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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

A palavra do ano

Tipo Crônica

Lexícografo é o nome oficial, mas eu prefiro dizer colecionador de palavras. Graças a eles existem os dicionários, esse objeto que armazena esses organismos feitos de letras que são a matéria da vida. Pois os lexicógrafos que trabalham no Dicionário Oxford da língua inglesa, tem como prática anunciar, ao final de cada ano, qual foi a palavra mais citada no período.

Dentre onze bilhões de vocábulos, com o acréscimo constante dos novos significados, neologismos e invenções, eles tentam apontar qual foi a mais repetida. Em 2020 foi impossível decidir por uma só. Ao invés disso, os dicionaristas anunciaram uma lista e todas estiveram nas nossas bocas, ouvidos, olhos ou nas pontas dos nossos dedos: lockdown, coronavirus, Covid-19, Cultura do Cancelamento, Impeachment, dentre outras. A escolha é feita a partir de dados que relacionam publicações oficiais, jornais e revistas, redes sociais, documentos. E assim, por um sistema de contagem, define-se como nos definimos, como nossa vida foi nomeada. Usar palavras é dar nomes às coisas e situações para lidar com elas a partir disso.

A lista de Oxford é universal e baseada na língua inglesa. É uma forma parcial de representação, há uma determinação política e econômica na intimidade dessa decisão. Por um lado, não escapamos do inglês. Todo mundo disse, sim, lockdown, mesmo sem saber pronunciar corretamente, alterando a grafia, duvidando dela, estranhando, sentindo um gosto amargo na boca. Eu ouvi locridau, lokendau, lhoquidáu, róquidau e gostei de todas as versões - algumas bem melhores que a original.

Somos falantes do Português brasileiro e isso nos coloca em uma condição particular. Vivemos 2020 do nosso modo, tivemos a nossa coleção de palavras na lida com a pandemia. Uma das primeiras de que me recordo foi "gripezinha". O presidente da república chamou a doença que mudou o mundo e matou milhares de pessoas de "gripezinha" e jogou essa palavra nos noticiários e nas conversas do cotidiano. Depois veio "isolamento social", "fique em casa" e todos os desdobramentos disso.

Dentre as pessoas que anunciaram a contaminação pelo coronavírus veio uma expressão de mão dupla: "positivei". Foi usada para anunciar a doença, mas o dicionário diz que significa esclareci, precisei, afirmei, realizei, assegurei, concretizei, fiz. Não acho justo dizer que foi um ano bom. Sofremos, todos, cada um por seus motivos. Mas estou segura ao afirmar: 2020 foi o ano em que descortinamos a verdade.

Em alguns casos as verdades individuais surgiram como se fossem um achado arqueológico. Lá por baixo, enterrados sob o supérfluo, o desnecessário, estava o valor legítimo das coisas e pessoas, o que realmente importa. Do que não podemos abrir mão. De maneira mais forte ainda aconteceu o contrário: ver a verdade significa, também, decidir o que não podemos mais suportar e o que precisa ficar em 2020, sem dar o passo para entrar no que chamamos de futuro.

A minha palavra de 2020 foi HOJE. Estar no presente, no dia de hoje, enxergar a verdade de cada dia como uma âncora para suportar o que é ruim e aproveitar o que é bom. Nesse aspecto somos todos um pouco lexicógrafos, cada um sabe qual foi a sua palavra de 2020. Cada coração escreve o seu dicionário.

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