Reportagem

Crianças e adolescentes trans: histórias de famílias como qualquer família

Para celebrar este Dia da Visibilidade Trans, em 29 de janeiro, O POVO conta a história de famílias comuns, felizes e amorosas. E de como são parte do processo de descoberta de crianças e adolescentes trans
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Raul Malu no Carnaval 2020 (Foto: REGISTRO FAMILIAR)
Foto: REGISTRO FAMILIAR Raul Malu no Carnaval 2020

Foi numa manhã de terça-feira que conheci Raul Malu, 6 anos; a mãe, Yandra Lobo; o pai, Ribamar Neto; e o irmão de Raul Malu, Bernardo, de 10 anos; além do xodó da família: o cachorro Pirata. Mal Yandra e Neto abriram o portão, logo me mostraram a biblioteca de livros na sala sobre transgeneridade.

Ao me apresentar a Raul Malu, Yandra descreveu com o fascínio apaixonado típico de mãe: "Raul é muito extrovertido, adora Carnaval, adora piscina, adora brincar de cantar e dançar, criar personagens, desenhar, é muito destemida. Você tem que ver Raul no mar, é um negócio lindo… Como ele brinca com as ondas...". E ele transita entre os gêneros assim mesmo, pode chamar de Raul ou Raul Malu que ela atende dos dois jeitos. Uma vez, em Anna Karenina, Tolstói disse que todas as famílias felizes são iguais. Lembrei dessa passagem.

Yandra conta que desde pequeno Bernardo brincava com brinquedos ditos de meninas e assistia desenhos "femininos", mas isso nunca foi uma questão em relação ao gênero. "Não necessariamente brincar com os brinquedos de menina ou experimentar roupas de menina quer dizer que uma criança é transgênero." Bernardo se identifica com o gênero com o qual nasceu, sempre gostou de brinquedos ditos de "meninas" e em nenhum momento houve uma verbalização da recusa ao gênero.

Quando pequeno, Raul também se interessava por brinquedos e desenhos de meninas, até o momento em que, aos 4 anos, ela verbalizou sua negação ao gênero com que nasceu em tom de interrogação: "Eu posso ser menina?"

Raul Malu adora piscina e o mar
Foto: REGISTRO FAMILIAR
Raul Malu adora piscina e o mar

"Eu posso ser menina?"

"A gente demorou muito e não foi fácil", conta Yandra. "Uma vez o Bernardo falou pro Raul que ele não podia ser menina porque ele tinha um pinto e o Raul chegou pra mim e disse que queria arrancar o pinto e nessa noite eu chorei muito."

A primeira coisa pensada pela família depois dessa situação era que seria preciso comprar outro corpo, um corpo montado e feminino. "Na nossa cabeça, nosso referencial de transgeneridade era a Roberta Close", relembra Neto. "Depois fomos percebendo que existem muitas maneiras de ser trans", explicou.

Fisicamente, Raul é uma menina. Ela se apresenta como uma menina dos pés à cabeça. Responde por ele ou ela, Raul ou Malu ou Raul Malu.

Em determinado momento, ela se aproximou e eu comecei a ganhar a confiança, até que passei de uma estranha ali na casa ao momento que ele enxergou em mim uma cliente em potencial para as pulseiras que ela mesmo faz e vende para os colegas na escola e no bairro.

Raul estuda numa escola que utiliza a pedagogia Waldorf, que fundamenta as práticas educativas que desenvolvem o aluno de forma integral, ou seja, associando habilidades corporais, cognitivas e emocionais. "Como forma de proteger o Raul, conversamos com todas as famílias da escola, uma por uma, e abrimos espaços para perguntarem. Aí conseguimos construir mais um bolha de convivência, além da de casa", contou a mãe.  Isso porque essa conversa também aconteceu com todo mundo da família, inclusive com os pais de Yandra, avós de Raul, que moram na mesma casa e convivem com a neta.

A calçada do mercadinho do seu avô, na Aerolândia, outra bolha de convivência da Raul, teve de ser trazida ao diálogo. As crianças e as famílias iam percebendo a mudança física, nas vestimentas... "Eu chegava pra fulana (mãe de outra criança, amiga de Raul) e dizia 'fulana, tu tá vendo, né? Que o Raul tá gostando de usar saia e vestido e ele chegou pra mim dizendo que é menina e se sente bem assim… pois é, eu sei que pode ser estranho pra você, mas qualquer dúvida estou aqui tá?'" E a partir daí começava um diálogo sobre ser feliz, sobre amorosidade...

"É curioso perceber que quando a gente fala da gente as pessoas começam a falar delas. Tanto nessas conversas informais, quanto nas palestras do Mães Pela Diversidade (ONG formada por mães e pais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) sempre aparece algum sobrinho, algum irmão. Porque, na verdade, esse outro que diverge da norma sexual tá muito mais perto e muito mais pulverizado na sociedade do que a gente imagina. A gente só escolhe não enxergar", compartilha a fotógrafa.

Outra estratégia de proteção para a criança foi o acompanhamento psicológico e psiquiátrico, que começou a ser regular neste ano de 2021.

Raul Malu pinta as unhas da avó materna
Foto: RIBAMAR NETO/YANDRA LOBO/REGISTRO FAMILIAR
Raul Malu pinta as unhas da avó materna

Acompanhamento psicológico

Segundo a doutora em psicologia Marília Barreira, o acompanhamento psicológico é importantíssimo para a família e para a criança trans, para que os pais possam se perceber dentro desse processo, reconhecendo seus limites e possibilidades. No caso da criança trans, é perceber como está se dando esse processo. Marília conta que quanto mais cedo for a um profissional especializado, melhor. "Crianças mais velhas de 8, 9, 10 anos já começam a perceber os efeitos psíquicos do preconceito através do sofrimento'', explica.

Em nenhum momento Yandra quis omitir o nome de Raul e de sua família nesta reportagem. Ela me disse que não queria esconder nem contar a história da sua família a partir da ótica da dor e do sofrimento. "Essa dor e esse sofrimento eu sei que são as sementes da ojeriza que a sociedade sente por pessoas como Raul", desabafa Yandra. "A gente sabe que a maioria das histórias que ouvimos e lemos são histórias de dor e sofrimento, mas nós queremos mostrar que não precisa ser só isso", complementa Neto, pai da criança e também fotógrafo.

"Na escola de natação, Raul e Bernardo iam no mesmo horário, mas divididos em duas turmas (diferentes). O Bernardo falou que o professor disse a ele que nunca tinha visto uma coisa dessas e perguntou pro irmão quem ensinava essas coisas pra ele", relatou Yandra.

As crianças que já conheceram Raul com a aparência feminina chamam de A Raul, mas os amigos que conhecem a mais tempo chamam de O Raul, mas tratam como menina. "Eu percebo que a socialização do Raul com outras crianças acontece de forma muito natural, não é exigida uma explicação sobre sua maneira de ser", diz Yandra.

"Nessa época (da aula de natação) ele ainda não usava maiô, e sim sunga. Só que, por exemplo, quando a professora perguntava: 'Diga um herói e pule na piscina', os colegas falavam Super-Homem, Batman, e quando chegava a vez dele ele gritava Mulher-Maravilha e pulava", conta Neto.

"Com uma criança, as coisas acontecem diferente. Por exemplo, a questão do ele ou ela, tem crianças que conheço que negam completamente. Já querem um nome social e são totalmente meninas pro mundo. Com o Raul ainda vivemos essa fluidez, porque ele é uma criança. Em ambientes que frequentamos com pessoas trans adultas, normalmente ouvimos que, na dúvida, pergunte para a pessoa. Mas, para uma criança não é simples assim. Ela tá em construção sobre o seu ser. Nesse caso, decidimos deixar caminhos abertos. Raul é uma criança transgênero. Por quê? Porque não é cis, não se comporta como o mundo gostaria que performasse o gênero que nasceu", explica a mãe de Raul.

Há pouco mais de um ano, Yandra participa da ONG Mães Pela Diversidade. O MPD foi parte importante no seu fortalecimento, com a criação de uma rede com outras mães que vivem o mesmo processo. "Nossa família é o trunfo que temos, precisamos usar isso e capturar de volta para nós o discurso da família, da construção da família. Hoje em dia a narrativa da família é sobre proteger a criança da ideologia de gênero. Mas tá protegendo quem? Estamos aqui e somos uma família!", desabafa Yandra.

Roberto e a mãe, Izabel
Foto: REGISTRO DE FAMÍLIA
Roberto e a mãe, Izabel

"A vida inteira"

A professora universitária Izabel Mesquita, integrante do Mães pela Diversidade (MPD) desde 2013, é mãe de trigêmeos adolescentes: dois homens cis e um trans. A professora conta que desde criança, Roberto, hoje com 15 anos, não gostava de tiaras e de nada que remetesse ao universo feminino. Aos 9 anos, verbalizou para sua mãe o pedido por aderir ao vestuário masculino. Nessa época, ele estudava em uma escola católica. No início da puberdade, por volta dos 12 anos, decidiu contar à mãe que não queria ser menina. Na ocasião, falou que já queria ter falado há mais tempo para sua mãe. Quando questionado por ela sobre há quanto tempo ele sabia disso, respondeu: "A vida inteira".

Na escola católica, Izabel conta de vários episódios sofridos por Roberto. Mães que chegavam pra ele dizendo que aquilo não era certo. Professores na escola que, mesmo diante do apelo da mãe para o reconhecimento do nome social de seu filho na chamada, insistiam em chamá-lo pelo nome de registro. Diferentemente da família de Raul, a família paterna de Roberto é "tradicional e machista", como pontuou Izabel. O pai de Roberto não sabe da mudança. Ele está em coma há 6 anos. Izabel já havia se divorciado dele antes do infarto que o acometeu. Por outro lado, a família materna de Roberto o aceitou e acolheu. "Se fosse diferente, eu ficaria do lado do meu filho", reforça a mãe.

Dentre as consequências psicológicas enfrentadas por Roberto durante esse processo, o isolamento, a depressão e a ansiedade foram muito presentes durante seu crescimento. Desde os 12 anos, ele faz acompanhamento psicológico de forma particular. Em Fortaleza, existe um ambulatório trans no hospital de saúde mental da Messejana. No entanto, não atende crianças e adolescentes. Esse público depende assim da disponibilidade financeira para iniciar um tratamento de disforia de gênero.

Roberto faz tratamento de hormonização desde os 14 anos. Aos 12, começou a fazer o bloqueio hormonal, acompanhado por um endocrinologista. Pela legislação, Roberto só poderá fazer a cirurgia de retirada dos seios aos 18 anos, o que já está nos planos do garoto. Segundo a psiquiatra Ionésia Amaral, nas pessoas com disforia de gênero, os hormônios podem trazer algum impacto no bem-estar e na satisfação. "Mas, o que posso dizer, escutando e lendo acerca das pessoas que fazem uso, é que é libertador, já que algumas pessoas solucionam essa disforia de gênero adequando o seu corpo", explica.

Izabel é cristã, mas não costuma frequentar igrejas. "Eu vejo, a exemplo de muitas mães do MPD, que o sofrimento é ainda maior quando a gente se insere nesse ambiente. Ninguém é obrigado a aceitar o meu filho, mas eu não quero estar perto de quem não o aceite", concluiu.

As histórias de Yandra e Izabel não se cruzam apenas pelo "desencaixe" de seus filhos às normas de gênero. Izabel também amadrinhou Yandra quando ela entrou na ONG. Para a psicóloga Marília Maia Lincoln Barreira, essa rede de fortalecimento entre mães e famílias que passam por esse processo é fundamental para ajudar a lidar com o tratamento para disforia de gênero.

Izabel relembrou da emoção do encontro de Camocim, no dia 11 de janeiro, em memória de Keron Ravach. Mencionou também o episódio onde as integrantes do MPD foram manifestar na porta da loja de um shopping em Fortaleza, por ter proibido uma menina trans de usar o provador.

"A primeira coisa que a gente pensa não é na militância, mas sim no espaço dos nossos filhos na sociedade. Nesses espaços negados, assumimos o papel de militante. Juntas a gente se sente mais segura e mais forte."

Entender a transgeneridade

A transgeneridade ou disforia de gênero caracteriza-se pela identificação com o gênero oposto. Segundo a psiquiatra Ionésia Amaral, a criança sofre e fala desse sofrimento. "Com uma criança pequena que ainda não consegue interpretar e falar sobre o próprio sofrimento, às vezes se manifesta com uma recusa a ir à escola, a alimentar-se, tristeza. A criança não brinca mais como ela brincava. A literatura mostra que, com três ou quatro anos, a criança já demonstra e expressa o seu gênero de várias formas, no brincar, no vestir, na relação com seus pares, mas somente lá pelos cinco ou seis anos que a compreensão de que o gênero é algo imutável começa a acontecer."

Não existe diagnóstico psiquiátrico sobre transgeneridade. O profissional observa como a criança lida sobre o gênero que está se apresentando para ela e, a partir do diagnóstico da compreensão desse sofrimento, ocorre o acompanhamento que deve ser feito por uma equipe multidisciplinar: pediatra, psiquiatra e psicólogo.

Amaral ressalta ainda a necessidade de a disforia de gênero ser tema amplamente debatido nas escolas e bairros, que são os primeiros ambientes de socialização de uma criança, além da família. "Tratar disforia, pode ser a disforia por estar gordo, alto, baixo, transtorno dismórfico corporal. E por que não tratamos também a disforia de gênero como algo importante e a ser cuidado? Para aquela pessoa ter seu desenvolvimento de forma satisfatória, não para uma cura, mas para uma integração nas suas várias identidades, essa é a ideia e não a ideia de cura."

Segundo a psiquiatra Ionésia Amaral, para trabalhar com as questões do adoecimento psiquiátrico na infância e adolescência é preciso uma perspectiva muito mais ampla, que envolve a saúde mental. Por isso a necessidade da equipe multidisciplinar acompanhando uma criança transgênero. "Esse é o momento de ouvir as famílias e as crianças e como se dá esse desenvolvimento. Na infância, não há nada para ser feito além do tratamento psicológico. Vale ressaltar que psiquiatria não é apenas farmacologia. Fazemos observações, acompanhamentos e intervenções, que podem ser lúdicas, escolares ou psicossociais", acrescenta.

 

Dia da Visibilidade Trans

A data de hoje remete ao dia 29 de janeiro de 2004, quando mulheres transexuais, homens trans e travestis foram a Brasília lançar a campanha "Travesti e Respeito", para promover a cidadania e o respeito entre as pessoas e que mostrasse a relevância de suas ações ao Congresso Nacional. O ato repercutiu tanto que a data é relembrada até hoje como símbolo de luta.

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