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Mandetta admite erro por entrevista e tenta sair do foco

| Para diminuir tensão | Ministro diz a auxiliares que deve sair dos holofotes nos próximos dias. Aliados de Bolsonaro veem promessa com descrença
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MANDETTA voltou ontem a participar das coletivas com os demais ministros para divulgar os números e as ações de combate ao novo coronavírus (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil MANDETTA voltou ontem a participar das coletivas com os demais ministros para divulgar os números e as ações de combate ao novo coronavírus

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, admitiu a auxiliares ter cometido um erro estratégico ao elevar o tom do embate com o presidente Jair Bolsonaro sobre a conduta do Governo Federal no enfrentamento ao novo coronavírus e deve submergir, nos próximos dias, para sair do foco da crise. Aliados de Bolsonaro, no entanto, veem com descrença a promessa do ministro de fazer uma espécie de "voto de silêncio" sobre suas divergências com o presidente.

Bolsonaro se reuniu ontem, no Palácio da Alvorada, com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que é do mesmo partido de Mandetta. Nos últimos dias, ele tem conversado com dirigentes de siglas do Centrão, que interpretaram o movimento como uma preparação de terreno para a saída do ministro.

Desde o início do mês, Bolsonaro já recebeu parlamentares e dirigentes do PP, PL e Republicanos e hoje deve conversar com o presidente do PSD, Gilberto Kassab.

Mandetta perdeu apoio de militares do governo - que viram na entrevista de domingo dele ao Fantástico, da TV Globo, um tom de provocação. Integrantes do Ministério observaram que, embora esteja defendendo orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mandetta adotou tática errada ao falar em "dubiedade" na equipe sobre medidas para combater a pandemia.

Mesmo depois de alertado por militares, o ministro dobrou a aposta e seguiu contrariando o presidente sobre temas como isolamento social e uso da cloroquina em pacientes diagnosticados com coronavírus. A entrevista ao Fantástico pegou Bolsonaro de surpresa e as declarações de Mandetta foram encaradas como um ato premeditado de quem quer forçar a demissão.

Auxiliares do presidente observam que ele só não dispensou o ministro ainda porque faz um cálculo pragmático. Pesquisas mostram que Mandetta, hoje, é mais popular que Bolsonaro e a demissão, neste momento, agravaria a crise. Atualmente, os cotados para substitui-lo são a médica Nise Yamaguchi e o deputado Osmar Terra (MDB-RS), ex-ministro da Cidadania.

Em conversas reservadas, Mandetta já chegou a confidenciar que só não toma a iniciativa de deixar o governo por receio de ficar com o ônus de quem abandonou "o barco" - ou "o paciente", como tem dito - no momento mais dramático.

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Após participar ontem de reunião ministerial com Bolsonaro no Planalto, Mandetta foi questionado por jornalistas se eram verdadeiras as análises feitas no próprio governo sobre sua intenção de forçar uma saída.

"Não vejo nesse sentido. (O que houve) foi mais uma questão relacionada à comunicação, a como vamos comunicar. Nada além disso", disse.

À noite, Bolsonaro queixou-se do STF pelo fato de o ministro Alexandre de Moraes ter garantido autonomia a governadores e prefeitos para decretar restrições à circulação durante a pandemia. "Quem reabre o Brasil não sou eu, é governador e prefeito. Eu não tenho poder nenhum", disse Bolsonaro, rindo, na portaria do Palácio da Alvorada.

A afirmação de Bolsonaro ocorreu quando um apoiador que o aguardava sugeriu o uso de máscaras artesanais pela população, o que, no entender dele, seria "a chave para reabrir o Brasil", contrariando recomendações de isolamento social feitas pelo Ministério da Saúde.

Ele argumentou dizendo que o ministro da Saúde havia defendido o uso das máscaras de tecido por toda a população como barreira à infecção pela Covid-19 e pediu que o presidente também incentivasse.

Bolsonaro ironizou ao dizer que ele deveria solicitar uma audiência com o ministro. "Vai tentar falar com o Mandetta. É possível falar com o Mandetta ou não? Ele não te recebe, não?", respondeu Bolsonaro. O apoiador ainda insistiu e disse que a determinação deveria partir do presidente. Foi quando Bolsonaro respondeu de forma lacônica: "Eu vou resolver o problema esta semana."

 

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