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Filmes exibidos em Tiradentes mostram formas de acessar a memória

Sertânia e Um dia com Jerusa, exibidos na noite de domingo, 26, evocam relações com noções de tempo e registro
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Lea Garcia dá vida a Jersusa (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Lea Garcia dá vida a Jersusa

Tão diferentes quanto poderiam ser, Sertânia e Um dia com Jerusa, longas exibidos na terceira noite da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, se aproximam de maneira bem-vinda ao pensarem, ambos, as possibilidades de produzir em imagem noções escapáveis como a memória e o tempo.

Produção cearense assinada pelo diretor baiano Geraldo Sarno, Sertânia segue o protagonista Antão na iminência da morte, entrando em processo de delírio e fluxo de memórias e consciência. O campo subjetivo do personagem, interpretado por Vertim Moura, encontra vazão na própria obra, marcada por estrutura e forma, elas mesmas, também delirantes. O preto e branco estourado e as cenas envoltas em fumaça ajudam a aumentar a atmosfera de desordem e impossibilidade de tornar cartesiano.

Já Um dia com Jerusa, longa de estreia da diretora Viviane Ferreira, estabelece-se a partir de um encontro de gerações, marcado por embates e consonâncias próprias da relação entre Silvia (Débora Marçal) e Jerusa (Léa Garcia). A primeira é uma jovem que sonha em ser professora de história e dedica-se a concursos públicos. Para se bancar, trabalha com pesquisas de satisfação de sabão em pó em São Paulo. Numa dessas visitas, vai à casa de Jerusa, que está preparando as comemorações com a família do próprio aniversário de 77 anos. Do encontro, desdobram-se compartilhamentos generosos da ancestralidade, memória e criação. Em ritmo próprio, o longa pensa em forma e conteúdo os modos e visões do tempo.

Um desenrolado numa época marcada da história do País, no sertão, e outro contemporâneo e paulista, os filmes se aproximam ainda pela presença de elementos que refletem o registro. Sertânia assume-se enquanto ficção em momentos marcantes, que causam ruptura e consequente alargamento da noção do próprio cinema. Em meio a uma memória delirante do protagonista, o plano abre-se e revela a equipe de filmagem ao redor. Numa cena de ação, um cangaceiro "erra" o tiro e é pedido que ele volte a arma para um ponto específico da câmera, quebrando a narrativa pontualmente. Olhares diretos para a câmera - e para o próprio espectador, por consequência - também surgem.

Já em Um dia com Jerusa, a narrativa abre-se de outras formas, dentro da realidade que constrói, mas marcadamente ligada a processos e coletividades do seu próprio fazer. No universo do filme, porém, constitui-se algumas das mais bonitas imagens, não dele em si, mas dos filmes de Tiradentes até agora: Jerusa - ou seja, Léa Garcia - segurando uma câmera. A personagem traz em si histórias de sua avó, escravizada, e da mãe relacionadas à fotografia. Em paralelo ao próprio modo de fazer do filme - com uma equipe composta em mais de 90% de mulheres negras, da direção de fotografia à produção -, a imagem ficcional ressoa, circula e simboliza muito.

A memória lembrada ou registrada surge como central nas duas obras. Cada uma à sua maneira, decerto, mas se relacionando em níveis potentes propostos pela curadoria do evento. Seja no delírio, na oralidade, na câmera ficcional ou na ruptura da ficção pela câmera, Sertânia e Um dia com Jerusa põem o tempo em foco, um tempo não-linear, circular, imaginado, pessoal e também coletivo.

O repórter viajou a convite do evento

 

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