Antoine de Saint-Exupéry se tornou mundialmente conhecido por seu livro "O Pequeno Príncipe", e, como um dos personagens de sua mais famosa obra, ele também era aviador. Voar tornou-se sua paixão e, por isso, o legado que o escritor deixou pelas páginas da literatura francesa está intimamente ligado à suas experiências como piloto. Mais do que uma profissão, Exupéry fez da aviação a sua ótica para ver o mundo. A vivência da solidão, do deserto, da guerra e da injustiça construíram uma visão sensível e profunda sobre a humanidade revelada em seus escritos.
Nascido em Lyon, na França, Exupéry foi incentivado pela mãe a escrever contos e prosas desde cedo. Com o início da Primeira Guerra Mundial, precisou se mudar para a Suíça, onde morou por três anos. Sua trajetória pessoal, cruzada por duas grandes guerras mundiais, deixou profundas marcas em sua escrita. "As temáticas mais frequentes dele estão ligadas à guerra e à conduta humana diante das crises e das grandes questões a vida. Acredito que um elemento central na obra dele é essa aproximação com o humanismo, e isso reforça o prestígio que ele teve e continua tendo entre as novas e antigas gerações", explica a professora Fernanda Coutinho, do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará.
O interesse pela aviação despontou quando Saint-Exupéry entrou em um avião pela primeira vez. Aos 21 anos, ele conseguiu uma licença para pilotar e se tornou um dos responsáveis pela implantação de rotas de correio aéreo na África, América do Sul e Atlântico Sul. Isso explica o fato de a aviação ser uma presença constante em suas obras, como os livros "O Aviador" e "Voo Noturno", além de "O Pequeno Príncipe". "O aviador e o escritor se confundem e se entrelaçam fortemente em toda a sua vida adulta. Exupéry tinha essa ânsia de conhecer o mundo, de visitar lugares remotos, o que o colocava sempre num lugar de solidão, consequentemente", continua Fernanda.
Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, ele integrou a Força Aérea dos Estados Unidos e passou a fazer voos de reconhecimento. Foi nesse período, em 1943, que ele escreveu o livro que se tornou um best-seller do período pós-guerra. O sucesso de Exupéry com "O Pequeno Príncipe", que ainda hoje se mantém, dá pistas de como a sua obra se consolidou ao longo do tempo. "A partir dessa publicação, a literatura francesa contemporânea ultrapassou os muros da França e encontrou a possibilidade de alcançar públicos muito diversos, já que o livro já foi traduzido para diversas línguas e continua sendo objeto de releituras, adaptações, etc", comenta Lena Espindola, professora do curso de Letras/Francês da Uece.
A experiência do deserto na vida do escritor-aviador conecta as vivências dos personagens de "O Pequeno Príncipe" com as questões vividas pela humanidade atualmente, como reflete a professora Fernanda Coutinho, que também é autora da obra "Imagens da infância em Graciliano Ramos e Antoine de Saint-Exupéry" (2012). "Esse constante estado de exílio é muito significativo para o conjunto da obra dele. O Exupéry como aviador sempre esteve em situações de perigo, sozinho, e inclusive viveu alguns acidentes aéreos em lugares remotos. A partir disso dessas situações-limite, ele reflete por meio da literatura sobre como o homem pode buscar um sentido para a sua humanidade", pondera. É no deserto que Antoine, assim como seus personagens, se volta para o homem e seus valores e misérias.
Em julho de 1944, Saint-Exupéry desapareceu em um acidente de avião. Ele estava em uma missão secreta na África e a partir de então não foi mais visto. Os restos do avião foram achados somente em 2004, embora seu corpo nunca tenha sido encontrado. Saint-Exupéry deixou várias obras publicadas e nelas é possível reconhecer o grande interesse do escritor pelo humano e pela vida diante do infinito.
ESTANTE
O aviador (1926)
Correio do Sul (1929)
Voo Noturno (1931)
Terra dos Homens (1939)
Piloto de Guerra (1942)
O Pequeno Príncipe (1943)
Carta a um refém (1944)
Cidadela (Póstuma, 1948)
No Brasil
O aviador Antoine de Saint-Exupéry esteve várias vezes no Brasil entre os anos 1920 e 1930.
Uma das visitas mais conhecidas e documentadas ocorreu em Florianópolis, onde Exupéry conviveu com pescadores e moradores comuns da ilha. Pela dificuldade de pronúncia do nome em francês, passaram a chamá-lo de "Zé Perri". Como piloto dos aviões da companhia Aeropostale, Exupéry entregava correspondências em diversos países e, em suas viagens, passava por cidades da região Sul do Brasil.