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EUA ameaça nova presidente e diz ser cedo para eleição na Venezuela
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EUA ameaça nova presidente e diz ser cedo para eleição na Venezuela

| INSTABILIDADE | Os Estados Unidos dizem querer controlar a complexa situação venezuelana à distância, sem forçar por ora uma mudança de regime, mas deixando todas as opções em aberto
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Nicolás Maduro com a agora presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodriguez, em foto de 23 de janeiro de 2019 (Foto: LUIS ROBAYO / AFP)
Foto: LUIS ROBAYO / AFP Nicolás Maduro com a agora presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodriguez, em foto de 23 de janeiro de 2019

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu a nova líder venezuelana Delcy Rodríguez de que ela deve colaborar com os Estados Unidos se não quiser "pagar um preço muito alto", um dia após a derrubada do mandatário Nicolás Maduro.

A cúpula militar venezuelana reconheceu Rodríguez como presidente interina, de acordo com uma decisão da Suprema Corte, anunciou o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López.

Trump voltou a endurecer o tom depois de, no sábado, ter anunciado que estava disposto a trabalhar com Rodríguez para garantir uma transição democrática "segura e criteriosa", após a bem-sucedida exfiltração de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na madrugada de sábado.

O presidente venezuelano, acusado de narcotráfico e terrorismo nos Estados Unidos, encontra-se em uma prisão de Nova York à espera de se apresentar perante um juiz nesta segunda-feira, 5, ao meio-dia.

"Se ela não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro", disse Trump à revista The Atlantic em breve entrevista por telefone.

Os Estados Unidos dizem querer controlar a complexa situação venezuelana à distância, sem forçar por ora uma mudança de regime, mas deixando todas as opções em aberto.

Falar de eleições na Venezuela "é prematuro neste momento", declarou o secretário de Estado, Marco Rubio, em entrevista televisiva.

Washington quer ainda reabrir a exploração petrolífera para suas empresas, enquanto Rodríguez advertiu pouco depois da captura de Maduro que seu governo está pronto "para defender nossos recursos naturais".

"Reconstruir não é algo ruim no caso da Venezuela", disse Trump. "É um país totalmente falido. Um desastre em todos os sentidos", acrescentou.

"Vamos julgar tudo pelo que eles fizerem, e vamos ver o que fazem", disse por sua vez Rubio em entrevista à CBS News.

Os Estados Unidos mantêm no Caribe uma poderosa força naval que liderou a incursão e que também está encarregada de impedir que navios petroleiros sob sanções consigam retirar o petróleo do país.

A legalidade da incursão é intensamente debatida nos Estados Unidos, onde o Congresso tem, em princípio, a prerrogativa de declarar guerra.

Rubio invocou os poderes especiais de Trump para ordenar o cumprimento de uma decisão da Justiça americana.

Os Estados Unidos não reconheciam Maduro como o presidente legítimo da Venezuela. No poder desde 2013, suas duas reeleições nos pleitos de 2018 e 2024 foram denunciadas como fraudulentas pela oposição.

Trata-se de "alguém que nunca respeitou nenhum dos acordos que firmou" e a quem "oferecemos, em múltiplas ocasiões, a possibilidade de abandonar o poder", justificou Rubio.

"Maduro é uma pessoa horrível, mas você não responde a uma ilegalidade com outra ilegalidade", criticou o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, em entrevista à ABC.

As forças especiais americanas mataram "a sangue frio" os seguranças de Maduro, assegurou em Caracas o ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López.

O clima em Caracas era o de uma cidade fantasma neste domingo, com algumas farmácias e supermercados abertos, mas a maioria das lojas com as portas abaixadas. Policiais vestidos de preto, encapuzados e armados com fuzis patrulhavam as ruas.

As marcas dos bombardeios em áreas próximas ao porto e ao aeroporto de Caracas provocam angústia e incredulidade entre os moradores.

"Se um míssil desses cair aqui, bem, não sobra nada", explicou à AFP Alpidio, de 47 anos, um morador do bairro Bolívar de La Guaira que não quis informar o sobrenome.

O Conselho de Segurança da ONU debaterá o caso em caráter de urgência nesta segunda-feira, e o mesmo fará a Organização dos Estados Americanos (OEA) na terça-feira, 6, na sede em Washington.

Os governos de esquerda de Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai se uniram para denunciar a operação militar, enquanto aliados de Trump na região, como Argentina e El Salvador, demonstraram apoio.

Moscou e Pequim exigiram a "libertação imediata" de Maduro.

Com esta operação militar, Washington pôs fim ao terceiro mandato do líder venezuelano (2025–2031), com o qual ele teria acumulado 18 anos no poder.

As explosões e os sobrevoos que sacudiram Caracas no sábado foram o clímax de quatro meses de pressão militar contra Maduro. Desde setembro, os Estados Unidos realizaram uma série de bombardeios contra lanchas que supostamente transportavam drogas no Caribe, com um saldo de mais de uma centena de mortos.

Desde 2020, Maduro é considerado pelos Estados Unidos o chefe do chamado "cartel dos Sóis".

Ao todo, são seis pessoas do regime chavista atualmente acusadas, entre elas a própria esposa de Maduro, Cilia Flores, e o ministro do Interior venezuelano, Diosdado Cabello, considerado um dos homens-chave do regime.

Nas primeiras declarações após a operação na Venezuela, Trump excluiu dos cálculos políticos a líder opositora e Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, ao afirmar que "seria muito difícil para ela estar à frente do país".

De acordo com a Constituição venezuelana, a ausência de Maduro obrigaria a convocação de eleições nos próximos 30 dias, mas, ao delegar o poder de forma temporária a Rodríguez, essa possibilidade fica em aberto.

O que Trump deixou muito claro foi sua intenção de incentivar as petroleiras americanas a retornarem à Venezuela.

"Vamos fazer com que nossas empresas petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores em qualquer parte do mundo, entrem, invistam bilhões de dólares, reparem a infraestrutura gravemente deteriorada, a infraestrutura petrolífera, e comecem a gerar dinheiro", disse.

A Venezuela, sob sanções petrolíferas americanas desde 2019, produz cerca de um milhão de barris de petróleo por dia e vende a maior parte no mercado negro com grandes descontos.

A companhia petrolífera americana Chevron já opera atualmente no país caribenho graças a uma autorização especial. (AFP)

China pede a libertação de Maduro

O Ministério das Relações Exteriores da China pediu nesse domingo, 4, que os Estados Unidos libertem imediatamente o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a esposa, que foram capturados na véspera em Caracas e estão sendo mantidos sob custódia em uma prisão federal no Brooklyn, em Nova York.

Para o governo chinês, um dos principais parceiros políticos e econômicos da Venezuela, a ação deflagrada pelos Estados Unidos "violou claramente" o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais, além dos propósitos e princípios estabelecidos pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU).

No comunicado, a China pede que os Estados Unidos garantam a segurança pessoal de Maduro e da esposa e cessem com a tentativa de derrubar o governo venezuelano.

Esta foi a segunda manifestação oficial da China sobre o caso. Nos sábado, 3, o Ministério das Relações Exteriores da China já havia condenado o uso da força pelos Estados Unidos contra Maduro, dizendo estar "profundamente chocado" com a ação deflagrada ontem.

"A China condena veementemente o uso flagrante da força por parte dos Estados Unidos contra um país soberano e sua ação contra o presidente de outro Estado", afirmou a chancelaria. (Agência Brasil)

Brasil e mais 5 países rejeitam "controle" sobre a Venezuela

Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha rejeitaram no domingo, 4, "qualquer tentativa de controle" sobre a Venezuela, depois que os Estados Unidos afirmaram ter assumido o controle do país após a detenção de Nicolás Maduro.

Os seis países manifestaram preocupação com a estabilidade regional após os ataques de Washington que resultaram na captura de Maduro.

Donald Trump afirmou que um de seus principais objetivos é manter o domínio sobre o petróleo da Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo bruto do mundo.

"Manifestamos nossa preocupação diante de qualquer tentativa de controle governamental, de administração ou de apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos" venezuelanos, aponta um comunicado divulgado pela Chancelaria colombiana.

"A situação na Venezuela deve ser resolvida" com "respeito à vontade do povo venezuelano em todas as suas expressões, sem ingerências externas e em conformidade com o direito internacional", acrescenta o texto.

Os líderes dos países signatários, como Luiz Inácio Lula da Silva ou Gustavo Petro na Colômbia, rejeitaram publicamente a incursão americana na Venezuela e pediram medidas a organismos internacionais como a ONU.

Washington capturou Maduro, que enfrentará em Nova York um julgamento por suposto narcotráfico e terrorismo, e reconheceu até agora sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, como nova mandatária, que conta com o apoio da cúpula militar venezuelana.

O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse no domingo que é "prematuro" falar sobre eleições "neste momento".

Países aliados da Venezuela, como Rússia, China, Irã e Cuba, também rejeitaram os ataques. Moscou e Pequim exigiram a "libertação imediata" de Maduro. (AFP)

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