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Blade Runner e a melancolia

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Blade Runner é a história de um caçador em fuga. Uma parábola bíblica sobre criação e morte. E um conto de amor.


Mas é sobretudo um filme sobre a melancolia, sentimento descrito por Jean Starobinski num livro caudaloso no qual, logo no início, passeando pelas definições desse estado, recorre a Homero, que diz do seu herói: vagava só na planície com o “coração devorado de tristeza, evitando os vestígios dos homens”.


É o que faz o detetive Rick Deckard, espécie de exterminador de replicantes: perambula sem rumo numa Los Angeles decadentista onde máquinas e homens se misturam indistintamente. É também a sina de Roy Batty, o androide perfeito em inteligência e força, mas acossado por uma dúvida tipicamente humana: quem o criou? E para quê? Ambos são vítimas do mesmo mal: a finitude. Daí a melancolia. Com o fim tão próximo, o que justifica a vida?


Talvez por isso o longa-metragem de Ridley Scott tenha ido tão mal nas bilheterias quando de sua estreia, em 1982, dividindo público e crítica. Nele não há um herói como os que estavam na moda, empunhando sabres de luz ou desafiando alienígenas, tampouco uma trama de redenção. Bem e mal se imiscuem, ou mesmo inexistem.


Deckard é o exemplo perfeito do habitante da metrópole: um personagem sem esperança, desenraizado, sem ideal, disposto a sobreviver na cidade hiperconectada e densamente povoada. De caçador, porém, logo passa à condição de presa. E aí está também a sua salvação.


É quando a perseguição se converte em parábola: enquanto o policial foi incumbido da tarefa de matar a criatura, o filho artificial precisa encontrar e matar o pai. É uma história de sacrifício e morte com desdobramentos religiosos e filosóficos. Um mito moderno que antecipa discussões sobre engenharia genética e ética científica.


Nem tudo é desesperança. Se o futuro é melancólico, Blade Runner propõe o amor como contraponto. Diante do mesmo triste desfecho para homens e seus simulacros, o amor funciona como antídoto. Mesmo entre arranha-céus banhados pela estridência luminosa das propagandas de marcas famosas, num apocalipse patrocinado, ainda há lugar para a esperança.


E, ao final, se a morte humaniza a máquina, a fuga faz o mesmo pelo homem. O replicante encerra sua vida/ciclo num monólogo de beleza sublime como prova de sua capacidade de sentir, uma potência essencialmente nossa. O caçador, por sua vez, escapa ao destino traçado para o herói. Contra a melancolia do fim — do corpo e da esperança —, o gesto derradeiro é de amor.

 

Henrique Araújo,

jornalista do O POVO


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