Vida & Arte

A arte que reflete experiências e combate preconceitos

A partir do Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, celebrado neste domingo, 17, Vida&Arte discute experiências artísticas e pessoais com artistas cearenses
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Apresentado por Henrique Gonzaga e Kelly Enne Saldanha, o programa "Siará Quilombo" desta segunda-feira, 6, terá participação da multiartista cearense Mumu (Foto: Lui Fontenele / divulgação)
Foto: Lui Fontenele / divulgação Apresentado por Henrique Gonzaga e Kelly Enne Saldanha, o programa "Siará Quilombo" desta segunda-feira, 6, terá participação da multiartista cearense Mumu

Amanhã, completam-se 30 anos desde que a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar a homossexualidade uma doença. Foi por esse marco que o dia 17 de maio acabou escolhido, em 2004, para marcar a celebração do combate à LGBTfobia. Nas três décadas desde a retirada, muito mudou - tanto em termos de conquistas quanto, também, de novas demandas, perspectivas e questões. A partir da data oficial, o Vida&Arte abre espaço para ouvir vozes dissidentes de gênero e sexualidade que trazem na arte e nas vivências reflexões, aprendizados e avisos para entender e complexificar o necessário combate às violências de gênero e sexualidade.

Autora de canções como Estado Crítico ("É na letra que eu te digo/ Destilo o meu lado ofídico") e Favela Gay ("As bixa do gueto é poder e beleza/ Sobreviverei, pode ter certeza"), a rapper Má Dame resume: "Agrego o que vivo ao que produzo, o rap é isso. Não vou inventar algo que não vivo só pra fechar uma rima. Mas também não vou me higienizar".

O posicionamento ecoa na trajetória da cantora e compositora Luiza Nobel. "Meu processo artístico caminhou muito com a minha identidade. Tem muito sobre a vivência da sexualidade da mulher negra, sobre a qual sempre se via ou a narrativa da objetificação, ou a da negação em um corpo de uma mulher que é gorda e negra. A sociedade esquece que ela tem afetos, sexualidade. Quando escrevo e falo do amor, do afeto para outra mulher, a narrativa se dá de uma maneira muito importante e especial, muitas vezes não tão óbvia, mas está ali", aponta.

A intersecção de raça e gênero também encontra lugar na obra da multiartista Mumu, seja na música, no teatro, na performance ou na palhaçaria. "Todas as coisas que proponho na arte automaticamente arrebatam meu íntimo, seja no gênero ou na raça. Crio minhas letras a partir do que vejo, ouço e sinto nos trajetos externos e internos de episódios da minha vida", explica ela, que lançou no começo de abril o EP Mergulho (disponível no Bandcamp). "Escrevo e canto sobre minha vida (principalmente) e as de muitas outras", abarca.

Foi também por um processo íntimo que o ator João Fontenele criou o projeto Maria João, uma vídeo-performance musical. "Surgiu do meu desejo, como artista gay, de usar o meu corpo e a minha voz para enfrentar a ignorância e o machismo que tanto me silenciaram, que tanto ditaram minha maneira de estar no mundo", divide. A partir da obra, inclusive, ele teve a primeira conversa com os pais sobre a própria sexualidade. "Desde então, um diálogo respeitoso vem se estabelecendo em minha família".

Em Favela Gay, Má Dame avisa: "Respeito na cena pra mim é o que basta". Ela sabe, porém, da dificuldade de encontrar espaço para além da norma. "A questão do espaço é bem relativa no hip hop para artistas pertencentes ao movimento LGBTQIA e mulheres, ou, para sermos mais amplos, para algo que fuja da heterocisnormatividade", afirma. Apesar dos desafios, ela percebe mudanças no cenário. "Acredito no respeito através da compreensão de nossas vivências. Tenho acreditado nisso e me apegado de forma que utilizo o hip hop não só como ferramenta de denúncia, mas também de agregação. Me permite um espaço pra diálogo dentro desse meio que conscientiza e informa. Falo da massa que consome a cultura verdadeiramente e que também produz", aponta a rapper.

A conquista de espaços pela arte, ressaltam, é necessária. "(A resposta ao vídeo Maria João) foi como um abraço coletivo, onde pude ouvir histórias semelhantes às minhas e contribuir, de alguma forma, com algumas pessoas que antes não eram ouvidas", afirma João. Mumu destaca a trajetória no grupo Terra Prometida, que une performance, música e experiências religiosas e foi, recentemente, escolhido para compor o Salão de Abril. "Participar de um grupo 100% trans e levar a palavra que foi negada a nós por muito tempo é divino. A Terra Prometida não só promete, como cumpre uma dívida social e histórica de afeto que a sociedade tem com pessoas trans", aponta a artista.

Cada passo à frente dado nesse contexto artístico é positivo e abre, também, possibilidades em outros campos. "As decisões políticas e o modo como a gente encara o mundo são constantes e inerentes a todas as pessoas. O que é decidido politicamente também paira sobre mim, esse corpo LGBT, e tenho minhas questões a trazer para a sociedade", lembra Luiza. A mensagem da arte reverbera. "Em meio às tantas possibilidades da performance Maria João, é pertinente a mensagem para a reparação e reestruturação do comportamento das instituições Igreja, família e escola", defende João.

"O mais complicado na vida de uma pessoa LGBTQIA , principalmente para as que não performam o gênero esperado, é o trabalho. É muito importante, porque traz possibilidade de dignidade. Quando a gente pensa em sociedade e políticas públicas, a gente tem que ter o acesso dessas pessoas ao trabalho e ao respeito dentro dele", defende Luiza Nobel. "É necessário que as vidas comecem a realmente importar, todas elas", arremata Mumu.

 

Redes sociais

João Fontenele

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Assista Maria João: bit.ly/MariaJoão

Luiza Nobel

Siga: @luizanobel

Ouça: www.youtube.com/luizanobel

Má Dame

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Ouça: bit.ly/PlaylistMáDame

Mumu

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Ouça Mergulho: bit.ly/MergulhoMumu

Do íntimo ao geral: artistas falam de costurar vivências práticas e poéticas

A vida e a arte são ligadas, é fato. Uma inspira a outra, outro fato. João Fontenele, Luiza Nobel, Má Dame e Mumu, artistas cearenses, falam sobre as relações artísticas e íntimas em suas trajetórias.

João Fontenele, ator

"Maria João surge do desejo de gerar discussões e reflexões sobre a responsabilidade afetiva por parte dos familiares de homossexuais, bissexuais e transexuais. Sobre o papel da religião na diversidade social. Sobre o retrocesso nas falas de alguns líderes políticos, diminuindo nossas lutas. Enfatizar também o desejo de resistir às atitudes opressoras e se expressar em busca de respeito. Vem do meu desejo, como artista gay, de usar o meu corpo e a minha voz para enfrentar a ignorância e o machismo que tanta me silenciaram, que tanto ditaram minha maneira de estar no mundo. Vem do desejo de unir forças com os que se rebelam, como eu, buscando reconhecimento e querendo espalhar amor. Sou artista e estudante de psicologia, que são duas áreas sensíveis às expressões humanas. Na psicologia estudamos que a religião é distorcida durante muito tempo por uma parcela significativa da sociedade, e as consequências dessa distorção têm causado muito sofrimento. A família e a escola são outras duas camadas delicadas, responsáveis pelo nosso desenvolvimento e, por isso, precisam ouvir nossas necessidades para exercerem os papéis que lhes dizem respeito: acolhimento e educação. Creio que em meio a tantas possibilidades da performance Maria João, é pertinente a mensagem para a reparação e reestruturação do comportamento das instituições igreja, família e escola".

Luiza Nobel, cantora e compositora

"Pra mim, meu processo artístico caminhou muito com a minha identidade. Quando resolvi montar um show que falava sobre negritude, enaltecia pessoas negras como intérpretes, compositores, artistas, foi porque, pessoalmente, estava num processo de encontrar a mim e à minha identidade enquanto mulher negra. Foi como quando comecei a cantar, olho pra trás e enxergo que era uma busca de uma voz, de um lugar dentro da sociedade, de criar adjetivos que fossem bons pra minha narrativa enquanto indivíduo, juntamente com meu caminho dentro das artes. Sempre caminhou muito próximo. Canto músicas que componho e até as que escolhi cantar me atravessam muito. Não acredito que o processo de composição seja uma autobiografia, não é sobre isso, mas sobre em algum momento a sua identidade estar ali. Meu trabalho tem muito sobre a vivência da sexualidade da mulher negra, sobre a qual se via a narrativa da objetificação ou da negação em um corpo de uma mulher que é gorda e negra. A sociedade esquece que ela tem afetos, sexualidade. Quando escrevo e falo do amor, do afeto para outra mulher, a narrativa se dá de uma maneira muito importante e especial, muitas vezes não tão óbvia, mas está ali".

Má Dame, rapper

"A questão do espaço é bem relativa no hip hop para artistas pertencentes ao movimento LGBTQIA+ e mulheres, ou, para sermos mais amplos, para algo que fuja da heterocisnormatividade. É uma cultura quase que toda protagonizada por homens. É nítido que de tempos pra cá isso venha mudando, mas falar de respeito e espaço é perceber as oportunidades e visibilidades que chegam até nós, e de que forma. Sempre tento refletir sobre até onde é meu espaço, até onde me cabe e de que forma ocupar. Faço isso como exercício de saber me impor enquanto um corpo não aceito e que também protagoniza essa cena. Tenho total confiança de que minha vivência é válida a um movimento de favela que sempre serviu como ferramenta de denúncia pra nós. O respeito ao nosso discurso muitas das vezes vem maquiado de algum outro interesse por trás ou um total desinteresse, uma indiferença. A garantia, pra mim, se dá pela resistência do que produzimos. É sobre não parar por essas, não deixar que isso desestimule nosso corre porque é pra isso que serve todo esse embarreiramento".

Mumu, multiartista 

"Todas as coisas que proponho na arte automaticamente arrebatam meu íntimo, seja no gênero ou na raça. Na música: as letras como contos da periferia, transições e histórias de amor; na palhaçaria: as alfinetadas no modo padrão da sociedade hétero, branca e cisgênera; no teatro: as intervenções corporais de esgotamento físico e mental; e nas artes visuais: trago a humanização de tudo que sou, trazendo em imagens minhas vivências afetivas. Existir enquanto pessoa trans já me põe em um lugar de ter que me afirmar a cada dia, me afirmar enquanto artista já diz muito antes de qualquer coisa escrita, cantada ou atuada. Crio minhas letras a partir do que vejo, ouço e sinto nos trajetos externos e internos de episódios da minha vida. A cobrança, o afeto e a saudade são alguns dos sentimentos mais pontuais para a escrita das minhas músicas. "Você me fez crer que estava tudo certo", quando canto esse trecho na música Bombardeio penso nas falsas promessas que sempre escutei sobre uma confiança no meu trabalho. “Grito silenciado por quem fala e não quer me ouvir", nesse outro trecho da mesma canção cobro a minha própria voz, calada muitas vezes por pessoas que acham que entendem a fundo a minha arte, mas não ligam pra minha vida. Escrevo e canto sobre minha vida (principalmente) e de muitas outras, e ainda é sobre me permitir sair e explorar também temas diversos que me afetam não sempre capturados por uma lógica de gênero ou raça, como o amor, a saudade e o romance".

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