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Artistas e fãs narram histórias com as canções de Roberto Carlos

Fãs, admiradores e artistas repercutem a presença de Roberto Carlos, artista que marca diferentes gerações
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Show do Roberto Carlos em Fortaleza, no Siará Hall, em 2010 (Foto: Kléber A. Gonçalves, em 11/12/2010)
Foto: Kléber A. Gonçalves, em 11/12/2010 Show do Roberto Carlos em Fortaleza, no Siará Hall, em 2010

As canções de Roberto Carlos continuam pulsantes entre corações admirados. De diferentes fases e facetas, o rei passeia por diversos episódios memoráveis. Ou mesmo nas sutilezas do cotidiano. Quando menos se espera, muitas de suas músicas se tornam trilha sonora do movimento ordinário da vida. No abrir e fechar da porta de casa, sentar-se à mesa para um café ou simplesmente ao admirar a paisagem pela janela do ônibus. Sua obra interliga muitas histórias (direta e indiretamente) — seja de fãs, admiradores, curiosos ou mesmo alheios. Na cadência de quem tem fé no amor, há sempre mais emoções porvir.

 

"Além do Horizonte" é a canção preferida de Ângela Maria Sales

Muito além do horizonte

Ao fim de cada domingo, quando já está na hora do sono, a agente de saúde Ângela Maria Sales, 58, põe o rádio para tocar. Ali perto, na cabeceira da cama, as canções de Roberto Carlos embalam o ritual dos sonhos. Os sentimentos regressam aos tempos de infância — a melodia passeia pelas memórias da casa de sua mãe, onde havia uma radiola que tocava quase sempre os discos do rei.

Influenciada pelas irmãs mais velhas, muito fãs de RC, Ângela cresceu ouvindo a discografia do artista. Naquela época em que tudo era possível, elas se reuniam para ouvir a programação da rádio com as canções de Roberto. O costume segue desde aí. "As canções de Roberto Carlos me deixam feliz, me trazem alegria, saudade e boas memórias da família e dos momentos agradáveis de toda minha vida", lembra.

Tantas músicas de RC integraram momentos da vida de Ângela — desde as circunstâncias inesquecíveis às mais cotidianas. O trabalho do rei "ninou" seus três filhos. Agora, quem acompanha a tradição é o neto, de apenas 2 meses de idade, que adormece no colo da avó. Segundo Ângela, a coletânea de RC continua marcando novos episódios da sua trajetória.

É difícil definir uma música preferida, mas "Além do Horizonte", do álbum "Roberto Carlos" (1975), transborda algo muito especial. Ao ouvir a composição de RC e Erasmo Carlos, sua mãe costumava dizer: "Além do horizonte há coisas boas para viver e ser feliz". A filosofia de Dona Maura continua guiando o coração de Ângela.

Luane Tabosa cresceu ouvindo as canções de RC
Luane Tabosa cresceu ouvindo as canções de RC

Nas curvas das estradas...

Luane Tabosa, 23, — filha caçula de Ângela Maria — compartilha dessa relação afetiva com as canções de Roberto. A lembrança acha-se nas idas para a casa de sua avó materna. Aos domingos, a família se deslocava do bairro Messejana ao Presidente Kennedy para almoçar com Dona Maura. Atravessavam a Cidade de ônibus para passar o "domingão" juntinho à matriarca. Antes disso, o aparelho de som já estava nos embalos de RC.

Ângela ligava o rádio cedinho, preparava o café da manhã e toda a família se aprontava para a viagem de quase duas horas. Na morada de Dona Maura, mais canções de Roberto. "Ao chegar na vó era aquele abraço super apertado e amoroso. Só saudades! Desde que ela se foi, há cerca de quatro anos, essa é a melhor memória que eu tenho de nós. O Roberto Carlos fez parte dessa história. Sempre que toca no rádio, essa memória me invade", conta Luane.

Entre outras recordações, está ouvir Roberto nos especiais de televisão a cada ano que finda. O sentimento por trás das canções, contudo, não se restringe ao seio familiar. Ainda na escola, um dos melhores amigos de Luane cantou "As Curvas da Estrada de Santos", faixa do LP "Roberto Carlos" (1969). Ela se encantou. Quando escuta a composição de RC e Erasmo, lembra com carinho do momento. E, certamente, das estradas que percorreu em tantas viagens de ônibus para ver sua vó.

Sulling Lima conheceu a discografia de Roberto Carlos aos 15 anos, durante o primeiro namoro
Sulling Lima conheceu a discografia de Roberto Carlos aos 15 anos, durante o primeiro namoro

Primeiro amor

Era década de 1980. Olhares aqui e ali, mãos entrelaçadas e a magia avassaladora do primeiro amor. "Eu pensei que pudesse ficar sem você/ Mas não posso/ Pois viver sem você, meu amor/ É difícil demais" — ouvia Sulling Lima, 55, no auge da adolescência. "Não Se Afaste de Mim", faixa do álbum "Roberto Carlos" (1980), marcou o primeiro namoro da técnica em comercialização e logística aposentada.

À época, RC entoava aquela fase romântica, com canções que foram trilha sonora para múltiplos amores. "Meu primeiro namorado amava, era fã do Roberto Carlos. Acho que, de certa forma, eu aprendi a gostar por influência dele. A gente estava começando o namoro e teve todo um clima para gostar do Roberto", rememora.

Apaixonar-se foi o impulso para que ela passasse a acompanhar a musicalidade desse artista — que fala, dentre tantas coisas, sobre amar, ser amado, corresponder ou até sofrer por amor. Ao longo do tempo, conheceu outros tantos "Robertos", como o da fase religiosa. Devota de Nossa Senhora, se emociona sempre que escuta a clássica "Nossa Senhora me dê a mão/ Cuida do meu coração/ Da minha vida, do meu destino".

Amante dos discos de vinil, enquanto compartilhava sua história à reportagem, Sulling pôs a tocar a "música da sua adolescência". Mais de dez LPs de Roberto Carlos integram a coleção presenteada por seu tio. As prediletas continuam sendo as românticas, que ecoam o sentimento do "amor, da paixão e do sexo". Para Sulling, RC marcou — e ainda marca — gerações.

"Qual o seu Roberto Carlos preferido?"

"Meu Roberto Carlos preferido é o do disco 'Mensagens', onde ele reuniu praticamente todas as suas gravações voltadas para Deus. Clássicos como 'Aleluia', 'Fé', 'Ele está pra chegar', 'Jesus Cristo', 'Luz Divina', 'A Montanha' e tantas outras desse álbum estão dentre as músicas mais ouvidas na minha vida."

— Marcos Lessa, cantor e compositor

"Minha primeira lembrança de tê-lo ouvido foi o 'calhambeque', ainda na infância, músicas do filme 'Em ritmo de aventura'. Essa fase IêIêIê eu adoro, mas o disco que me sempre vem à lembrança é o que tem 'Detalhes', de 1971, e de onde pincei a minha favorita: 'De tanto amor', uma das baladas mais lindas de todos os tempos. É Brasa mora???"

— Mimi Rocha, músico e produtor cearense

"A época de sua carreira que mais gosto é a do começo da década de 1970, depois da Jovem Guarda. A meu ver, nesse período, suas músicas são mais maduras e têm letras com conteúdo mais elaborado. A minha canção favorita é 'Detalhes', de 1971. Bebeto, nunca vou tentar te esquecer! Um beijo desta sua fã.

— Nina Ximenes, cantora e compositora cearense radicada em São Paulo

 

"Costumava implicar com o tal Rei adorado por mamãe. Logo ela, que não parecia apreciar tanto música, colecionava uma dúzia de álbuns dele, quase todos com a mesma capa: retrato e fundo azul. Não suspeitava do Roberto vibrante de 'O inimitável', por isso o espanto anos mais tarde, ao me deparar com o cara indignado e debochado

— Raísa Cristina, artista visual cearense

"Nossa! 'Cama e mesa', do Roberto Carlos, era minha trilha sonora de infância! Acho que ela tocava todas as tardes no rádio, no ano de 1982. Até hoje, basta eu ouvir os acordes iniciais dessa música e sou transportada para minha casa de infância: é uma verdadeira madeleine proustiana!"

— Tércia Montenegro, escritora cearense e cronista do Vida&Arte

"O meu Roberto Carlos preferido era aquele que entrava na minha casa, todo final de ano, em novo LP que meu pai comprava para a minha mãe. Minha mãe adorava ouvir Roberto Carlos. Aqueles LPs lançados nos anos 1970 e começo dos anos 1980. Mas só ela gostava? Eu costumava colocar os discos dele para tocar na radiola portátil que tínhamos e ficava 'cantando' junto com ele".

— Sérgio Araújo, professor, poeta, ficcionista e letrista cearense

 

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Assinantes OP+ têm acesso na íntegra ao Especial "RC 80 anos", com mais depoimentos de fãs, entrevistas com o biógrafo Jotabê Medeiros e o pesquisador Tito Guedes, artigo da jornalista Ana Mary C. Cavalcante e retrospectiva sobre a trajetória do rei e sua relação com a crítica musical ao longo da carreira.

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