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Tributo a Agnès daqui e dali Varda
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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz arte e cultura

Tributo a Agnès daqui e dali Varda

| HOMENAGEM | Deixando um legado de inventividade e afeto através das histórias que contou - e dos modos como as contou -, a cineasta belga Agnès Varda faleceu ontem, 29, aos 90 anos
Registro  feito por Frederico Benevides na estadia de Agnès Varda em Fortaleza, em 2009. Na foto, a cineasta na Praia do Titanzinho (Foto: Frederico Benevides / acervo pessoal)
Foto: Frederico Benevides / acervo pessoal Registro feito por Frederico Benevides na estadia de Agnès Varda em Fortaleza, em 2009. Na foto, a cineasta na Praia do Titanzinho

Catadora de histórias, contadora inventiva, cineasta, fotógrafa, artista. Ontem, 29, a belga Agnès Varda saiu de cena aos 90 anos. Há pouco mais de um mês, no Festival de Berlim, lançou o documentário Varda par Agnès e recebeu um prêmio especial pela obra. "A diretora e artista Agnès Varda faleceu em casa esta noite em decorrência de um câncer, cercada por sua família e entes queridos", comunicou a família na manhã de sexta. Com mais de 60 anos de carreira, entre curtas, longas e projetos para a televisão, Varda deixa um legado de humanidade, inventividade e vida.

Tendo começado no contato com as artes pela fotografia, firmou-se como diretora na França com o filme La Pointe-Courte (1955), sua estreia. De lá para cá, foram mais de 50 créditos de direção e prêmios como o Leão de Ouro por Os Renegados (1985), uma Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes de 2015 e um Oscar honorário em 2018. O mais recente lançamento comercial da cineasta, o documentário Visages villages, foi indicado ao prêmio no mesmo ano. Um dos nomes pioneiros da nouvelle vague, movimento francês que marcou mudanças na linguagem e estética cinematográficas, Varda tinha como marcas a abordagem pessoal, sendo constantemente personagem de seus documentários, a curiosidade por histórias humanas e o jogo com a narrativa. Na vida pessoal, foi casada com o cineasta Jacques Demy, falecido em 1990, e deixa dois filhos, a figurinista e produtora Rosalie Varda e o ator Mathieu Demy.

"Varda é, sobretudo, uma realizadora tomada pelas lutas pela liberdade", inicia Beatriz Furtado, professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará. "Viveu as lutas em defesa dos povos - Saudações, Cubanos!; Longe do Vietnã; Black Panthers -, inventou mulheres livres - Cléo de 5 às 7; Les Demoiselles ont eu 25 ans; Mona, de Os Renegados; As Viúvas de Noirmoutier; Respostas de Mulheres: Nosso Corpo, Nosso Sexo; Elsa la Rose -, soube ver as ruas pelos que nela habitam - Daguerreótypes; A Ópera Mouffe -, amou imensamente - Jacquot de Nantes; O Universo de Jacques Demy -, fez da fotografia um ato cinematográfico - Ulisses; Cinévardaphoto -, nunca deixou de se implicar com a cena - sobretudo em Os Catadores e Eu, Ulisses e As Viúvas de Noimoutier. Assim foi também com a sua própria vida, não deixando para que outros o fizessem, realizou As Praias de Agnès, filme que nos trouxe Varda para Fortaleza", recupera Beatriz.

A cineasta esteve na capital cearense em 2009 para lançar o filme a partir de iniciativa conjunta entre a UFC, a Escola de Audiovisual da Vila das Artes e o Laboratório de Estudos e Experimentações em Audiovisual. As experiências e histórias vividas aqui foram registradas e se tornaram um episódio da série documental Agnès de ci de là Varda (ou "Agnès daqui e dali Varda", em português), lançada em 2011. A obra acompanha viagens da diretora, já com mais de 80 anos à época, por diferentes países. O professor e montador Frederico Benevides foi um dos que acompanharam a estadia da diretora por aqui. "Tenho muitas imagens dela. A gente deu uma volta grande na Cidade: Sabiaguaba, a Universidade, Vila das Artes", lista.

Beatriz, que também esteve presente, lembra de outras paragens. "Os gatos do Parque do Cocó, os pescadores do Mucuripe, o almoço no Mercado dos Pinhões, a banhista que amamentava o filho na Praia do Futuro. Varda nos deu de volta um capítulo inteiro sobre esse encontro com Fortaleza", ressalta, citando o episódio da série. "No almoço no Mercado dos Pinhões, ela ficou emocionada e disse que aquele seria um dia que não esqueceria", rememora Fred.

Para o montador, a carreira da cineasta é marcada por "uma aposta na vida, sem concessão, com tudo que ela tem de feliz e triste". "Essa curiosidade, permeabilidade e generosidade dela fazem com que ela reúna elementos diversos (nos filmes) e tudo soe como uma conversa", diz. Outro destaque da carreira de Varda vai para a atuação além do cinema, tendo trabalhado ao longo dos anos em diversas instalações artísticas. Beatriz dividiu com a cineasta uma viagem de trem de Paris à Sète, cidade que foi cenário do filme de estreia de Agnès. "Foi em Sète onde vi a Varda ampliando o cinema numa grande exposição de filmes-instalações. Suas batatas espalhadas (referência recorrente na sua obra), o túmulo de seu gato, as viúvas. Peguei o trem de volta, perdida pelo cinema", revela.

 

Foto do João Gabriel Tréz

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