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Reportagem

Partidos criticam desfile militar e apontam tentativa de constranger o Congresso

| Operação Formosa | Evento com blindados gerou manifestações de protestos até mesmo entre aliados do presidente, expondo divisão dentro da base governista
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A análise da PEC do voto impresso na Câmara dos Deputados, na noite de ontem, foi marcada por forte reação de líderes contra iniciativas autoritárias do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), provocando um racha no centrão.

A crise se acirrou depois que um comboio de blindados passou, durante a manhã, pela Praça dos Três Poderes, sob o pretexto de entregar um convite a Bolsonaro para assistir a um treinamento de fuzileiros navais, conhecido como Operação Formosa, na semana que vem.

A atitude foi classificada por políticos como uma afronta de Bolsonaro, justamente no dia da votação da PEC do voto impresso. Antes da proposta ser rejeitada em plenário, vários deputados da esquerda à direita se reuniram e resolveram dar uma resposta "à altura" ao que classificaram como uma tentativa de intimidar o Congresso.

Há mais de um mês, o presidente vinha frequentemente condicionando a realização de eleições em 2022 à aprovação da PEC. Na avaliação de deputados e senadores, a ameaça golpista subiu de tom com o desfile bélico de ontem, embora a Marinha, que promoveu a exibição, tenha afirmado que o evento estava marcado há pelo menos seis meses.

As críticas se avolumaram durante a votação da PEC no plenário da Câmara e até mesmo aliados do governo se dividiram. A reportagem apurou que, nos bastidores, o próprio presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), se mobilizou para garantir o enterro da proposta.

Lira avaliou que era preciso tirar o assunto de cena para votar outras propostas importantes, como a da reforma tributária. Líderes de partidos contaram, sob reserva, que receberam telefonemas do presidente da Câmara pedindo votos contrários das bancadas.

Dirigentes de 11 partidos do centrão ou independentes (PP, PL, PSL, Republicanos, DEM, PSD, Solidariedade, Cidadania, Avante, MDB e PSDB) se manifestaram contra o retorno do voto impresso.

Mais cedo, nove partidos de oposição divulgaram nota de repúdio ao desfile com os blindados militares. Para as legendas, o evento foi "uma clara tentativa de constrangimento ao Congresso Nacional".

"Todo homem público, além de cumprir suas funções constitucionais, deveria ter medo do ridículo, mas Bolsonaro não liga para nenhum desses limites, como fica claro nessa cena patética de hoje (ontem) que mostra apenas uma ameaça de um fraco que sabe que perdeu", disse o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), ao ler um pronunciamento na abertura da reunião da CPI.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), cobrou as Forças Armadas para deixar de lado o que chamou de "loucuras" de Bolsonaro. "É muito importante que os militares tomem consciência do efetivo cumprimento dos seus deveres constitucionais, deixando de lado essas loucuras do presidente da República", disse Renan antes da reunião da CPI.

Até o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), disse concordar com as "preocupações" levantadas por senadores. Um dos articuladores do Planalto no Congresso, ele deixou claro que concorda com as críticas feitas na CPI, mas destacou que não acompanharia o que chamou de "excessos" nos discursos contra o chefe do Planalto, principal alvo da investigação.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como "patética" a realização do desfile de veículos militares blindados nos arredores do Congresso Nacional. Para Lula, não era preciso "inventar um desfile militar" para entregar o convite.

"A cena patética de hoje de receber um convite para um pequeno desfile militar na frente do Palácio. Eu acho que nem Sarney, nem Fernando Henrique Cardoso, nem eu, Dilma, nem Temer, nunca precisamos disso. O cara quer entregar um convite, o cara pega um avião, desce em Brasília, vai no gabinete, entrega o convite e acabou", disse o ex-presidente em entrevista à Rádio ABC de Porto Alegre. (leia mais em EDITORIAL, página 18) (Agência Estado)

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