De cada dez brasileiros, três já recorreram à inteligência artificial (IA) para entender temas considerados complexos, como política, economia e ciências, mostra pesquisa realizada pelo Nexus sobre o uso da ferramenta no País.
De acordo com a pesquisa, o uso de IA é mais intenso entre pessoas de 18 a 30 anos de idade. Entre essa faixa etária, quatro em cada dez pessoas já utilizaram a ferramenta para aprender sobre temas científicos, econômicos ou políticos. Por outro lado, entre aqueles nascidos entre 1946 e 1964, também conhecidos como baby boomers, somente 13% indicaram esse tipo de uso.
O levantamento foi realizado em todos os estados do Brasil e entrevistou 2.012 brasileiros com mais de 18 anos entre os dias 26 de agosto e 1º de setembro de 2025, de forma presencial. A margem de erro da amostra é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Outra constatação do levantamento é que o uso da inteligência artificial também varia conforme a renda e a escolaridade das pessoas. Em relação à renda, 39% dos que ganham mais de cinco salários mínimos utilizam IA com a finalidade de compreender assuntos tidos como complexos. Já no recorte com renda até um salário mínimo, o percentual é de 22%.
Em relalão à escolaridade dos entrevistados, 39% daqueles com ensino superior completo citaram o uso da IA para compreender temas complexos. O número cai para 32% entre os entrevistados com ensino médio e chega a 20% entre aqueles com ensino fundamental.
Ainda de acordo com o levantamento da Nexus, 29% dos entrevistados responderam que se sentiriam confortáveis em usar IA como apoio para decisões relacionadas à saúde e ao bem-estar. Já 28% afirmaram considerar que as ferramentas poderiam ser usadas para automatizar tarefas de trabalho ou estudo.
Além disso, 23% dos que foram ouvidos no levantamento veem a tecnologia como aliada para aumentar a produtividade. O uso para tarefas relacionadas a trabalho e produtividade é mais comum entre pessoas com ensino superior e renda acima de cinco salários mínimos (35%).
A aplicação da IA em saúde e bem-estar aparece mais entre pessoas com renda de até um salário mínimo (34%), mulheres e pessoas de 45 a 60 anos (32%).
TSE terá um mês para debater regras sobre IA nas eleições
Entre a realização de audiências públicas e o fim do prazo para definir as regras para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) terá um mês para analisar as sugestões da sociedade civil e de plataformas digitais, debater o texto internamente entre os ministros e aprovar as resoluções propostas pelo ministro Kássio Nunes Marques.
Enquanto as novas regras não saem, já proliferam nas redes sociais conteúdos adulterados relacionados aos pré-candidatos, como o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Antes de cada eleição, o TSE edita resoluções para atualizar as normas que regem o pleito. As regras tratam sobre temas como propaganda e ilícitos eleitorais, além de atos gerais do processo, fiscalização e auditoria. Especialistas esperam atualizações sobre redes sociais e influenciadores digitais, mas a mudança mais aguardada está relacionada aos contornos do uso da inteligência artificial (IA) nas campanhas.
Em 2024, o TSE editou pela primeira vez regras que exigem a rotulagem de conteúdos criados com auxílio de IA e proíbem o uso dos chamados deepfakes no contexto eleitoral.
As regras valeram para as eleições municipais daquele ano e seguem em vigor até que o TSE edite novas normas. Para 2026, especialistas aguardam uma regulamentação mais precisa e tecnicamente atualizada, capaz de proteger o eleitor de conteúdos que possam de fato influenciar na liberdade de voto e conter a disseminação em massa dessas postagens.
As audiências públicas para receber sugestões da sociedade civil foram marcadas para 3, 4 e 5 de fevereiro. O último dia para aprovação do texto é 5 de março.
"Tivemos por muitas eleições as resoluções aprovadas ainda em dezembro, mesmo o limite sendo em 5 de março. Isso sempre foi muito positivo por permitir um planejamento muito mais cuidadoso dos partidos, da imprensa, do Ministério Público, de todos os atores da disputa eleitoral", avalia Fernando Neisser, advogado e professor de Direito Eleitoral da FGV/SP.
O especialista pondera, contudo, que são esperadas poucas alterações nas normas em relação a 2024. Isso porque as resoluções só podem ser alteradas em razão de nova lei, mudança na jurisprudência ou para abarcar avanços tecnológicos que possam ter efeito nas eleições.
"Praticamente não tivemos mudança na lei, a jurisprudência do TSE desde 2024 também mudou pouco. Espera-se alterações pontuais, não tão profundas. É possível que dê tempo, mas me parece que haverá um debate menos amplo do que se o TSE tivesse atuado da forma costumeira, com mais rapidez nesse processo", observa Neisser.
Em nota, o Tribunal afirmou que "todos os trâmites e prazos observados pelo TSE estão rigorosamente dentro do cronograma legal".
A assessoria da Corte eleitoral também afirmou que a portaria que criou um GT para discutir as regras das eleições de 2024 foi publicada somente em 19 de dezembro de 2023, "um dia antes do recesso forense e em data posterior à deste ano, o que reforça que não houve qualquer atraso no atual processo".
Heloisa Massaro, diretora de pesquisa no Internetlab, destaca que o TSE "avançou bastante" no tema da IA na última rodada de atualizações das resoluções. "Existe uma regulação bem inteligente, principalmente focada no uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. É uma visão bastante focada no uso", frisou.
Segundo ela, não é esperada uma atualização "muito disruptiva", que exija um novo mecanismo de compliance. "Exatamente pela natureza desse processo de legislação das resoluções, não é esperado que venham mudanças regulatórias tão bruscas, que exijam tanto tempo para adaptação", ponderou.
Na visão da especialista, a expectativa maior — inclusive em relação ao tempo para edição das resoluções — é para que o processo seja participativo e que haja espaço para a sociedade civil no aprimoramento das resoluções. "Nos últimos anos o TSE teve uma atuação bastante importante nesse processo de reforma das resoluções, então acho que a gente segue com essa mesma perspectiva", indicou.
A assessoria do Tribunal ainda destacou, em nota, que o planejamento das eleições é contínuo. "Ao longo do ano não eleitoral, há reuniões técnicas e administrativas entre o TSE e os Tribunais Regionais Eleitorais, com foco na organização do próximo pleito. Como exemplo, citam-se os encontros do Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais (Coptrel) e as reuniões periódicas entre a Presidência do TSE e os presidentes dos TREs, nas quais são debatidas questões estratégicas, administrativas e operacionais relacionadas às eleições de 2026", afirmou. (AE)
Conteúdos políticos manipulados são comuns
Com a aproximação das eleições de outubro, imagens de pré-candidatos editadas ou geradas por inteligência artificial (IA) já se tornaram recorrentes nas redes sociais.
No início da semana passada, uma foto manipulada do presidente Lula "musculoso" foi compartilhada por petistas na internet. Em um post no X, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) compartilhou a foto acompanhada da legenda: "O homem tá forte e o projeto é longo. Vem tetra!".
Em dezembro, circulou no TikTok um vídeo que simulava uma reportagem e atribuía a Flávio Bolsonaro uma suposta liderança na corrida presidencial — informação que contraria as pesquisas. Em novembro, outro vídeo falso mostrava Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), dizendo que pediu a prisão de Flávio.
Também circulam com frequência imagens de Lula adulteradas para sugerir que ele estaria alcoolizado. (Agência Estado)
Rede do PT usa "IA brava" para desmentir fake
Os grupos de WhatsApp mantidos pela rede de comunicação ligada ao PT lançaram vídeos produzidos com inteligência artificial (IA) para, ao mesmo tempo, desmentir informações falsas sobre a taxação do Pix e comparar com baratas as lideranças da direita que disseminaram informações distorcidas sobre esse sistema de pagamentos.
Um dos vídeos é baseado na tendência de uso da IA para tornar objetos inanimados em personagens raivosos que dizem como devemos interagir com eles. No vídeo, a marca do Pix é transformada em um boneco bravo que reclama de insinuações falsas sobre ele. "Esse povo da extrema direita não me deixa em paz. Ficam mentindo dizendo que eu vou vigiar, que eu vou taxar, que eu vou acabar. Tá de sacanagem, né?", diz a animação.
Outro vídeo espalhado por grupos de WhatsApp é sobre as "baratas da extrema direita" que "vivem no esgoto" e "saem voando e espalhando mentira". "As baratas dizem que Pix da Ana e da Maria vai ser monitorado, que o governo tá de olho nelas. Isso é mentira", destaca.
O conteúdo responde a publicação do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), na qual o parlamentar diz que o governo passou a "monitorar suas transações no Pix" e que a medida teria sido tomada de uma forma "escondida" e "disfarçada" em uma instrução publicada em agosto de 2025.
A regra mencionada por Nikolas não cria monitoramento em tempo real de transações nem é exclusiva ou novidade para o Pix. A instrução normativa faz com que fintechs e carteiras digitais tenham as mesmas obrigações que bancos tradicionais sempre tiveram. Isso ocorria desde a criação do Pix, em 2020.
A rede de comunicação do PT não tem, oficialmente, ligação com a comunicação institucional do governo. (Agência Estado)