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Protestos no Irã diminuem, mas tensão continua
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Protestos no Irã diminuem, mas tensão continua

| CONFLITOS | Número contabilizado de mortos na repressão varia de 3 mil a mais de 20 mil, conforme diferentes cálculos. Depois de Trump ameaçar uma ação militar, ele agradeceu pela suspensão de execuções por Teerã
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CAPTURA de vídeo a partir de imagens geradas por usuários e compartilhadas online em 8 de janeiro de 2026, mostra manifestantes gritando
Foto: UGC / AFP CAPTURA de vídeo a partir de imagens geradas por usuários e compartilhadas online em 8 de janeiro de 2026, mostra manifestantes gritando "morte ao ditador" enquanto marcham na capital iraniana, Teerã

A intensidade dos protestos no Irã contra o sistema teocrático da República Islâmica diminuiu após uma repressão brutal com milhares de mortos e em meio a um apagão da internet, afirmaram organizações de monitoramento na sexta-feira, 16.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agradeceu às autoridades de Teerã depois de afirmar que foram suspensas as execuções de centenas de manifestantes presos em uma repressão brutal.

"Respeito enormemente o fato de que todas as execuções programadas, que aconteceriam ontem (mais de 800), tenham sido canceladas pela liderança do Irã. Obrigado!", escreveu Trump em sua rede Truth Social, nessa sexta.

Os protestos começaram em 28 de dezembro em Teerã para protestar contra o custo de vida, mas se espalhou para outras cidades com a exigência da queda do sistema clerical que governa o Irã desde a revolução de 1979.

Os iranianos começaram a se mobilizar em grandes cidades no dia 8 de janeiro, mas as autoridades impuseram imediatamente um bloqueio da internet que, segundo ativistas, buscou ocultar a dimensão da repressão.

A "brutal" repressão "provavelmente sufocou o movimento de protesto por enquanto", avalia o Instituto para o Estudo da Guerra, com sede nos Estados Unidos, que acompanha as manifestações.

"No entanto, a mobilização generalizada das forças de segurança (...) é insustentável, o que torna possível a retomada dos protestos", acrescentou.

A ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, contabiliza ao menos 3.428 manifestantes mortos pelas forças de segurança, em casos que verificou e que foram ratificados por fontes independentes.

Outras estimativas reportam o número de mortos em mais de 5 mil, e possivelmente até 20 mil, uma vez que o bloqueio da internet dificulta uma verificação independente, segundo a IHR.

O canal de oposição Iran International, que opera fora do país, afirmou que pelo menos 12 mil pessoas morreram durante os protestos, citando fontes governamentais e de segurança de alto nível.

O diretor da IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, citou "relatos horripilantes de testemunhas oculares" sobre "manifestantes mortos a tiros enquanto tentavam fugir, o uso de armas de guerra e a execução em plena rua de manifestantes feridos".

Os iranianos estão sem internet há mais de 180 horas, mais do que durante as manifestações maciças de 2019, destacou a ONG de monitoramento de cibersegurança Netblocks.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que apoiou e se juntou à guerra de 12 dias de Israel contra o Irã em junho, não descartou uma nova ação militar contra Teerã e deixou claro que estava muito atento à possibilidade de algum manifestante ser executado.

No entanto, um alto funcionário saudita declarou na quinta-feira, 15, que Arábia Saudita, Catar e Omã "realizaram intensos esforços diplomáticos de última hora para convencer o presidente Trump a dar ao Irã a oportunidade de demonstrar suas boas intenções".

Washington pareceu ter dado um passo atrás, mas a Casa Branca afirmou na quinta-feira que "todas as opções seguem sobre a mesa".

A atenção centrou-se no destino de um manifestante Erfan Soltani, de 26 anos, segundo ativistas dos direitos humanos e Washington, que seria executado na quarta-feira.

O poder Judiciário iraniano confirmou que Soltani estava detido, mas afirmou que ele não havia sido condenado à morte e que as acusações contra ele não implicavam risco de pena capital.

Grupos de direitos humanos estimam que aproximadamente 20 mil pessoas foram detidas no país. Segundo a agência de notícias Tasnim, fontes de segurança afirmaram nesta sexta-feira que cerca de 3 mil haviam sido detidas.

O presidente russo, Vladimir Putin, falou por telefone nesta sexta-feira com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e prevê conversar com seu homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, anunciou o Kremlin.

A Casa Branca também confirmou que o mandatário americano falou com Netanyahu, que, segundo o New York Times, pediu que ele não intervenha militarmente.

O governo americano também anunciou sanções econômicas contra autoridades acusadas de coordenar a repressão, incluindo Ali Larijani, à frente do principal órgão de segurança do Irã.

No Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, a jornalista iraniano-americana Masih Alinejad afirmou que "todos os iranianos estão unidos" contra o sistema clerical no Irã.

O representante iraniano na reunião, Gholamhossein Darzi, acusou Washington de "se aproveitar dos protestos pacíficos com fins geopolíticos". (AFP)

Filho do último xá do Irã diz que República islâmica "vai cair"

O filho do falecido xá do Irã declarou, nessa sexta-feira, 16, que confia que a República islâmica vai cair diante dos protestos multitudinários e pediu uma intervenção estrangeira.

"A República islâmica vai cair, não é uma questão de se, mas de quando", afirmou Reza Pahlavi em uma coletiva de imprensa em Washington. "Voltarei ao Irã", acrescentou.

Pahlavi vive exilado nos Estados Unidos desde que a revolução islâmica de 1979 depôs o pai dele.

Muitos manifestantes entoaram o nome de Pahlavi nos protestos que sacudiram o país desde o fim de dezembro e que foram reprimidos com brutalidade pelas autoridades iranianas.

O filho do xá expressou a intenção de liderar uma transição para uma democracia laica, embora tenha muitos detratores.

Pahlavi pediu reiteradamente ao presidente americano, Donald Trump, que ordene uma intervenção militar no Irã.

"O povo iraniano está tomando medidas decisivas no terreno. É hora de a comunidade internacional apoiá-lo plenamente (...), enfraquecendo a capacidade repressiva do regime, o que inclui atacar os líderes da Guarda Revolucionária e sua infraestrutura de comando e controle", declarou.

Ele também pediu que todos os países expulsem os diplomatas da República islâmica. (AFP)

Petróleo, conflitos, onda migratória: os temores dos vizinhos do Irã

Os países do Golfo, assim como Turquia e Paquistão, temem as consequências de um eventual ataque dos Estados Unidos ao regime iraniano dos aiatolás, desde uma onda migratória à crise do petróleo, até mesmo uma espiral de violência na região.

Por este motivo, vários vizinhos da República Islâmica, sobretudo Arábia Saudita, Catar e Omã, alertaram ao presidente americano, Donald Trump, que atacar o Irã poderia abrir a caixa de Pandora.

O principal temor dos países aliados de Washington no Golfo é de uma resposta iraniana, porque, embora se suponha que contem com a proteção americana, estariam na linha de frente.

O Irã, apesar de enfraquecido durante a guerra de 12 dias travada em junho com Israel — à qual se somou o bombardeio americano de suas usinas nucleares —, continua sendo uma potência capaz de atacá-los.

Os países do Golfo "sabem que são vulneráveis, porque os iranianos têm mísseis básicos de alcance médio suficientes que lhes permitem atingir pontos vitais destes países: as usinas de dessalinização de água do mar, os centros de hidrocarbonetos, as usinas elétricas", explicou Pierre Razoux, da Fundação Mediterrânea de Estudos Estratégicos.

"E sem estas infraestruturas, estes países quentes e desérticos correm o risco de se tornarem inabitáveis", ressalta Razoux.

Estas nações petrolíferas também "estão preocupadas com os ataques às infraestruturas de energia e por um possível bloqueio dos fluxos" no gargalo do estreito de Ormuz, recorda Cinzia Bianco, pesquisadora sobre o Golfo no European Council on Foreign Relations.

O cenário ocorre no momento em que os países do Golfo estão imersos em ambiciosas agendas políticas (mudança de modelo econômico, grandes obras, transições energéticas etc).

"Tudo seria mais complicado com uma crise petrolífera, e ter de gerir as consequências de segurança de uma mudança de regime no Irã acrescentaria complexidade", explica Bianco.

Segundo Razoux, este cenário correria o risco de empurrar a China, grande compradora de petróleo do Golfo, a reduzir laços com a região, algo preocupante para países que tentam reequilibrar sua dependência dos EUA.

Além disso, atacar o Irã representa um risco de reviver conflitos caso Teerã os reative em represália, por meio dos huthis no Iêmen ou do Hezbollah no Líbano.

O enfraquecimento também poderia dar maior espaço a grupos hostis em países como Turquia e Paquistão.

Em caso de queda do regime, "os grupos ligados (aos combatentes do movimento curdo) PKK se tornariam mais ativos", afirmou Gönül Tol, do Middle East Institute.

Em protestos anteriores, Ancara "temia que, se o regime caísse, os grupos curdos aproveitariam para criar problemas na Turquia", insistiu.

O Paquistão também lembrou, na quinta-feira, que lhe convém um "Irã estável e pacífico, sem distúrbios internos".

Os ataques americanos "teriam consequências desestabilizadoras para toda a região, e o Paquistão corre o risco de ser particularmente afetado", explica à AFP a ex-diplomata e analista Maleeha Lodhi.

"Qualquer espaço não governado próximo às fronteiras fortaleceria os militantes de sua instável província do Baluchistão e constituiria uma grave ameaça à sua segurança", acrescenta.

Se os ataques derrubarem o governo e o Irã entrar em uma guerra civil, alguns vizinhos temem ainda ondas migratórias em massa, como ocorreu na Turquia durante a guerra civil síria.

Segundo Sinan Ülgen, do think tank Carnegie Europe, "o impacto seria sem dúvida muito maior, dada a extensão do país, sua população, a heterogeneidade" do Irã, um gigante de 92 milhões de habitantes com
múltiplas etnias.

"Turquia, Azerbaijão e Armênia temem isso particularmente porque seriam países de destino", argumenta o analista russo Nikita Smagin.

Para estes dois últimos Estados, as consequências de uma grande afluência de refugiados "poderiam ameaçar facilmente sua estabilidade", adverte. (AFP)

Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã
Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã

Perfis

Ali Khamenei:

o implacável líder supremo que enfrenta o seu maior desafio no Irã

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, um estrategista habilidoso que nunca hesitou em recorrer à repressão, superou inúmeras crises à frente do sistema teocrático da República Islâmica, mas agora enfrenta uma oposição sem precedentes.

Aos 86 anos, comanda o Irã desde 1989, sucedendo o fundador, o aiatolá Ruhollah Khomeini.

Desde então, reprimiu brutalmente uma série de protestos, como a mobilização estudantil de 1999, as manifestações em massa deflagradas em 2009 por eleições presidenciais controversas e uma onda de contestação em 2019.

Khamenei sempre o turbante preto dos "sayyid", os descendentes do profeta Maomé, e uma espessa barba branca.

Ele sobreviveu à guerra do ano passado e, diante da nova onda de protestos que sacode o país, apareceu em público para pronunciar um discurso agressivo no qual chamou os manifestantes de "bando de vândalos" apoiados pelos Estados Unidos e por Israel.

Khamenei, filho de um imã, nasceu em uma família pobre do país. O ativismo contra o xá Reza Pahlavi, apoiado pelos EUA, fez com que passasse grande parte das décadas de 1960 e 1970 na prisão.

Reza Pahlavi:

ex-príncipe herdeiro que ganhou projeção nos protestos no Irã

Reza Pahlavi foi criado para se tornar xá do Irã, mas vive no exílio desde a revolução de 1979 que derrubou o pai dele. Agora, emergiu como uma figura de unidade nos protestos que sacodem a República Islâmica.

O grito "Pahlavi voltará!" tornou-se um mantra das manifestações.

Ele não pisa no Irã desde antes da revolução que depôs o pai, Mohamad Reza Pahlavi, pondo fim a milhares de anos de governo imperial no país.

Reza Pahlavi estava fora do Irã durante a revolução. Deixou o país em 1978, aos 17 anos, para se formar como piloto militar nos Estados Unidos. O pai morreu em 1980, no Egito. A mãe, de 87 anos, está viva.

Pahlavi insiste que não quer ser coroado monarca do Irã, mas que está pronto para liderar uma transição rumo a um país livre e democrático. Ainda assim, é uma figura que divide opiniões, inclusive entre a oposição iraniana.

Pahlavi defende um Irã laico, com maiores liberdades sociais, especialmente para as mulheres, além de espaço para os apoiadores da República Islâmica, mas seu estilo comedido contrasta com o de alguns aliados que defendem punir adversários.

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