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Personagens odiáveis e roteiro instigante fazem sucesso em "Little Fires Everywhere"

Minissérie, disponível na Amazon Prime Video, entrega temporada com intensos dramas familiares e mães na berlinda
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Reese Witherspoon e Kerry Washington protagonizam a série (Foto: fotos divulgação)
Foto: fotos divulgação Reese Witherspoon e Kerry Washington protagonizam a série

A inexistência de pessoas totalmente boas ou más é a mais relevante mensagem que os realizadores do drama "Little Fires Everywhere" (em português, algo como "Pequenos Incêndios Por Todo Lugar") querem passar ao público. Com apenas uma temporada de oito capítulos - disponível no Brasil pela Amazon Prime Video, com produção original do canal Hulu - a minissérie, baseada no livro de sucesso de Celeste Ng, lançado em 2017, tem conseguido êxito e repercussão, envolvendo a audiência em discussões fundamentais sobre maternidade e força feminina, sem esquecer de questões raciais, privilégios sociais e crises familiares.

O embate perene na história - que se passa no final da década de 1990 - fica concentrado entre a jornalista Elena Richardson (Reese Witherspoon) e a artista plástica Mia Warren (Kerry Washington), duas personagens com características morais completamente diferentes, mas com igual adoração pelos filhos. Elena vive numa mansão, é casada com o bem sucedido advogado Bill Richardson (Joshua Jackson) e tem quatro herdeiros adolescentes: Lexie, Izzy, Moody e Trip. Mia não tem residência fixa, faz bicos e é mãe solteira de Pearl, filha única e igualmente adolescente.

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Elas se aproximam logo no primeiro episódio, quando Mia, procurando um lugar para morar enquanto dribla uma complicada situação financeira, se torna inquilina de Elena em uma casa na cidade de Shaker Heights, em Ohio (EUA). A partir desta ligação, o caos se instala em função de interesses claramente opostos. Não sobra ninguém que não seja afetado de maneira profunda, desde familiares, namoradas, amigos, colegas de trabalho (a chinesa Bebe Show, garçonete, se torna fundamental na trama, assim como Linda McCullough, amiga de Elena) e quem vier pela frente. Todos, em algum momento, precisam olhar para dentro de si, refletir e resolver a vida.

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A partir de tais resoluções e após três parágrafos de apresentação da série, já me sinto à vontade para cravar que detesto todos os personagens. São tantas decisões equivocadas (algumas canalhas e criminosas) que nenhum esforço é suficiente para compreender. Com adultos e adolescentes tão odiáveis, o mérito de "Little Fires Everywhere" é ainda maior, porque a minissérie se torna mais relevante do que qualquer figura, livre da dependência de um ou outro personagem.

Os episódios - não há indicação de segunda temporada - mantém um ritmo oposto da monotonia e com abordagem direta fica inevitável não pensar em como agiríamos se estivéssemos diante dos dilemas expostos. É como uma novela, mas que em oito horas você resolve e não durante nove ou dez meses. Outro ponto positivo é a ausência de furos no roteiro, sempre bem construído e pensado, com a ajuda de um trilha sonora elegante em cada episódio.

Por fim, as atuações de Reese Witherspoon e Kerry Washington mostram competência e sintonia. Ainda que elas não contracenem o tempo todo, quando ficam frente a frente o talento de ambas brilha em conversas angustiantes e cheias de ironia, como no capítulo final, onde tudo é explicado sem deixar dúvidas, goste você ou não (há algum exagero, já posso adiantar). E é justamente da tensão entre Elena e Mia que brotam os incêndios referidos no título. Incêndios fragmentados em forma de choro, raiva, alívio, arrependimentos, certezas e hipocrisia, mas também em chamas reais, que de um jeito ou de outro servem para destruição e recomeço.

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