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Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, é especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. Escreve para o Vida & Arte desde 2012.

No passo do caranguejo

Em meio à ventania deste agosto, mês sempre turbulento na história do Brasil, acompanho a momentosa série "Conjuntura Nacional". No seu desenrolar, há episódios impagáveis, tais como "A CPI da vacina", "O (des)presidente rabo-de-burro", "O engavetador-mor", "Centrão: tudo por dinheiro!", "Quo vadis, Congresso, ao paraíso ou ao charco?" e o "O Supremo que já foi de frango", entre vários outros. Costumo dizer que o cinema brasileiro nunca deu certo por não compreender que a nossa realidade já é cinematográfica demais. É só ligar a câmera e deixar rolar, daí o sucesso de que sempre desfrutou o nosso documentário. É tanto realismo fantástico que se o Gabriel García Márquez tivesse nascido aqui, já teria se aposentado como balconista da Pague Menos.

Mas, falo, falo e não chego ao ponto. A última moda por estas bandas é o retrô. Retrô de retrocesso, que tem como sinônimos regressão e decadência. Um sujeito de maus bofes sentado no trono do país, politicamente fraco e acuado, sem votos nas ruas e nas casas legislativas de Brasília, amargando uma rejeição popular de mais de 60% e, em números de hoje, com 570 mil mortes pesando sobre as suas costas, elege como inimiga a urna eletrônica, ansiando pelas eleições em voto impresso, como se aquela não tivesse seus resultados auditáveis em boletim específico. Claro, tudo isso com o firme propósito de tumultuar o processo e usar a negativa ao seu macabro projeto como motivo para a aplicação de um golpe, já que periga não chegar nem ao segundo turno.

O bom é que a avacalhação da proposta do motoqueiro delinquente veio na bucha. "Pelo fim do pix e do home-banking! Queremos a volta das filas nos bancos e do cheque!", "Fora, ferro elétrico, eu quero é o ferro de engomar!", "Que mané i-phone, prefiro o orelhão de ficha!", "Adeus Google, viva a Enciclopédia Delta-Larousse!", "Não ao papel higiênico e sim ao sabugo de milho!" e outras pérolas da gaiatice brazuca pululam na internet. O legal disso tudo é que a (des)autoridade disse que houve fraude na eleição do seu ex-colega trump (leia-se tramp) nos EUA, que tem um sistema de votação maluco, no qual há até o voto impresso. E o gado, no curral do cercadinho (que, aliás, já esteve mais cheio), balança bovinamente a cabeça, ruminando a sua sina...

Contudo, o que mais me aborrece é a naturalização da quartelada, postura típica de um povo sem sangue nas veias e sem coração (grato, Lupe). Parece aquela história do baiano, com todo o respeito ao caro povo da Boa Terra: "Vixe, meu rei, eu aqui na sombra, deitado, e lá vem aquela jararaca para me picar...". Vamos mesmo deixar que o breu da noite mais uma vez se instale, que o arbítrio, como dizia o velho Paes de Andrade, volte a dar as cartas? Aí dentro, Guarany! Redijo esta crônica à mão, num papel amassado de conta de bodega no Bar do Nonato, entre umas e outras. Ao lado, uma discussão: "Sou contra o ativismo judiciário!", "Pois eu sou contra o executivo golpista!". E eu, queridos, lembrar-me-ei sempre de quem estava do outro lado neste momento.

 

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