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O meme como expressão cultural

Não importa a situação, existe um meme que se encaixa perfeitamente. Os recursos são utilizados como maneira de expressão e configuram uma nova forma de linguagem, entenda o motivo
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A linguagem dos memes. Os recursos são utilizados como uma nova forma de expressão.  (Foto: Letícia Bernardo / O POVO)
Foto: Letícia Bernardo / O POVO A linguagem dos memes. Os recursos são utilizados como uma nova forma de expressão.

Mimeme: palavra proveniente do grego para 'aquilo que é imitado'. Ela foi utilizada pelo biólogo Richard Dawkins na obra "O gene egoísta" (1976) para definir unidades de informação que estão para a cultura assim como os genes estão para a vida. Logo, foi abreviada para "meme" e implica tudo que se transmite por meio da repetição. Segundo o conceito, qualquer coisa que possa ser aprendida e disseminada é um meme: se replica, fixa no pensamento, afeta o comportamento e é propagado culturalmente.

"O meme vai se manifestando de maneiras diferentes e sofre modificações o tempo todo. O que a gente tinha compreensão há dez anos sobre o assunto, hoje em dia eu acho que a gente já entende de outro jeito", comenta Paulo Victor Barbosa, doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

No virtual, eles são multiplicados através da imitação, de usuário para usuário. Com a popularização da Internet nos anos 80, os fóruns começaram a tomar forma e certas frases de filmes, por exemplo, já se encaixavam como memes. Na década de 1990, a página Memepool resgatou o termo para compilar links da web. Já no final dos anos 2000, os Rage Comics - tirinhas com desenhos simples de situações cotidianas - se tornaram um fenômeno no Facebook por usar personagens com expressões características.

"O meme é uma forma de linguagem porque a linguagem é aquilo que resulta de formatos de experimentação. Ela tem entre os elementos constituintes aquilo que está dentro de uma dinâmica de transformação, de mudança, de mistura, dentro do universo popular", acrescenta. Para Paulo, a junção de textos, imagens e sons funcionam hoje como os ditados populares atuavam para as gerações mais antigas. "Para mim eles têm a mesma função. De tecer pilares que sustentam determinado arranjo cultural e social".

Apesar de ter um viés mais cômico, os memes também são utilizados de diferentes maneiras por influenciadores e instituições, como na campanha de vacinação contra a Covid-19. "As empresas diversas buscam se apropriar como uma linguagem possível, uma ferramenta de acréscimo do sentido. Eu vejo como uma dimensão multimidiática que incrementa nossas interações em rede", destaca Paulo.

01/09/2021. Imagem do perfil Saquinho de Lixo. A linguagem dos memes.
01/09/2021. Imagem do perfil Saquinho de Lixo. A linguagem dos memes.

O pior da internet?

"Tudo o que é lixo, tudo que não presta, vai acabar lá uma hora". É como a página Saquinho de Lixo é definida, em tom de brincadeira, por Luis Porto, um dos administradores. Com mais de 145 mil seguidores no Twitter e 1 milhão no Instagram, o perfil abastece a web diariamente com acervo de memes. "É um conteúdo muito diferente das outras páginas, temos uma linguagem visual muito forte", opina Luis. Criado em 2018 por amigos de diferentes regiões do Brasil, o Saquinho de Lixo participou de exposições no Sesc e no Museu da Língua Portuguesa. "O Saquinho foi o primeiro a seguir este tipo de comunicação. O meme é uma forma atual de se comunicar, pega muita gente e em diversas linhas", explica Alan Cinado, outro integrante da equipe ao lado de Davi Moraes, Júlio Emílio, Sofia de Carvalho e Rodrigo Almeida. 

O perfil viralizou nas eleições de 2018, um indicativo do teor político. "A gente sempre teve um posicionamento e temos uma regra. As publicações passam por uma avaliação da equipe, para que não saia nada que possa ser uma ofensa", elucida Alan. Assim, eles desenvolvem publicações que, provavelmente, você deve ver semanalmente no Instagram. Alguns posts são "um tiro no escuro", mas eles usam recursos para firmar identidade, criar linguajar próprio e aumentar o público fiel. "Todas as línguas estão em constante mudança, acho que o meme democratiza a discussão, corta caminhos, difunde ideias", complementa Luis.

01/09/2021. Meme publicado na revista de Judge. A linguagem dos memes.
01/09/2021. Meme publicado na revista de Judge. A linguagem dos memes.

Quem veio primeiro?

A revista Vice publicou levantamento no qual indica que o primeiro meme moderno veio muito antes da era digital, ainda em 1921. Ele foi publicado nas tirinhas da revista "The Judge", da Universidade de Iowa. A legenda diz: "Como você acha que saiu na foto" e "Como você realmente saiu na foto", algo parecido com o famoso "Expectativa x Realidade".

 

Acervo nacional

Uma visita pela arqueologia memeal, com correntes, personagens históricos da "memesfera" brasileira e guerras de bordões. Essa é a proposta do Museu de Memes, vinculado à Universidade Ferederal Fluminense (UFF). A iniciativa busca preservar a memória dos conteúdos e refletir sobre o lugar que eles ocupam na cultura contemporânea.


01/09/2021. Meme
01/09/2021. Meme "Nazaré Confusa" é sucesso internacional. A linguagem dos memes.

Sucesso mundial

O Brasil é um grande "exportador" de memes, portanto, é difícil escolher apenas um para representar a categoria. O "Nazaré Confusa", retirado de uma cena na novela "Senhora do Destino", se popularizou no mundo inteiro. Ele usa expressões que aparentam confusão, adicionadas à equações matemáticas. Fora do Brasil, o meme se chama "Math Lady", ou Senhora da Matemática, na tradução literal.

Memes x Política

Na eleição presidencial de 2018, uma pesquisa feita no Instituto de Ciências Humanas Sociais e Aplicadas da Unicamp (ICHSA), em Campinas (SP), assinala os memes como uma ferramenta de democratização da discussão política no País. O estudo também aponta que o Brasil é um dos países que mais produz memes políticos. Entre os 2,5 mil analisados, os de tendência ideológica de direita são os que mais se propagam.

Tudo acaba em meme?

Um meme do Senhor dos Anéis fala: "You have no power here", ou seja, quando se trata de reprodução, as situações acabam fugindo de controle. Na última quarta-feira, 1º, a BBC informou que a estudante Lara da Silva, conhecida pelo "Já acabou, Jéssica?", desenvolveu depressão e saiu da escola após a repercussão. Em agosto, a ex-bbb Thais Braz refletiu sobre os memes virais dela enquanto estava no reality show: "se isso tivesse acontecido há um ou dois anos, eu teria entrado em depressão com as coisas que eu ouvi". Os casos abrem debate para a discussão sobre o direito de imagem e o bullying virtual.

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