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Fachadas, do ilustrador Rafael Sica, é lançado pela Lote 42

Explorando formatos e possibilidades narrativas, Rafael Sica e Lote 42 lançam Fachadas, "um livro sobre uma cidade que pode ser qualquer uma"
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Não há quem passe indiferente pelo catálogo da editora paulista Lote 42. Criada com a ideia de estabelecer uma identidade gráfica para seus projetos e de segui-la rigidamente, como costumavam fazer as espanholas Anagrama e Alfaguara, viu mudarem seus planos com o lançamento do segundo título, O Pintinho, de Alexandra Moraes. Com Fachadas, reunião de ilustrações do quadrinista gaúcho Rafael Sica, a monotonia foi outra vez mandada às favas.

[SAIBAMAIS] 

De editora paulista e autor gaúcho, Fachadas teve a capa confeccionada no Paraná e o miolo feito em Minas Gerais, como explica Cecilia Arbolave, uma das responsáveis pela Lote. “Foi uma verdadeira saga, o livro é bem brasileiro”, diz. O esforço valeu a pena. O livro de Sica, com formato de sanfona, oito opções de capa e tamanho de 10x15cm - respeitando a escala original dos desenhos - encanta à primeira vista.


Em vez de falar de número de páginas, vamos falar de comprimento. Fachadas tem quase três metros de ilustrações, casas que mostram pedaços da intimidades de seus ocupantes, fragmentos de histórias que se desenvolvem livres na cabeça dos leitores. Em uma das fachadas, um hipster de calças listradas e camisa negra fuma um cigarro enquanto sua casa pega fogo. Noutra, um velhinho de bengala mostra o dedo do meio diante de uma ruína decadente.


E por falar em ruínas, é do passado que se alimentam as fachadas de Sica. Nada de arranha-céus ou arquitetura high-tech. Em uma sociedade cada vez mais vertical, o ilustrador deu as costas aos apartamentos. “Dentro de uma cidade com prédios e construções tão iguais e tanta gente empilhada, a casa é um personagem. Tem um confronto com essa coisa massiva que é a habitação popular. A fachada é a cara da casa”, explica.


As fachadas de Sica também refletem as heranças históricas de Pelotas, no Rio Grande do Sul, cidade natal do ilustrador. Durante os séculos XVIII e XIX, a região viveu o auge do ciclo do charque, que era exportado para Europa e Estados Unidos e nutria escravos espalhados por todo o território nacional. “Essas casas contam histórias de um período estranho. É uma cidade parada no tempo, mas o que acontece dentro das casas é atual, de hoje”.


Posicionadas lado a lado na grande faixa de papel de quase três metros, as casas parecem integrar uma mesma rua, permitem ao leitor o desenvolvimento de uma narrativa particular, já que não existem palavras e diálogos que a guiem. “O desenho e a linha são uma linguagem. De alguma maneira, eles conversam. Não sou escritor, meu texto está na linguagem visual”, acrescenta Sica, que já havia visitado os contornos da cidade em outros trabalhos, como Ordinário, coletânea de tirinhas publicada em 2011 pela Companhia das Letras.


Mas a atenção do ilustrador vai além da natureza morta de suas representações. Rafael Sica também está interessado em povoar seus espaços, em desvelar a vida na metrópole, a solidão, a indiferença e o medo de seus personagens. “A cidade é uma construção nossa, um desdobramento da gente. Eu trabalho com a pessoa, o ser humano. É um trabalho de observação”.


Sua produção também permite pequenas doses de surrealismo, abrindo-se ao absurdo. Em uma de suas fachadas, um dragão cuspindo fogo cruza a porta do almoxarifado municipal carregando uma valise na mão. Em outra, um boneco abre a porta para assistir à apresentação de um ventríloquo. “É meu jeito de observar a realidade. Cada cena tem vários pontos de vista. É um fantástico indo pro real. E a realidade é muito absurda”.

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