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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

cinemaeseries • Opinião

Política e presença feminina marcam 52º Festival de Brasília

Marcado por clima político intenso e acirrado dentro e fora das telas, 52º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro destaca mulheres do audiovisual e resistência da cultura Por

A abertura do 52º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, no dia 22 de novembro, ficou marcada pela perturbante censura de um discurso contrário aos cortes promovidos pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. Um ator começou a ler uma carta de críticas e, no meio da fala, foi inicialmente ameaçado pela presença de um segurança e, depois, teve o som do microfone cortado. A partir daquele momento, a tentativa de um calar fez com que outras vozes não se guardassem ao longo do evento, tônica que norteou a edição do célebre e consagrado Festival de Brasília - o primeiro sob os governos de Bolsonaro e Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal. No encerramento, que ocorreu no último sábado, 30, as vitórias de várias mulheres e de filmes dirigidos e escritos por mulheres, assim como as manifestações e discursos veementes proferidos por elas, foram respostas precisas a favor da liberdade.

A partir da censura inicial, os pronunciamentos passaram a ser mais e mais fortes, enquanto as sessões ficavam cada vez mais acirradas. Outro ponto de alta tensão durante o evento se deu na quinta, 28, dia em que foi apresentado o documentário O Tempo que Resta, de Thaís Borges, sobre as vidas, afetos e lutas de Maria Ivete Bastos e Osvalinda Marcelino Pereira, duas ativistas paraenses que são juradas de morte pelo trabalho que realizam na Amazônia. Com a presença e discursos das protagonistas do filme, a apresentação da sessão foi catártica. No final das falas, quando a diretora retomou a palavra, um homem - depois identificado como membro da organização do festival - gritou agressivamente pelo fim do discurso, em mais uma tentativa de silenciamento. Ao ser repreendido por diretoras presentes na plateia, respondeu com xingamentos.

Os dois casos foram frontalmente abordados na cerimônia de encerramento. Antes mesmo da abertura das portas do Cine Brasília, que recebia as sessões, um grupo de mulheres se manifestou no saguão gritando palavras de ordem contra o machismo. Já na cerimônia, o primeiro prêmio recebido por uma mulher - melhor trilha sonora de curta para o filme Alfazema, de Sabrina Fidalgo - abriu espaço para a leitura coletiva de uma "carta-manifesta" escrita por mulheres que participaram do evento em diversas posições. "A curadoria de um festival deve pensar a multiplicidade de gênero, raça, sexualidade e territorialidade. Não deve validar discursos feminicidas, racistas, LGBTIfóbicos e gordofóbicos. A comissão organizadora de um festival não deve assediar, interromper, silenciar ou censurar trabalhadores e trabalhadores do audiovisual ou qualquer mulher em qualquer situação", defenderam, entre outros pontos.

A premiação em si também foi um importante contraponto às tentativas de cerceamento. Tanto entre os curtas quanto entre os longas, os prêmios de melhor filme do júri oficial, do júri popular, do júri da crítica, e de melhor direção e roteiro foram recebidos por mulheres: Carne, de Camila Kater (melhor roteiro, melhor curta pelo júri popular e júri da crítica); O tempo que resta, de Thaís Borges (melhor roteiro, melhor longa pelo júri popular e júri da crítica); Alfazema, de Sabrina Fidalgo (melhor direção de curta); Rã, de Júlia Zakia e Ana Flavia Cavalcanti (melhor curta); e A febre, de Maya Da-Rin (melhor filme e melhor direção). Em cada discurso, o recado da carta-manifesta era reiterado: "nada será feito sobre nós sem nós".

O jornalista viajou a convite do evento

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Ceará em Brasília

Nesta edição do Festival de Brasília, três filmes cearenses foram exibidos. O documentário Soldados da Borracha, de Wolney Oliveira, foi apresentado na mostra não-competitiva Território Brasil; já o curta Marco, de Sara Benvenuto, disputou o troféu Candango na mostra competitiva; finalmente, o projeto Pajeú, de Pedro Diógenes, venceu um prêmio na mostra Futuro Brasil, dedicada a obras em processo.

A vitória de Pajeú foi no Prêmio Prime Box Brazil, concedido pelo canal fechado, que ajudará na finalização e ainda garante a exibição da obra na TV. "(O prêmio) vai ajudar a fazer as etapas ainda não concluídas, de mixagem de som e edição de cor, por exemplo. A exibição na TV é uma coisa importantíssima, atinge muita gente", considera o cineasta. Marco, apesar de ter saído sem prêmios, foi elogiado e se juntou aos discursos potentes da edição. "Marco representa não só meu cinema e uma narrativa, mas um grupo de vidas - em especial vidas femininas - envolvidas e envoltas em criar narrativas em um país cheio de força e resistência audiovisuais como essa", ressaltou Sara na apresentação do filme.

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