Cacá Diegues é de uma geração de bravos que, em meio a todas as contradições do seu tempo, tem sonhado com um Brasil no feitio de uma nação mais justa. Ao lado de Nelson Pereira, Luiz Carlos Barreto, Zelito Viana, Walter Lima Jr., Glauber Rocha, Leon Hirszman, Joaquim Pedro (e tantos outros), participou de um dos movimentos mais intensos e brilhantes da cultura brasileira: o Cinema Novo, que compôs a imagem do Brasil como uma emergência no mundo. Cineasta de intercâmbio e projeção internacional, ajudou a alargar as fronteiras do nosso cinema e, de modo apaixonado, colocou-se sempre em defesa desse cinema, nos momentos mais difíceis da nossa história. Uma posição que nunca largou, até os dias de hoje, quando denuncia os desmandos do atual desgoverno.
Cacá estreou com um curta-metragem em 1959. Era um tempo em que o Brasil acreditava no Brasil, Brasília era inaugurada, a Bossa Nova surgia como uma novidade no mundo, o Cinema Novo se preparava para conquistar o seu espaço nacional e internacional. O teatro, a dança, a literatura, as artes plásticas, as ciências e as universidades, tudo desabrochava em imensa criatividade e otimismo. O Brasil acreditava ter um grande destino, por conter uma ebulição fabulosa de culturas e povos. Era como se o mundo aqui tivesse marcado encontro para formar a “geleia geral” transbarroca e transmoderna, que geraria uma civilização nova e universal. Foi um momento bonito e inspirado. O golpe de 1964 veio para acabar com tais sonhos e mostrar que o Brasil não podia deixar de ser o que sempre fora: uma colônia (de Portugal, da Inglaterra, dos EUA).
Pessoalmente, eu tenho por Cacá Diegues um carinho todo especial, pelos filmes que nos deu, por sua generosidade como homem e artista que sabe valorizar o fazer de outros e por tudo o que ele representa para a minha geração. Cacá nos mostrou um Brasil profundo, múltiplo, contraditório, em constante movimento e tensão, com herança de crueldades refletida na sua realidade social assombrosa. O seu cinema é, por isso mesmo, cheio de dobras e significados sobre o nosso processo de busca identitária, em face da nossa amargura em não ser. “Nós, brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sêlo”, escreveu Darcy Ribeiro, outro grande nome que partilhou do Brasil da geração de Cacá.
Viver 80 anos e ter mais de 50 anos de carreira como cineasta, no Brasil, é feito para heróis. Parabéns, Cacá. Mas a missão não termina aqui, em verdade, recomeça. É nesse tempo de terra arrasada e de escuridão, que o arado de luz do cinema tem que rasgar os carrascais da alma e semear as sementes de uma esperança nova. Cacá, contamos com você e Renata, sempre. Vamos nessa!
Rosemberg Cariry é diretor, roteirista, poeta, escritor e pesquisador. Dirigiu filmes como "Corisco & Dadá", "Os Pobres Diabos" e "Escravos de Jó"