Reportagem

A metamorfose do PV, estádio que abraçou a luta pela vida contra a Covid-19

Médico costura memórias de quem frequentava o agora parado equipamento com as de quem, tal qual o estádio, encarou a linha de frente no combate ao coronavírus
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Fortaleza, Ce, BR 09.04.21- Aniversário de Fortaleza - Na foto o médico torcedor do Ceará Thomas Feitosa em visita ao Estádio Presidente Vargas fechado por causa da pandemia do coronavirus  (Foto: Fco Fontenele/O POVO) (Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE Fortaleza, Ce, BR 09.04.21- Aniversário de Fortaleza - Na foto o médico torcedor do Ceará Thomas Feitosa em visita ao Estádio Presidente Vargas fechado por causa da pandemia do coronavirus (Foto: Fco Fontenele/O POVO)

Inaugurado em 1941, o estádio Presidente Vargas se tornou uma representação precisa dos novos tempos de pandemia de Covid-19. Xodó dos torcedores cearenses e vizinho à efervescente Praça da Gentilândia, a arena pródiga em moldar heróis e criar vilões do mundo esportivo, com as arquibancadas tomadas pelo público, seguiu como palco de esperança, alegrias e tristezas. Desta vez, porém, o que estava em jogo eram as vidas. Com vitórias mais comemoradas do que título conquistado no último minuto, mas com perdas irreversíveis e insubstituíveis.

Transformado em hospital da campanha no combate à pandemia, em abril de 2020, o PV teve o mar azul de cadeiras tomado pelo silêncio. O som mais angustiante possível de se ouvir não era mais o grito entalado de um gol que persiste em não sair em um jogo decisivo, mas das apressadas ambulâncias com pacientes. O fluxo intenso e a saudável — hoje saudosa — aglomeração de torcedores no "esquenta" para a partida deu lugar a uma praça quase vazia em razão recomendação de isolamento social e em meio aos decretos de lockdown.

O gramado, onde tantos craques pisaram — inclusive o Rei Pelé, nos anos 1950 e 1970 — e se tornaram ídolos dos clubes, ganhou dezenas de macas, tendas e profissionais de saúde, tão ou mais protagonistas e decisivos na batalhas pela vida quanto os craques da bola em jogo de campeonato. Depois de cinco meses, o hospital de campanha acabou desativado e sem intenção de reabertura, apesar da alta no número de casos e mortes em Fortaleza e da ampliação de leitos exclusivos para Covid-19 em outros pontos.

A união de esporte e medicina não era novidade na vida do médico Thomas Yuri Nobre Mendes Feitosa, 37 anos, torcedor apaixonado do Ceará. Mas a relação foi potencializada quando o Presidente Vargas se tornou o palco principal. Chefe de uma emergência e de uma UTI de Covid, o cirurgião acompanhou com apreensão a transformação momentânea do estádio no qual viveu glórias e decepções nas últimas décadas.

Thomas recorda que a primeira vez em que esteve na praça esportiva da Gentilândia foi no início dos anos 1990, quando um tio o levou para assistir a um empate sem gols entre Ceará e Ferroviário. Por coincidência, o Clássico das Cores foi o último duelo que o médico assistiu no PV, já em 2019, e voltou para casa contente com o triunfo alvinegro por 6 a 2.

"O PV se mistura com minha história de vida, desde criança, depois no ensino médio. Na faculdade, saía das aulas de idiomas, nas Casas de Cultura da UFC, direto para os jogos. Passei quase oito anos sem perder um jogo do Ceará lá", lembra.

A longevidade como torcedor e a paixão fiel pelo Vovô fizeram Thomas Feitosa acompanhar jogos e campanhas marcantes, mas a vida pessoal também se mistura com a história do estádio. O juramento à bandeira nacional foi lá, onde também teve a chance de viver momentos de craques alvinegros em campo e disputar os tradicionais "rachas" comemorativos de final de ano. "Todas as lembranças são fantásticas", emenda.

A dura e triste realidade que assola o Brasil desde março de 2020 rapidamente entrou na rotina profissional do médico e atingiu o Presidente Vargas. Destacado pela Prefeitura de Fortaleza para auxiliar no combate à pandemia, virou foco de um dos maiores choques na transformação da Capital em meio à Covid-19.

"Acostumado a sair da faculdade ou do hospital para assistir aos jogos, nunca pensei que aquele local mágico de entretenimento se tornaria também nosso local de trabalho e de uma forma tão triste e emergencial", lamenta Thomas, à espera de dias melhores e da retomada — ainda sem previsão — da normalidade no PV e na sociedade.

Leia mais nas páginas 13 a 17; Editorial, 22

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