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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz cinema&série

For Rainbow se manteve forte e afiado no discurso de resistência

Documentário
Foto: divulgação Documentário "Que os olhos ruins não te enxerguem", de Roberto Maty e Thabata Vecchio

Unir cinema e diversidade em 2019 é, sob determinado ponto de vista, uma tarefa ingrata. Não que falar de temas como gênero, feminismo, misoginia, racismo, LGBTfobia ou transexualidade tenha sido fácil nos 12 anos anteriores para a equipe que realiza o For Rainbow. No entanto, a 13ª edição do Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero, que aconteceu entre os dias 8 e 14 deste mês, se deu em contexto ainda mais difícil, sendo o primeiro realizado sob o novo governo federal, cuja atuação vem sendo marcada por ataques e críticas às pautas da diversidade e também da cultura. Ter acompanhado o evento de perto enquanto membro do júri da crítica desta edição me mostrou que, apesar das dificuldades financeiras, patrocínios quase nulos e discursos virulentos contra as principais temáticas do evento, o festival não se curvou e manteve programação diversa, extensa e plural.

Para suprir as demandas financeiras dessa edição, o evento abriu financiamento coletivo online cuja arrecadação voltou-se para as programações paralelas à de audiovisual. Nos discursos das apresentadoras e apresentadores no começo de cada noite, o patrocínio da Cagece, única empresa que apoiou essa edição, foi festejado e ressaltado. Assim como, vale ressaltar também, as parcerias com Secretaria da Cultura do Estado, Instituto Dragão do Mar, galeria Sem Título Arte, empresa Verve Comunicação, além das marcas Vaac, Thawa, Brechá - isso sem citar nominalmente todas as pessoas que realizaram o festival, mas valendo destacar Verônica Guedes, criadora e diretora executiva do evento, e Labelle Rainbow, organizadora e coordenadora.

Além do cinema, o For Rainbow teve shows musicais, teatro, performances, feira, exposição, oficinas e workshops, lançamentos literários e o Encontro Estadual de Cultura LGBTQ . Em entrevista ao Vida&Arte antes do início do evento, em matéria da repórter Teresa Monteiro, Verônica Guedes deu o recado: "Cada vez mais o festival tem sido de militância. Mas nós não tiramos nenhum dia da programação, como outros festivais estão fazendo. Pelo contrário, o que fizemos foi ampliar e isso foi uma ousadia necessária para a luta que nós estamos travando nesse momento, contra o obscurantismo nesse atual governo".

A ousadia e a força pela continuidade se deram também nas exibições audiovisuais paralelas à competitiva, com mostras como Jurema, voltada para filmes de cineastas indígenas, e Censura Nunca Mais, que reuniu obras censuradas e excluídas de outros eventos e exibições públicas no último ano. Tiveram lugar ainda as mostras Programa Feminino Plural, Cinemul, Lilás e Lugar de Mulher é no Cinema - todas trazendo em si um espírito de resistência talvez até mais combativo e frontal do que o presente nos curtas e longas da mostra competitiva.

Enquanto membro do júri da crítica desta edição - a partir de parceria do For Rainbow com a Associação Cearense de Críticos de Cinema e formado ainda pelos colegas Camila Vieira e Daniel Herculano -, me debrucei mais profundamente nas produções nacionais, já que os prêmios concedidos por nós seriam os de melhor longa e melhor curta brasileiros. Os filmes vitoriosos foram o documentário paulista Que os olhos ruins não te enxerguem, de Robert Maty e Thabata Vecchio (codireção), e a ficção também paulista A felicidade delas, de Carol Rodrigues. As obras foram escolhidas entre três longas e 18 curtas da competitiva. Ligadas entre si por alguns temas e até passagens comuns, os dois premiados trazem noções assertivas de celebração das vidas LGBTQ e tudo que elas trazem consigo - pluralidade, liberdade, desejo, expressão, arte, força, graça. A dupla de produções não foge de abordagens mais duras ou secas, voltadas a questões de LGBTfobia, racismo e classicismo, vale ressaltar. O movimento afirmativo das vidas que norteiam as obras, porém, mostra-se tão político quanto se elas focassem somente nas problemáticas.

Também podem ser destacados aqueles filmes que dividem histórias de vidas inspiradoras e merecedoras de serem redescobertas, como o longa paraibano Madame Camille Cabral, de André Costa Pinto e Nathan Cirino, que ganhou o Prêmio João Nery (para obras que foquem na militância de figuras LGBTQ e o impacto desta na vida das pessoas) contando a história da nordestina que foi a primeira vereadora transexual eleita em Paris; e os curtas Deusa Olímpica, de Emília Schramm, Jéssica Barbosa, Pedro Luís Viana e Rafael Brasileiro, que resgata a trajetória da pintora Márcia Maia Mendonça; e Megg - A margem que migra para o centro, de Larissa Nepomuceno e Eduardo Sanches, sobre a primeira travesti negra doutora no País. Há, ainda, obras cujas abordagens formal e narrativa apresentam-se fortes e envolventes, como no caso do curta paulista Negrum3, de Diego Paulino, que aposta no afrofuturismo para mostrar possibilidades outras de presente e futuro; o curta cearense O bando sagrado, de Breno Baptista, que se estrutura enquanto um longo áudio confessional de WhatsApp e aproxima sexualidade, melancolia e pornografia; e o curta mineiro Peixe, de Yasmin Guimarães, que acompanha recortes da vida de uma jovem lésbica.

 

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