Um ano depois de iniciar o segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está destruindo a ordem global estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, o que pode deixar um mundo talvez irreconhecível.
Longe de diminuir o ritmo, Trump, que completa 80 anos em junho, recebeu o novo ano com uma série de ações agressivas que desafiam sem pudor a estrutura defendida pelos Estados Unidos durante décadas.
O mandatário ordenou em 3 de janeiro uma incursão na Venezuela para capturar o líder Nicolás Maduro, um velho inimigo de Washington, e sua esposa, Cilia Flores, levados a Nova York sob acusações de narcotráfico. O ataque deixou mais de 100 mortos.
Desde então, Trump tem ameaçado usar a força contra amigos e inimigos. O republicano intensificou os apelos para anexar a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, aliada da Otan, e advertiu sobre ataques contra o Irã enquanto o regime clerical reprime violentamente os protestos.
Também cogitou a possibilidade de realizar ações militares no México e na Colômbia, embora tenha mudado seu tom após manter conversas com os presidentes desses países. Um estilo volátil que, segundo seus partidários, mostra que Trump prefere a diplomacia quando pode obter resultados que o favoreçam.
Mas Trump também descartou as formas tradicionais da diplomacia. Recentemente retirou os Estados Unidos de dezenas de organismos da ONU e de outras organizações internacionais, em linha com seu lema “Estados Unidos em primeiro lugar”.
A inabalável disposição de Trump de recorrer à força também se manifestou em seu próprio país. Sob a liderança do vice-presidente, JD Vance, seu governo não teve sequer um gesto formal de empatia diante da morte de uma mulher pelas mãos de um agente de imigração em Minneapolis em 7 de janeiro. Em vez disso, ordenou aumentar o destacamento de forças na cidade.
Stephen Miller, o artífice da campanha anti-imigração de Trump e que tem assumido um papel crescente na política externa como vice-chefe de gabinete da Casa Branca, disse que era hora de ir além das “cortesias internacionais”.
“Vivemos em um mundo, no mundo real... que é regido pela força, que é regido pela violência, que é regido pelo poder”, disse Miller durante uma entrevista à CNN.
Washington liderou a criação das instituições internacionais após a Segunda Guerra Mundial, desde as Nações Unidas até à Otan, às quais Trump agora denuncia como injustas para os Estados Unidos.
Os líderes americanos foram frequentemente acusados de hipocrisia, como em 2003, quando George W. Bush invadiu o Iraque ignorando a ONU. A diferença, segundo analistas, é que Trump raramente finge perseguir princípios “universais” superiores, como promover a democracia.
Na Venezuela, onde Rubio e outros funcionários tinham qualificado Maduro como ilegítimo por denúncias de fraude eleitoral, Trump desconsiderou a oposição e disse que quer trabalhar com a vice‑presidente Delcy Rodríguez, hoje mandatária interina do país.
Trump declarou que a prioridade é controlar o petróleo da Venezuela e que levantaria a ameaça do uso da força para manter o país alinhado com seus interesses.
O presidente francês, Emmanuel Macron, advertiu que a abordagem americana poderia anunciar uma era de “novo colonialismo e novo imperialismo”, quatro anos depois de a Rússia invadir a Ucrânia.
“Os Estados Unidos são uma potência consolidada, mas uma que aos poucos se afasta de alguns de seus aliados e se descola de normas internacionais que até há pouco seguia promovendo”, disse Macron.
Melanie Sisson, pesquisadora da Brookings Institution, disse que os Estados Unidos tiveram sucesso por muito tempo “sem precisar atacar, conquistar e invadir”.
“Em geral, conseguíamos impor nossa vontade, na maioria das vezes, utilizando outras ferramentas de influência exercidas por meio de organizações e alianças internacionais”, explicou.
Mesmo que a Europa deseje a ordem liberal, disse Sisson, outras potências certamente seguirão o exemplo de Trump ao buscar seus próprios interesses.
“Não creio que haverá uma reconstrução da ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial tal como a conhecemos”, acrescentou.
“Isso não significa que alguns dos princípios fundamentais dessa ordem não possam ser recompostos, mas Trump está reconfigurando a política internacional de um modo que será duradouro.”
Um diplomata de um país aliado dos Estados Unidos, que falou sob condição de anonimato para poder se expressar com franqueza, disse que, embora os métodos de Trump possam ser chocantes, este é o momento propício para a mudança.
Rússia e Israel realizaram campanhas militares sem serem impedidos, apesar da ampla condenação internacional, disse. “Era evidente que a ordem mundial não estava funcionando, embora fingíssemos que sim". (AFP)
Uso de IA para mensagens políticas
De um jogo de futebol no Salão Oval a coquetéis em Gaza ou ataques a críticos a partir de um avião de combate, o presidente Donald Trump transformou a inteligência artificial em uma ferramenta central da comunicação política.
No primeiro ano do segundo mandato na Casa Branca, Trump intensificou o uso de imagens hiper-realistas, mas falsas, na Truth Social e em outras plataformas. Ele as usa para se vangloriar enquanto ridiculariza seus críticos.
Mensagens semelhantes criadas com IA também foram usadas por outros setores do governo Trump, assim como por alguns dos rivais do presidente.
Uma das publicações de Trump o mostra jogando futebol no Salão Oval com Cristiano Ronaldo, a quem descreveu como "um grande sujeito" e alguém "muito inteligente e genial".
Em outra publicação criada com IA, ele aparece ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, enquanto tomam sol em um resort de luxo. Ao fundo, um letreiro diz "Trump Gaza".
O vídeo foi publicado depois que o presidente americano propôs no ano passado transformar Gaza na "Riviera do Oriente Médio", sugestão que gerou duras críticas.
Tanto Trump quanto a Casa Branca divulgaram imagens que mostram o presidente vestido como papa, rugindo ao lado de um leão ou como maestro no Kennedy Center.
"Bem-vindos à primeira administração da Casa Branca dos Estados Unidos que adota e utiliza imagens geradas por inteligência artificial em sua comunicação diária", afirmou um relatório do instituto de mídia Poynter, uma organização sem fins lucrativos.
"Com a IA, Trump difunde estereótipos e narrativas falsas em publicações que rebaixam questões complexas aos pontos de conversa mais básicos, sem se importar com sua base factual", acrescentou.
Trump dedicou suas publicações com IA mais provocativas a rivais e críticos, usando-as para instigar a base conservadora que o apoia.
No ano passado, ele divulgou um vídeo feito com IA do ex-presidente Barack Obama sendo detido no Salão Oval e, depois, atrás das grades com um uniforme laranja.
"Para alguém como Trump, a IA generativa sem regulação é a ferramenta perfeita para chamar atenção e distorcer a realidade", disse Nora Benavidez, assessora principal do grupo de defesa Free Press.
Analistas afirmam que as mensagens com IA equivalem a uma estratégia de campanha por meio do "trolling", uma tática que pode ecoar entre eleitores mais jovens diante das eleições legislativas de meio de mandato neste ano.
"Embora em muitos aspectos seja desejável que o presidente se mantenha afastado da disputa e não compartilhe imagens geradas por IA, Trump demonstrou repetidamente que vê seu tempo no cargo como uma campanha política sem pausa", disse Joshua Tucker, codiretor do Centro de Redes Sociais e Política da Universidade de Nova York.
"Devemos ver o uso de imagens políticas criadas com IA como uma de suas ferramentas — assim como as postagens de texto — para continuar essa campanha", acrescentou. (AFP)