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Espetáculo Ausência, apresentado na Bienal de Dança, se inspira em Pina Bausch

Henrique Rochelle comenta espetáculo inspirado pelos princípios e propósitos de Pina Bausch. Ausência foi apresentado durante a Bienal de Dança do Ceará, encerrada ontem
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Espetáculo Ausência foi encenado na Bienal de Dança do Ceará (Foto: Luiz_Alves/ divulgação)
Foto: Luiz_Alves/ divulgação Espetáculo Ausência foi encenado na Bienal de Dança do Ceará

Dez anos depois da morte de Pina Bausch, coreógrafa alemã expoente da dança-teatro, o grego Daphnis Kokkinos veio para Fortaleza para trabalhar com um grupo de bailarinos locais. A residência artística, realizada entre julho e agosto desse ano, resultou em Ausência, espetáculo apresentado na programação da Bienal.

A fila para a apresentação, dobrando a esquina do Cena 15, do Porto Iracema das Artes, mostra o tamanho do público interessado em ver o que um bailarino como Kokkinos, que participou de todas as obras da companhia de Pina, e foi seu assistente nos últimos anos de sua vida, tem a transmitir.

Aqueles que conseguiram entrar tomaram contato com um trabalho realmente consistente com sua proposta.

Estamos em meio a Pina. Não se trata de uma remontagem de seu repertório, mas de algo que segue muito mais os princípios e propósitos que guiaram a coreógrafa em sua carreira.

Suas marcas de reconhecimento estão lá. Ausência carrega o interesse pela vida cotidiana e pelo gesto comum, a evidência dos processos de repetição, alteração e transformação na cena, e o cíclico contínuo. Mesmo os figurinos parecem ter saído diretamente dos acervos de Wuppertal.

O resultado do trabalho de Kokkinos com o elenco é uma grande sequência de cenas curtas, partindo de elementos comuns, quase prosaicos, e que mostram o tipo de trabalho de construção pelo qual Pina ficou conhecida — os questionamentos pessoais como instrumento de indagação e produção de respostas, em forma de movimento, palavra, e cena.

A estratégia é a do melodrama: apoiar nas sensações e no visceral para mostrar aquilo que existe e aquilo que pode ser feito a partir de uma dada questão — e os bailarinos daqui mostram verdadeira disposição e entrega ao processo.

Algumas das cenas carregam todas as marcas, de corpo, de gesto, de cadência associadas à coreógrafa, e nos colocam nesse novo âmbito: o que ainda pode ser feito a partir de seus procedimentos, e como isso pode levar à criação de obras autônomas, mas ainda herdeiras de sua tradição?

A pergunta é muito grande para esse grupo, mas é a mesma que tem sido feita à companhia de Wuppertal nos últimos 10 anos. Como continuar, depois de um marco tão grande? Como se fazer presente, quando aquilo que mais comentamos e mais observamos é a sua falta, a sua ausência?

Henrique Rochelle é Crítico de dança, editor dos sites Da Quarta Parede e Criticatividade

 

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