Reportagem

Os impactos da disputa China X EUA no Ceará

| CRISE | Com a pandemia, os Estados Unidos, maior parceiro comercial do CE, registraram queda história do PIB, com redução de 32,9% no segundo trimestre de 2020. Acirramento do conflito com China repercute nas relações econômicas em escala mundial
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Exportacao do ceara para estados Unidos e China (Foto: luciana pimenta)
Foto: luciana pimenta Exportacao do ceara para estados Unidos e China

Os impactos da pandemia da Covid-19 resultaram em tombo histórico na economia dos Estados Unidos. O País registrou maior queda do Produto Interno Bruto (PIB) desde 1947, com redução de 32,9% no segundo trimestre de 2020. Somado à pandemia, a acirramento do conflito entre EUA e China deve modificar as relações comerciais em escala mundial, afetando países com os quais negociam. O Ceará registrou redução de 30% nas exportações para os Estados Unidos — principal parceiro comercial do Estado — no acumulado de janeiro a junho deste ano em relação a 2019. Setores da indústria siderúrgica, de máquinas e materiais elétricos, calçados e frutas são os mais afetados.

Para o comércio nacional, cujo maior comprador é a China, a conjuntura pode apresentar "janelas de oportunidades", principalmente para estados brasileiros com representatividade nos setores do agronegócio e de commodities.

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Não é possível enxergar os reflexos da pandemia e dos conflitos econômicos entre as duas potências mundiais de forma isolada, conforme Ana Karina Paiva Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). Além do impacto direto na exportação, a tensão entre os líderes da economia mundial fragiliza as relações comerciais entre diversos países.

"No Ceará, os EUA tradicionalmente são o principal parceiro comercial. A exportação para os EUA varia entre 25% e 30%. Já registramos mês em que a venda para os EUA correspondeu a mais de 40% da venda externa. Para a China, seria em torno de 10%, com um resultado relevante", destaca. Segundo ela, não se pode atribuir a queda do valor exportado desses setores a essa tensão comercial entre as economias, visto que a queda é reflexo de vários fatores, como pandemia. "A tensão comercial tende a piorar esse cenário porque os países tendem a ficar mais protecionistas. Ameaças de restrições comerciais, sobretaxas, retaliações. Sem dúvidas, os investimentos estrangeiros diretos ao qual o Ceará tem relevante destaque ficam comprometidos", aponta.

Segundo o economista Alcântara Macedo, se houver redução das exportações de forma substancial, as empresas passam a produzir menos porque não têm como exportar. "Se não precisam da mão de obra, pode haver desemprego. Também pode haver redução da despesa tributária, como no consumo de energia", frisa. A diminuição prejudica o crescimento do superávit da balança comercial do Estado, aquecida pela produção de aço da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) e pela "nova roupagem e logística do porto". Para Macedo, para enfrentar o desafio seria interessante diversificar os mercados compradores.

Contudo, o estabelecimento e ampliação de novas parcerias "não é uma atividade rápida, principalmente em termos de volume de exportações para o mercado americano", frisa ana Karina.

"No caso das commodities de produtos agrícolas, o Brasil leva vantagem porque vende mais soja sem a concorrência dos americanos. O Ceará sofre mais do que outros estados porque não tem soja. Para nós é uma briga desinteressante", afirma Macedo.

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A queda iminente de Donald Trump

A conjuntura atual nos Estados Unidos, tanto no plano doméstico quanto no plano internacional, não é favorável à reeleição do Presidente Donald Trump. Desde o lançamento das primeiras pesquisas eleitorais, os indicadores mostram uma margem extremamente favorável ao candidato do Partido Democrata, o ex-Vice-Presidente Joe Biden.

A troca constante de cargos executivos e os escândalos de corrupção que levaram à votação pelo impeachment somada aos volumosos protestos contra a violência policial dificultam a campanha do Partido Republicano pela reeleição. A pandemia de coronavírus, cuja contenção não tem sido exitosa no país - mais de 4.5 milhões de casos confirmados, mais de 150 mil mortes. A dificuldade aumenta quando se observa uma queda de 32% do PIB americano no último trimestre. Estes fatores no âmbito doméstico desgastam a conturbada imagem de Trump fragilizando sensivelmente a base de apoio e a popularidade do atual governo.

A recente proposta de adiamento das eleições parece, nesse cenário de improvável vitória dos republicanos, uma estratégia para enfraquecer a legitimidade do processo eleitoral como um todo. Já acompanhada de uma campanha de descrédito do sistema de voto via correio nos Estados Unidos, a ação prepara o terreno para que a rejeição da derrota, que parece cada vez mais próxima, se torne mais aceitável entre os apoiadores do atual presidente.

No plano internacional, a política de isolamento segue firme, com críticas à ONU, à OMS, à OMC e ao multilateralismo de forma geral. A "nova guerra fria" entre Estados Unidos e China, sentida sobretudo no plano comercial, impõe dificuldades severas para atuação internacional do país, com dilemas no seu engajamento na Ásia e ainda sem alternativas viáveis para o 5G.

As evidências mostram que Donald Trump terá muita dificuldade para convencer os seus eleitores nas próximas eleições e sua promessa de tornar a América grande novamente é tão vazia quando sua imagem de líder.

Conflito pautará campanha

Se antes da pandemia a reeleição de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, era dada como certa, o impacto econômico da Covid-19 fez o "jogo virar". Conforme Sidney Ferreira Leite, coordenador do curso de Administração e Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco, o conflito com a China se estabelece para além de governos. A postura diante da disputa deve nortear a campanha eleitoral estadunidense para a presidência. O atual cenário é mais favorável ao discurso de negociação e busca de alternativas do adversário Joe Biden.

"A situação econômica dos EUA era o grande troféu do Trump antes da pandemia, com economia aquecida e índice de desemprego pequeno. Esses sinais se reverteram completamente", frisa. Ao contrário do atual presidente, que apresenta discurso bélico e isolamento como estratégia, o democrata Joe Biden tem perfil mais negociador para enfrentamento com reforço de alianças e parcerias.

"O conflito tem a ver com o crescimento econômico e político da China. Uma nova disputa por poder e declínio do engajamento internacional dos Estados Unidos no mundo", explica Oswaldo Dehon, professor de Ciência Política e Relações Internacionais do Ibmec/MG. A tensão crescente se dá principalmente pela relevância apresentada pela China na produção industrial, como de eletroeletrônicos, bens de produção e indústria automobilística, na qual os EUA eram hegemônicos.

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