuais ou frequências, esse tipo de pesquisa procura captar sentimentos, crenças e valores dos entrevistados.
É uma forma de "ler o coração e a emoção", revelando nuances que os números nem sempre mostram. Embora os resultados sejam quantificáveis, os números não são a principal informação a ser extraída.
Criada há 16 anos, a cenário Inteligência atua exclusivamente com pesquisa qualitativa e estratégia. O método central são as entrevistas em profundidade, em substituição aos tradicionais grupos focais, já que em discussões coletivas muitas pessoas evitam se expressar livremente por diferenças de religião, ideologia ou orientação sexual.
Desde 2020, Adriano Oliveira adotou esse formato individual diante da polarização política e da força de identidades religiosas, como a evangélica, que limitavam o debate em grupo.
Os resultados são interpretados em conjunto. Além da descrição das falas, aplica-se a análise de conteúdo, que organiza e quantifica palavras e frases mais recorrentes para identificar os sentimentos predominantes. O relatório final traz duas etapas: os sentimentos relatados pelos entrevistados e a sistematização dessas falas em análises.
No estudo sobre religião e política, foram ouvidos apenas religiosos militantes ou praticantes, que frequentam igrejas ou missas ao menos a cada 15 dias. Não participaram pessoas que se declaram religiosas mas não têm prática regular.
Esse conteúdo é de acesso exclusivo aos assinantes do OP+
Filmes, documentários, clube de descontos, reportagens, colunistas, jornal e muito mais
Conteúdo exclusivo para assinantes do OPOVO+. Já é assinante?
Entrar.
Estamos disponibilizando gratuitamente um conteúdo de acesso exclusivo de assinantes. Para mais colunas, vídeos e reportagens especiais como essas assine OPOVO +.