João Gabriel Tréz
clique para exibir bio do colunista

João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

cinema&série
NOTÍCIA

Filme "Cabeça de Nêgo" aborda o lugar da utopia em tempos de distopia

Cabeça de Nêgo, de Déo Cardoso, acompanha movimento de ocupação escolar. Longa disputa Troféu Barroco no evento mineiro
Saulo Chuvisco (Lucas Limeira) protagoniza o longa cearense Cabeça de Nêgo
Saulo Chuvisco (Lucas Limeira) protagoniza o longa cearense Cabeça de Nêgo

Pensar o lugar dos desejos moventes em meio a um contexto de dureza. Foi a partir dessa provocação que o cineasta Déo Cardoso apostou em contar, no filme Cabeça de Nêgo, uma história que desse conta desta reflexão específica e de outras que passam por poder, política, repressão e coletividade. Longa de estreia do diretor, a obra participa da seção competitiva Aurora na 23ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que começa na próxima sexta, 24.

Protagonizado pelo ator Lucas Limeira, o filme narra o percurso de luta de um jovem estudante da rede pública, Saulo Chuvisco, que se inspira pelas ideias do grupo militante norte-americano Panteras Negras para concretizar mudanças em seu colégio. "A ideia veio no sentido de contar a história de um coletivo de alunos que sonham, que ainda tem viva uma utopia. Uma vez, passei perto de uma escola no meu bairro, Jardim América, e tava rolando pedrada do muro para fora e, de fora, tinha um monte de aluno jogando pedra pra dentro. Encontrei com um colega meu que estudava lá, 16 anos, que disse que expulsaram um colega que não tinha culpa, eles se revoltaram e 'agora é pau'. Qualquer faísca naquele momento, em qualquer colégio, viraria um movimento. Aí pensei que precisava contar essa história de um ponto de vista nordestino, do Ceará. Me ocorreu de pensar onde estavam as utopias dos anos 1960, 1970, num mundo tão distópico. Será que existe ainda alguma bolha de utopia coletiva ou tudo se foi?", reflete Déo Cardoso.

Três versões de roteiro depois, o projeto foi submetido ao Edital Longa BO Afirmativo 2016, da Secretaria do Audiovisual, voltado para cineastas negros e negras - "e o filme foi contemplado dessa forma, via edital público, o primeiro e último" do tipo para longas, ressalta Déo. Junto de Lucas - ator com experiências anteriores em teatro - como protagonista, o elenco conta com intérpretes do Estado de diferentes gerações, como Nicoly Mota (uma das protagonistas da série Lana & Carol, exibida na TV O POVO), Carri Costa, Jennifer Joingley, Jeff Pereira e Marta Aurélia. Além do elenco cearense, há ainda a presença da carioca Jéssica Ellen (atualmente no ar na novela Amor de Mãe) e o baiano Val Perré.

"O elenco abraçou, entendeu a importância do filme para o contexto. Eu fiz com muito sangue nos olhos, tava com muita raiva do que acontecia no País, então a escrita foi visceral", afirma Déo. O roteiro aponta para ligações possíveis entre a trama do filme e o projeto de "Escola Sem Partido", mas ele foi finalizado antes do assunto entrar na pauta nacional. "O espírito do que rola dentro do filme se relaciona, está muito claro o embrião desse pensamento fascista que está rolando em termos de educação e de País", relaciona o cineasta.

Entre a busca pela utopia e a dureza da realidade, Cabeça de Nêgo chama ao questionamento. "O Saulo está muito fascinado com o que anda lendo. Aquilo é utopia pura, existe uma possibilidade, um sonho. E se a vida pudesse ser melhor coletivamente? Queria dialogar sobre essa utopia, onde ela está colocada no contexto de hoje. A vontade é de sacudir, chacoalhar quem tá assistindo. É a pergunta que eu faço: a gente vai ficar vendo isso calado ou vai pra rua mostrar para as autoridades que a gente quer outra vida?", instiga.

A estreia em Tiradentes, festival marcadamente político, foi uma surpresa para Déo. "Em 2018, eu tive o prazer de conhecer a Lívia de Paiva. Ela e a Elena Meireles (realizadoras do longa Tremor Iê, que participou do evento mineiro em 2019) falaram muito da mostra para mim. Tiradentes sempre foi um sonho e agora, na humilde, nêgo vai lá. Eu achava que o filme não tinha o perfil, mandei porque sempre foi um sonho e deu certo. Tiradentes é esse pontapé inicial e espero que o filme, a partir de lá, decole, reverbere, cause debate, discussões. Ele existe para isso", finaliza.

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais