Videogames são um tipo de entretenimento interativo imediato. Um jogo que demanda tempo para o jogador atingir aquele limiar do "ok, estou me divertindo agora" geralmente não figura entre o hall das experiências preferidas do público gamer. Tom Clancy's Ghost Recon: Breakpoint é o novo episódio em uma das séries mais icônicas de todos os tempos, mas, infelizmente, não é o exemplo mais brilhante do conjunto.
Em um mercado saturado de jogos de tiro, a franquia Ghost Recon se tornou reconhecida ao longo dos anos por se apoiar no realismo e no lado tático do combate militar. Antes restrito a missões lineares e específicas, a série passou a adotar ao longo dos anos um approach de mundo aberto, coroado pelo pacote trazido por Wildlands, título anterior, que trouxe a mecânica para o centro de seu gameplay. Breakpoint segue o mesmo caminho e busca expandir este atributo com mais áreas e diferentes biomas para se explorar. Similar a títulos como The Legend of Zelda: Breath of The Wild, a mecânica da exploração em mundo aberto é expressa com a proposta de dar ao jogador liberdade de opções de abordagem em diversas missões. Entretanto, para manter o nível de interesse e engajamento sempre alto, cabe ao jogo indicar caminhos diferentes ou, ao menos, apresentar obstáculos que forçam o jogador a ser criativo a todo momento. Em Breakpoint, as missões principais, secundárias e até quests opcionais apresentam basicamente a mesmas estruturas e, por isso, tornam a experiência inteira bastante repetitiva.
A narrativa deste novo Ghost Recon precisou ser feita com cuidado, uma vez que o título anterior da franquia recebeu diversas críticas quando lançado por fazer associações entre vilões do game e agentes fictícios do governo da Bolívia. Em Breakpoint, Aurora, uma ilha fictícia serve como palco. Nela, o vilão do game, Cole Walker - interpretado pelo "justiceiro", Jon Bernthal -, busca utilizar a tecnologia desenvolvida na ilha, que é uma espécie de utopia futurista high-tech, para fins nefastos e bélicos. Seu personagem é um dos membros do esquadrão Ghost, convocado para investigar os acontecimentos de Aurora e que se vê em meio a uma luta junto a um grupo de resistência e outros militares (controlados por outros players online), para reconquistar a região. O balanço entre a oferta de uma experiência única para cada jogador online é bem delicado e, por vezes o game acaba frustrando tanto quem prefere jogar sozinho, quanto acompanhado.
Breakpoint abraça com força mecânicas de games de RPG e as transpõem para as armas e equipamentos, ao invés de atributos e habilidades do personagem, como em games do tipo. É por meio da compra ou conquista de novos armamentos, vestimentas e acessórios que você se torna apto a enfrentar os inimigos mais fortes do jogo. Entretanto, felizmente, há merecido valor ao tiro na cabeça, que se mostra eficaz, mesmo contra inimigos bem acima do nível de equipamento atual do seu personagem. Como todo game da franquia, neste o manejo das armas está muito bom, mas qualquer um dos vários tipos de veículos disponíveis controla do mesmo jeito: muito mal. Assim como em Ghost Recon: Wildlands há drones que são muito divertidos de operar, mas terríveis de se combater, especialmente próximo ao final do jogo.
Visualmente, o novo game de tiro da Ubisoft é um verdadeiro mix de pontos positivos e negativos. Efeitos de iluminação, tanto de noite quanto de dia, bem como a chuva, são retratados com muita qualidade no mundo 3D do game. Entretanto, os modelos de praticamente todos os personagens, com a exceção daquele que o jogador controla, são bem aquém do que se espera de um jogo do nível de Breakpoint em 2019. Bugs e erros visuais são comuns em títulos de mundo aberto, mas aqui sua frequência é alta e, por vezes, chegam a atrapalhar o andamento de missões por impossibilitar a visibilidade adequada em algumas áreas.
Ao tentar misturar um game de narrativa single player com um mundo online repleto de jogadores em uma mesma ilha cheia de inimigos, Ghost Recon: Breakpoint acabou errando o alvo em ambos objetivos, resultando em um ponto negativo em uma das séries de tiro mais respeitadas dos videogames.
Davi Rocha é integrante do canal de Youtube Bacontástico, parceiro do O POVO
Onde jogar
Ghost Recon: Breakpoint está disponível para PlayStation 4, Xbox One, PC (Windows Store) e futuramente para o Google Stadia