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Artista lança exposição gamificada sobre cabelos de mulheres negras

Exposição "Negras Cabeças", de Íldima Lima, codifica a representatividade do cabelo para as mulheres negras
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Foto: Íldima Lima/Divulgação A exposição "Negras Cabeças", da artista visual nordestina Íldima Lima codifica a representatividade do cabelo feminino na cultura de etnias africanas.

"Orí mi o e rere fún mi", na língua yorùbá, significa "Minha cabeça faça coisas boas para mim". Soteropolitana residente em Recife desde 2013, a artista visual Íldima Lima borda ancestralidades com linhas do tempo: autora da exposição virtual gamificada “Negras Cabeças”, a nordestina codifica a representatividade do cabelo feminino enquanto linguagem na cultura das etnias africanas Betsimisaraka (Madagascar), Mangbetu (Congo), Suri (Etiópia), Mursi (Etiópia), Mwila (Angola), Mbalantu (Angola), Himba (Namíbia/Angola) e Fulani (Senegal). Pintadas em aquarela e acrílico, as oito telas da mostra capturam desde celebrações ao luto a partir de penteados. As obras estão disponíveis para acesso público e gratuito até o dia 30 de dezembro de 2021.

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"A ideia de representar mulheres negras, pertencentes a grupos de diferentes etnias do continente africano, surgiu no processo de estudo para uma pintura que fiz exatamente em junho de 2020, inspirada numa fotografia de uma mulher da etnia Betsimisaraka. O contato com a história e os elementos contidos naquelas imagens despertou o desejo de elaborar uma pesquisa visual sobre essa estética dentro de uma perspectiva linguística, ou seja, a escrita manual que se revela imagética ao ser ancorada nas cabeças tendo como artifício cabelos e adornos", elucida Íldima.

A exposição "Negras Cabeças", da artista visual nordestina Íldima Lima codifica a representatividade do cabelo feminino na cultura de etnias africanas.(Foto: Íldima Lima/Divulgação)
Foto: Íldima Lima/Divulgação A exposição "Negras Cabeças", da artista visual nordestina Íldima Lima codifica a representatividade do cabelo feminino na cultura de etnias africanas.

Mulher negra em processo de transição capilar há 3 anos, Íldima destaca que o processo artístico foi também um resgate imersivo em sua própria história. "A sensação é a de que estou no caminho que é certo para mim porque faz sentido para mim. Cada um tem sua história e forma de manifestar essa conexão e identidade. O cabelo tem sido protagonista nessa cena de empoderamento, mas acredito que toda e qualquer forma de estabelecer essa conexão e valorizar nossa cultura é válida, urgente e igualmente importante", defende.

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Nesta primeira etapa do projeto, a artista visual viveu um delicado movimento de escolha das etnias para representar nas pinturas. Para contemplar a rica diversidade de costumes e culturas do continente africano, Íldima selecionou regiões que apresentam conteúdo visual distinto — "facilitando a identificação por parte do espectador, bem como a associação das informações pertinentes ao conceito da exposição, ou seja, a forma como cada uma delas transmite suas mensagens através desses códigos visuais". Apesar da exposição fazer intersecção com a linguagem visual, a pesquisa revelou também um cenário contemporâneo sensível: muitas das etnias que a artista pintou em suas obras persistem na manutenção de suas culturas ainda que encontrem novas barreiras socioeconômicas e políticas para isso, como os Fulani no Senegal, os Suri e os Mursi na Etiópia.

A exposição "Negras Cabeças", da artista visual nordestina Íldima Lima codifica a representatividade do cabelo feminino na cultura de etnias africanas.(Foto: Íldima Lima/Divulgação)
Foto: Íldima Lima/Divulgação A exposição "Negras Cabeças", da artista visual nordestina Íldima Lima codifica a representatividade do cabelo feminino na cultura de etnias africanas.

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"O processo de ressignificação dos corpos negros nas artes passa pelos conceitos de representação e representatividade, isso significa dizer que há uma importância única no crescimento de artistas negras construindo suas próprias narrativas estéticas independente da inserção ou não nos espaços expositivos tradicionais como museus e galerias. Esse movimento de representatividade naturalmente alimenta uma nova perspectiva de representação desses corpos que agora são deslocados do eurocentrismo artístico, tradicionalmente solidificados na objetificação, exotismo e fetichismos principalmente dos corpos negros femininos. A importância desses dois movimentos que andam juntos, representação e representatividade se dá justamente na modelagem de uma arte afrocentrada, de autorrepresentação e principalmente de memória e resgate. O resultado e a importância disso é o legado artístico que estamos construindo hoje, apresentando uma arte onde minha história não nasce do olhar do outro sobre mim, a chamada 'estética do outro', mas sim de uma imersão identitária e legítima do meu olhar sobre mim mesma", finaliza Íldima.

Negras Cabeças

Exposição virtual gamificada que retrata a importância ancestral de penteados e adornos de cabeça como artifício de linguagem para grupos étnicos
Quando: até 30 de dezembro
Onde: negrascabecas.art

 

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