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Halder Gomes: Relato de um "sortudo" apadrinhado por Cacá Diegues
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Halder Gomes: Relato de um "sortudo" apadrinhado por Cacá Diegues

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Halder e Cacá Diegues em um dos encontros que apadrinhado e Mestre tiveram para trocas artísticas (Foto: Acervo pessoal / Halder Gomes)
Foto: Acervo pessoal / Halder Gomes Halder e Cacá Diegues em um dos encontros que apadrinhado e Mestre tiveram para trocas artísticas

Era o auge do VHS nas locadoras em Fortaleza na década de 1980. Eu acabara de chegar de um intercâmbio no EUA e estava numa "fase Chuck Norris"/filmes "teens" de John Hughes. Mas, um dia, bateu o desejo de ver um filme com cara de Brasil; e, sem trocadilhos, o escolhido foi Bye Bye Brasil. Foi uma alegria! Ali, me deparei pela primeira vez com um Brasil bem diferente do delicioso universo lúdico dos Trapalhões, assim como do mundo urbano dos filmes da Boca do Lixo - meu repertório nacional até então. Era um Brasil que parecia muito com o país que eu conhecia bem, no interior do Ceará, na década de 1970, onde vivi minha infância. No filme de Cacá, descobri o Brasil - e seu cinema.

Num grande salto no tempo, o ano é 2009, véspera de filmar Cine Holliúdy. Assisti e revi vários filmes brasileiros para reviver a época que a história iria se passar - anos 1970 - e um deles foi Bye Bye Brasil. Agora, claro, já sabia muito bem quem era Cacá Diegues, assim como havia curtido demais seu filme mais recente,Deus é brasileiro. Foi um belo reencontro com o filme que havia me marcado muito tempo atrás e com o sentimento da atemporalidade do cinema bem feito. Se na época era a TV que ameaça a Caravana Rolideide Lorde Cigano (Zé Wilker), não era diferente para o Cine Holliúdy de Francisgleydisson (Edmilson Filho). As memórias de Cacá e as minhas, expressas em filmes, dialogavam.

E Cine Holliúdy foi lançado e aconteceu aquele sucesso todo. Tanta coisa, tão rápido; um furacão! Um belo dia me deparo comum artigo de Cacá na sua coluna dominical de O Globo. Um trecho do texto dizia: “a surpreendente comédia antropológica de Halder Gomes”. Me emocionei, pois Cacá sabia da minha existência. Bruno Wainer (Downtown Filmes), distribuidor do filme, disse de forma enigmática: "é uma preparação de terreno". Fosse só até aí, já teria valido tudo a pena. Mas o destino estava mesmo curioso pra selar esse encontro e ver no que daria. Quando o projeto O Shaolin do Sertão bateu na mesa de Edson Pimentel - presidente da Globo Filmes na época -, Cacá, um dos consultores artísticos da empresa, se encantou com o roteiro e o escolheu para ser meu supervisor artístico.

Como num passe de mágica e materialização de um sonho, eu iria dali em diante trocar ideias criativas com Mestre Cacá - forma que resolvi chamá-lo. E que maestria! Foram vários encontros, Cacá era sempre preciso e cirúrgico nas suas observações, tudo encaixava quando eu voltava ao roteiro. Me impressionava o quanto ele sabia de tudo na história e nos personagens, mesmo lidando com tantos projetos ao mesmo tempo. Sua generosidade, carinho, atenção e conhecimento, cada vez mais enriquecia o significado da palavra Mestre. Um dia veio a aura maior de sua grandeza e humildade. O Shaolin do Sertão estava próximo de começar, era o último tratamento do roteiro e queria muito encontrar Cacá pessoalmente e ouvir suas últimas palavras antes de entrar no set. Voei para o Rio e nos encontramos no café da Livraria Travessa, em Ipanema. Apesar de já me sentir como um sortudo apadrinhado, estava ansioso.Ele contou que havia lido a nova versão do roteiro e que poderia falar por horas. Porém, ele disse: "esse filme está pronto em sua alma e no seu coração. Siga-os, chegue no set e faça o que sua cabeça disser;é um filme que só você pode fazer". Conversamos um tempo sobre outros assuntos, fui para o aeroporto e peguei o voo de volta pra Fortaleza. Fiquei matutando aquilo por um tempo, toda aquela distância percorrida para ouvir poucas palavras. E aquela foi uma grande lição de cinema:o respeito pela autoralidade para sua personificação na tela em forma de originalidade. Cacá já sabia que sua contribuição naquele momento já havia sido dada, o que eu precisaria era confiança para fazer algo que estivesse à altura da expectativa que o público de Cine Holliúdy esperava. Suas breves palavras foram meu guia. Toda essa trajetória também se repetiu com Cine Holliúdy 2 - A Chibata Sideral, no qual também tive a honra da sua supervisão artística. Ano passado, encontrei Cacá na festa do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, quando na ocasião o apresentei à Samantha Müller, protagonista do filme Vermelho Monet,que iríamos fazer nas semanas seguintes em Lisboa; ele estava no evento com seu filmeO Grande Circo Místico, que também havia sido rodado em Lisboa. Ele me deu um abraço de pai, “abençoou” minha atriz e disse o quanto sabia que esse filme falava de uma grande paixão minha; a pintura. Sabia que essa paixão iria imprimir na tela. No set em Lisboa eram muitas as pessoas da equipe que haviam trabalhado no filme de Cacá. Com muito orgulho, eu contava essa trajetória que vos reporto. Eles ficavam muito felizes por esse encontro que não poderia ser de outra forma, senão pelo cinema. Eles amaram trabalhar com Cacá; eu também. Por isso, nessa data tão especial, meus parabéns ao Mestre, com todo carinho, gratidão e admiração. Cacá é brasileiro; graças a Deus!

Halder Gomes é diretor e roteirista cearense, responsável, entre outros, pelos filmes "Cine Holliúdy", sua continuação, "O Shaolin do Sertão" e "Os Parças"

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