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Com novo disco, Marisa Monte segue como farol para a música pop brasileira

Dez anos depois do último disco solo, Marisa Monte lança "Portas", trabalho inédito que reafirma suas melodias assobiáveis, refinadas e cheias de detalhes
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A capa do álbum 'Portas' é uma ilustração de Marcela Cantuária (Foto: LEO AVERSA)
Foto: LEO AVERSA A capa do álbum 'Portas' é uma ilustração de Marcela Cantuária

Dizer que Marisa Monte é uma cantora pop pode parecer estranho para quem acha que pop é só aquela seara da música que tomou conta das listas das mais tocadas no País. Pop não é ritmo, é linguagem. Tem o sertanejo pop, o pop rock, o funk pop, o jazz pop e tem Marisa, que faz uma MPB pop. Mas, diferente do que se convencionou chamar de pop, ela não faz música para consumo a curto prazo. Muito pelo contrário, seu trabalho é feito de olho em detalhes, minúcias, entrelinhas, pequenos fragmentos que podem se conectar de diferentes formas com o ouvinte.

Tem sido assim desde que a cantora, produtora, instrumentista e compositora estreou, e não é diferente em "Portas", disco que chega 10 anos depois de "O que você quer saber de verdade". Esse intervalo entre seus dois últimos trabalhos solos já demonstra uma necessidade de respirar, projetar e se alimentar de novas influências, sons e ideias. Nessa uma década sem trabalho solo, ela não deixou de produzir: lançou disco ao vivo e a primeira coletânea oficial, voltou a se reunir com os Tribalistas, e ainda mergulhou em antigos arquivos para lançar três álbuns virtuais com registros que estavam reservados somente aos seus DVDs.

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E quem esperou 10 anos pra ouvir um novo disco solo, com músicas inéditas, recebeu um trabalho com aquele selo "100% Marisa Monte". "Portas" traz 16 faixas com tudo aquilo que fez essa carioca de 54 anos ser uma paixão nacional, que agrada públicos das mais diversas FMs, e uma referência para tantas outras cantoras que vieram depois dela. A maior surpresa desse disco está em tudo ser reconhecível. Tanto que não é difícil encontrar referências dos ídolos de Marisa ou mesmo fazer aquele exercício de encaixar cada faixa em outros discos. Por exemplo, a portelense "Elegante amanhecer", samba dividido com Pretinho da Serrinha, com cavaquinho de Mauro Diniz, tem a cara do "Universo ao meu redor" (2006). Já "Fazendo cena" lembra as delicadezas de "Memórias, crônicas e declarações de amor" (2000), e tem alguns dos mais belos versos do disco ("Vou te aguardar/ Aguardente demais/ É claro e evidente/ Que sentes demais").

Quantos aos ídolos, "Você não liga" lembra muito um Jorge Ben daquela safra "Força bruta" (1970) ou "Negro é lindo" (1971), principalmente pela dramaticidade dos violinos. E tem "Espaçonaves", que lembra muito Caetano Veloso da época "Qualquer coisa" (1975). No entanto, ambas são de Marcelo Camelo, que também toca quase todos os instrumentos da segunda e assina o arranjo de cordas da primeira. O Hermano é um dos novos parceiros de Marisa Monte que surge em "Portas". Além dele, outra parceria bastante comentada é com Chico Brown, filho de Carlinhos Brown, parceiro em cinco faixas. Incluindo a delicadíssima "Em qualquer tom" e "Calma", uma das duas primeiras faixas gravadas do disco. A outra foi "Portas" (Marisa/ Arnaldo Antunes/ Dadi), cuja letra faz uma inteligente analogia de um Brasil polarizado e cego para novas possibilidades de pensamento.

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Um dos elementos que mais chama atenção em "Portas" é o uso de orquestrações de sopros e cordas. O uso de arranjos camerísticos também não é novidade pra ela, mas aqui parecem soar mais opulentos, como em "A língua dos animais", cujo trio de sopros conduz o ouvinte por toda a natureza cantada na letra. E quem comparece no disco é o cultuado e redescoberto maestro Arthur Verocai, responsável pelos arranjos de "Déjà vu" e "Pra melhorar". A primeira sugere uma valsa e mistura solos de guitarras com detalhes de violões e flautas, e muitos violinos soltos pelo ar. E a segunda é uma super pop "MPB de autoajuda", com versos positivos e aquela cara festa de fim de ano. A canção é uma parceria de Marisa com Seu Jorge e sua filha, Flor Jorge, que também cantam no disco.

E "Portas" não seria um disco de Marisa Monte se a ficha técnica não fosse um show a parte. Começa que o trabalho rendeu um vídeo para cada faixa, todos dirigidos por Batman Zavareze, um dos mais reconhecidos vídeo artistas visuais do Brasil. Além dele, tem os novos baianos Dadi (baixo, violões e guitarra) e Jorge Gomes (bateria), Seu Jorge tocando flauta, Pedro Baby e Davi Moraes nas guitarras, Silva no piano, Carlinhos Brown na usina percussiva e muitos, muitos outros. Alguns desses nomes, inclusive, já são "clientes" dos discos de Marisa Monte. Mas, como dito, a maior surpresa de "Portas" não está em revelar uma nova Marisa Monte, mas em mostrar que a mesma Marisa Monte segue fiel em sua missão de fazer música encantadoramente pop e brasileira.

 

Capa do álbum 'Portas', com obra de Marcela Cantuária
Capa do álbum 'Portas', com obra de Marcela Cantuária

Faixas de "Portas"

1. Portas (Marisa Monte/ Arnaldo Antunes/ Dadi)

2. Calma (Marisa Monte/ Chico Brown)

3. Déjà Vu (Marisa Monte/ Chico Brown)

4. Quanto Tempo (Marisa Monte/ Pretinho Da Serrinha/ Pedro Baby)

5. Medo Do Perigo (Marisa Monte/ Chico Brown)

6. A Língua Dos Animais (Arnaldo Antunes/ Marisa Monte/ Dadi)

7. Praia Vermelha (Marisa Monte/ Nando Reis)

8. Totalmente Seu (Marisa Monte/ Lucas Silva/ Lucio Silva)

9. Em Qualquer Tom (Marisa Monte/ Chico Brown)

10. Espaçonaves (Marcelo Camelo)

11. Fazendo Cena (Marisa Monte/ Chico Brown)

12. Sal (Marisa Monte/Marcelo Camelo)

13. Vagalumes (Marisa Monte/ Arnaldo Antunes)

14. Elegante Amanhecer (Marisa Monte/ Pretinho Da Serrinha)

15. Você Não Liga (Marisa Monte/ Marcelo Camelo)

16. Pra Melhorar (Marisa Monte/ Seu Jorge/ Flor)

'Portas' - Marisa Monte

Produção de Marisa Monte

16 faixas

Participações de Seu Jorge, Flor Jorge, Arthur Verocai e outros

Disponível nas plataformas digitais

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