Os anúncios no setor de inteligência artificial (IA) se sucedem rapidamente. A OpenAI adiantou para o começo de dezembro o lançamento de um modelo de raciocínio (reasoning) que teria ficado à frente do Gemini 3 em avaliações internas.
O Gemini 3 havia sido apresentado em novembro pela Alphabet (a controladora do Google) como sua versão mais recente de IA. Ele superou o GPT-5 em algumas áreas de testes padrão de benchmarking. Isso foi um choque para a OpenAI, que desde 2022 liderava a corrida no setor da inteligência artificial com o lançamento do ChatGPT, desbancando a então líder, a gigante Alphabet. Agora não está mais claro se a OpenAI ainda mantém a liderança.
A reação da empresa, portanto, não surpreende: o CEO Sam Altman enviou um memorando interno aos funcionários para declarar uma ordem de alerta "código vermelho", de acordo com o site especializado The Information, citado pelo jornal Wall Street Journal.
Os funcionários foram instruídos a se concentrarem no ChatGPT e adiarem o desenvolvimento de outros produtos.
O GTP-5.2 foi lançado menos de um mês após o GTP-5.1. Um sinal da velocidade e do acirramento que demarcam essa corrida. A promessa é de mais precisão e menos "alucinações" nas respostas da IA. Em múltiplas medições, o desempenho despontou em primeiro entre os concorrentes.
"Não se trata mais apenas de criar os melhores modelos, mas também de poder de processamento e capacidade de gerar receita", afirma o analista Adrian Cox, do Deutsche Bank Research.
A OpenAI inicialmente liderou porque, nos anos após o lançamento do ChatGPT, possuía os melhores modelos. Mas agora outros modelos de IA estão alcançando o ChatGPT, e eles têm a vantagem adicional de terem uma grande empresa por trás. Esse é o caso do Gemini 3.
"Esses modelos dispõem de enormes opções de distribuição graças a uma ampla base de usuários online já consolidada, assim como de uma enorme capacidade de processamento por meio do acesso a inúmeros data centers", diz Cox.
A OpenAI ainda tem uma posição dominante no mercado de chatbots, com mais de 800 milhões de usuários por semana. Já a Alphabet pode usar o Gemini 3 no seu mecanismo de busca, que continua sendo sua maior fonte de receita.
O app do Gemini alcança mais de 650 milhões de usuários por mês, de acordo com o CEO da Alphabet, Sundar Pichai, no Google Blog. "Mais de 70% dos clientes de nuvem usam nossa IA, 13 milhões de desenvolvedores já trabalharam com nossos modelos generativos — e isso é apenas uma pequena parte do impacto que estamos vendo", afirmou. (Insa Wrede/DW)
Após três anos de hegemonia, futuro da OpenAI é dúvida
Três anos depois de o chatbot ChatGPT catapultá-la para o topo como nenhuma outra startup, a OpenAI vem sendo alcançada pela concorrência, o que gera críticas e dúvidas no setor tecnológico e entre investidores.
"A OpenAI é o próximo Netscape: condenada ao fracasso e perdendo dinheiro", escreveu no X o investidor Michael Burry, famoso pelo filme "A Grande Aposta", no começo de dezembro.
Ele se referia ao portal que, no início de 1996, controlava cerca de 90% do mercado de navegadores na web, mas tinha apenas 1% nove anos depois.
"Era inevitável", acrescentou Gary Marcus, pesquisador conhecido pelo ceticismo sobre como o ecossistema da inteligência artificial (IA) está estruturado. "A OpenAI perdeu liderança e quis abraçar o mundo".
A jovem empresa de San Francisco será reconhecida para sempre como o gênio que deixou a IA generativa sair da lâmpada.
Seu agora famoso chatbot ChatGPT bateu com folga todos os recordes de crescimento para um produto de consumo de massa, saindo do zero em novembro de 2022 para mais de 800 milhões de usuários por semana atualmente.
A valorização chegou a 500 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 2,7 bilhões, na cotação atual), uma cifra desconhecida até ser desbancada pela SpaceX há poucos dias.
Mas, por outro lado, a OpenAI terminou 2025 com um prejuízo de vários bilhões de dólares e sem a expectativa de ser rentável antes de 2029.
A própria companhia se comprometeu a pagar mais de 1,4 trilhão de dólares (R$ 7,5 trilhões) a fabricantes de chips e construtores de centros de dados para ampliar maciçamente sua capacidade de computação, cruciais para o desenvolvimento da IA.
A trajetória financeira gera dúvidas, particularmente desde que a Google assegurou ter 650 milhões de usuários da interface de IA Gemini.
Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI e reconhecido como um vendedor talentoso e encantador, mostrou pela primeira vez sinais de irritação no começo de novembro, ao responder a uma pergunta sobre contratos de mais de um trilhão de dólares (R$ 5,3 trilhão).
Junto com o anúncio do novo modelo de IA GPT-5.2, a OpenAI anunciou no mesmo dia uma aliança importante com a Disney.
"A OpenAI está investindo grandes quantias de dinheiro para desenvolver seus modelos, mas não está claro como isto se traduzirá em termos econômicos", diz Ashu Garg, sócio da empresa de investimentos Foundation Capital.
Por ser uma empresa que gera perdas e que tem compromissos importantes, Garg se questiona o que dizer sobre a valorização da OpenAI porque "atrai dinheiro a preços que põem em dúvida o retorno do investimento".
"Há tempos espero que a valorização da OpenAI caia porque sua concorrência a está alcançando e sua estrutura de capital não está realmente adaptada, mas continua subindo", observa Espen Robak, um especialista renomado em valorização de ativos não cotados na bolsa na Pluris Valuation Advisors.
Dependendo da perspectiva, este período cada vez mais incômodo poderia levar a OpenAI a adiar o lançamento na bolsa ou, ao contrário, acelerá-la para atrair os pequenos investidores, entre os quais há milhões que continuam fascinados com sua tecnologia.
Alguns também criticam o "pequeno príncipe" da IA por se diversificar em excesso, de infraestruturas à rede social de vídeo Sora, passando pelo design de um dispositivo conectado.
Mas, exceto por alguns poucos analistas radicais, apenas alguns preveem a implosão da OpenAI.
"Não haverá um vencedor" na corrida da IA, aposta o analista Angelo Zino, da empresa de investimentos CFRA, "mas serão necessários múltiplos provedores de modelos de alta qualidade", entre eles a OpenAI, que em sua avaliação pode ter sucesso sem continuar sendo a número um.
Além disso, muitos dos acordos com provedores de computação, processadores ou serviços em nuvem oferecem condições bastante flexíveis.
Nestes tempos turbulentos, ter um acionista como a Microsoft (27% do capital) é inestimável, especialmente porque a aliança com a criadora do Windows garante receita constante e substancial.
"Todas estas empresas vão ganhar uma fatia do bolo", insiste Zino. "E o bolo vai crescer muito mais", garante.
Se a Alphabet, controladora do Google, tem diversas outras maneiras de gerar receita, a OpenAI precisa lucrar com seus modelos de IA. Atualmente ela faz dinheiro com assinaturas para usuários que querem ter acesso às versões mais recentes do ChatGPT.
Empresas também pagam para integrar produtos da OpenAI em seus aplicativos ou compram soluções prontas da empresa. Além disso, a Microsoft, que investiu pesadamente na OpenAI, integra a IA em seus próprios produtos. Mesmo assim, a OpenAI aparentemente não é lucrativa.
A empresa não publica resultados de receita ou lucro. No início de novembro, Altman afirmou que a OpenAI está a caminho de gerar mais de 20 bilhões de dólares em receita anualizada este ano, com planos de crescer para centenas de bilhões até 2030.
O banco britânico HSBC divulgou uma visão pouco otimista sobre a situação da OpenAI, como relatou o jornal Financial Times. A receita poderia chegar a 213 bilhões de dólares até 2030. No entanto, essa previsão se baseia em diversas suposições.
Mesmo que a OpenAI consiga aumentar a receita, os custos também estão em constante ascensão, de modo que, no fim, haveria um prejuízo operacional de mais de 70 bilhões de dólares, segundo estimativas do HSBC. (AFP e DW)
Dólares decidem a corrida
Para se manter à frente na corrida pela liderança são necessários investimentos bilionários, especialmente em data centers onde a IA é treinada. A controladora do Google previu investimentos de até 93 bilhões de dólares em 2025, de olho no crescimento do setor de IA. Para 2026, espera-se um "aumento significativo" no volume de investimentos.
Já a OpenAI está comprometida em investir 1,4 trilhão de dólares na construção de infraestrutura de IA, como chips e data centers, ao longo dos próximos oito anos. A quantia exorbitante levantou questionamentos de investidores e outros profissionais do setor sobre a origem dos recursos da OpenAI.
Afinal, se uma empresa como a Alphabet pode usar a própria receita para esses investimentos, a OpenAI precisa levantar capital. A Alphabet gerou mais de 100 bilhões de dólares em receita no trimestre passado. A publicidade relacionada ao seu mecanismo de busca foi uma importante fonte de renda. O negócio de nuvem também está apresentando bom desempenho.
Além disso, a empresa desenvolveu seus próprios chips de IA, que são usados nos data centers do Google, tornando o desenvolvimento de IA menos dependente dos caros chips da Nvidia. Esses chips também deverão ser fornecidos para outras empresas. Parece já haver interesse: a Meta estaria planejando usá-los em seus planejados data centers de IA.
Analista do Deutsche Bank Research, Adrian Cox diz haver uma probabilidade muito alta de que o Google tenha o melhor modelo de IA neste ano, e não a OpenAI. "O grande desafio para a OpenAI agora é desenvolver um modelo de negócios que gere receita suficiente para em breve financiar 1 bilhão de usuários semanais." Ainda não está claro como isso se dará.
"Os dados sobre assinaturas sugerem que elas não serão suficientes para cobrir os custos", diz Cox. Por isso a OpenAI está avaliando alternativas. (DW)
Outros concorrentes
Adrian Cox, analista do Deutsche Bank Research, diz que o mercado passa por uma espécie de divisão: de um lado os modelos de código aberto leves, baratos de produzir e de usar, que podem ser adaptados para tarefas específicas, e, do outro, os modelos proprietários sofisticados, grandes e de uso geral de empresas como a Alphabet e a OpenAI.
Assim, a batalha pela liderança no setor de IA não envolve apenas as duas empresas dos Estados Unidos. Cox diz que a situação atual, na comparação com 2022, é de uma competição significativamente maior entre atores consolidados, como a Alphabet, e novas startups, como a Anthropic quando se trata dos modelos mais avançados.
Além disso, há a concorrência crescente entre modelos de código aberto dos EUA, da China e da Europa, por exemplo da francesa Mistral. Esses modelos não tentam competir diretamente com os modelos de grandes proprietários sofisticados.
Há avanços também na China. Por exemplo, a empresa Baidu, conhecida pelo seu mecanismo de busca, apresentou seu novo modelo de IA, o DeepSeek , em setembro do ano passado. De acordo com a empresa, seu desempenho está em pé de igualdade com o GPT-5 da OpenAI e o Gemini 2.5 Pro da Alphabet.
Em novembro, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, alertou que a China "está apenas nanossegundos atrás dos Estados Unidos" e pode vencer a corrida pela supremacia na IA. (DW)
Destaques
A revista Time apontou os "arquitetos da inteligência artificial (IA)" como Personalidade do Ano de 2025. A publicação destaca Jensen Huang, da Nvidia; Sam Altman, da OpenAI; e Elon Musk, da xAI. "Eles reorientaram políticas governamentais, alteraram rivalidades geopolíticas e levaram robôs aos lares. A IA emergiu, possivelmente, como a ferramenta mais relevante na competição entre grandes potências desde o advento das armas nucleares", diz a Time
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A OpenAI está investindo grandes quantias de dinheiro para desenvolver seus modelos, mas não está claro como isto se traduzirá em termos econômicos
Ashu Garg,
sócio da empresa de investimentos Foundation Capital
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Há uma grande probabilidade de que o Google tenha o melhor modelo de IA neste ano, e não a OpenAI, considera Adrian Cox, analista do Deutsche Bank Research