Reportagem

Ceará é o quarto estado a somar 10 mil mortes por Covid-19

Festividades de final de ano preocupam, pois podem se refletir em explosão de casos no início de 2021. Período de chuvas também pode prejudicar controle da doença
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Lápides no cemitério Bom Jardim - coronavirus (Foto: FABIO LIMA)
Foto: FABIO LIMA Lápides no cemitério Bom Jardim - coronavirus

É impossível mensurar a perda. A tragédia que afetou o mundo em 2020 tem desdobramentos e dores incalculáveis. Do ponto de vista epidemiológico, contudo, indicadores são contabilizados e analisados. O Ceará chegou, neste 1º de janeiro de 2021, à trágica marca de 10 mil mortos por Covid-19, nove meses após o primeiro caso confirmado. O Estado foi o quarto a somar esse número de óbitos em decorrência da infecção, seguindo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Novo aumento de novos casos foi observado a partir de meados de outubro e festividades de fim de ano podem se refletir em explosão de casos no início de 2021.

O governador Camilo Santana solidarizou-se, em uma rede social, ontem, com as famílias que perderam entes queridos. "Minha solidariedade a todas as famílias diante da imensurável dor pela partida dos seus entes queridos. No Brasil já são mais de 195 mil vidas perdidas e famílias devastadas pelo sofrimento", escreveu.

O perfil dos óbitos continua sendo principalmente de pessoas idosas — com média de idade de 70,62 anos — e com alguma comorbidade prévia, o que ocorre em 51,33% das mortes. A perspectiva é de que o Estado inicie o plano de vacinação dos grupos prioritários em fevereiro.

Porém, em entrevista ao O POVO no dia 30 de dezembro de 2020, o secretário da Saúde do Ceará, Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho, Dr. Cabeto, apontou a expectativa de começar a vacinação na segunda quinzena de janeiro com a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac Biotech.

Até a chegada do imunizante, o desafio é controlar a disseminação do vírus para evitar mais mortes. Um fator que pode prejudicar o controle é o início do período chuvoso, no qual há aumento da transmissão de vírus respiratórios. Conforme Érico Arruda, médico infectologista do Hospital São José e professor de medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade de Fortaleza (Unifor), o Ceará sofreu alta expansão de casos no começo da pandemia no Brasil, quando não se tinha protocolos e abordagens bem estabelecidos para os pacientes. Por isso, "ficamos à mercê desse momento cientificamente nebuloso".

"Não temos mais unidades lotadas e agora sabemos conduzir melhor as pessoas em condição mais grave. O problema é o que vem pela frente. Estamos chorando as nossas perdas, mas sem nenhuma certeza que daqui para a frente as coisas tenderão a ser diferentes. O que se avizinha entre janeiro e fevereiro é chuva, que historicamente causa maior transmissão de vírus respiratório", explica.

Na avaliação do médico, há confluência de fatores negativos: sem vacina até fevereiro, pelo menos; chuvas; número de casos que tende a aumentar com as festas de fim de ano. Além disso, a "bagunça na articulação federal traz cenário de preocupação". "Mas temos esperança que não se confirme", afirma.

De acordo com Marcelo Gurgel, epidemiologista, professor e membro do GT de Enfrentamento à Covid-19 da Uece, apesar de ser o 4º em número total de óbitos, quando se considera as mortes por 100 mil habitantes, o Estado vai para a 7ª colocação. "Boa parte das mortes foram concentradas nos primeiros meses. Houve uma desaceleração no número de óbitos muito importante", analisa. 

Ele frisa que o novo aumento de casos e óbitos apresenta letalidade (proporção entre número de mortes por uma doença e o número total de diagnosticados com a patologia) menor, bem como velocidade reduzida em comparação ao crescimento inicial da infecção no Estado. O epidemiologista explica que o número de novos óbitos é menor porque os novos casos são caracterizados por pessoas mais jovens. 

Para o médico, a quantidade de doses da vacina já assegurada para o Ceará — cerca de 3,2 milhões — ainda é insuficiente para a necessidade populacional cearense. "Temos um mês e meio ainda para o início da vacinação, pelo menos. Vai ter a lógica da distribuição e aplicação das duas doses para que a pessoa seja considerada imunizada", afirma. 

"Estamos conseguindo controlar mas nas últimas semanas passamos por sustos. Vamos lutar para que essa vacina esteja entre nós em breve para que a gente consiga vacinar os grupos populacionais mais suscetíveis", acrescenta Érico Arruda.

Na entrevista ao O POVO, Dr. Cabeto, prestou solidariedade aos cearenses atingidos pelas perdas no Estado. "Não são 10 mil. São, no mínimo, 50 mil pessoas afetadas diretamente, sem falar naquelas que adoeceram. Bastava um óbito e já seria, do ponto de vista epidemiológico e do ponto de vista humano, muito grave", afirmou. Além disso, reconheceu o trabalho prestado por todos os funcionários da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

O titular da Sesa destacou que a pandemia deixou claro que o País, como um todo, "não pode mais tolerar essa desigualdade social". Entre as 10.004 vidas ceifadas pela Covid-19 no Ceará, a maioria foi entre pessoas mais pobres. "Isso denota um problema de equidade. Acho que essa é uma grande reflexão", afirmou. Nesse contexto, dr. Cabeto apontou a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) e da qualificação dos profissionais. (Colaborou Gabriela Custódio)

 

 

 
 
 

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