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Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, é especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. Escreve para o Vida & Arte desde 2012.

Alucinação?

À memória de Paulo Freire

No pingo do meio-dia, dei uma meia-trava no trabalho, fechei o escritório e ia me dirigindo ao Bar do Vicente para o aperitivo pré-prandial (meu apetite é o de um passarinho, daí ter a necessidade de algum estímulo externo) quando encontrei, sentado à sombra do meu jasmineiro, um velho careca e de barba branca em andrajos. "Boa tarde, meu senhor", saudou-me. "Calorzão, né? Sombrinha boa esta", sorriu-me. "Pode ficar à vontade. Desculpe o lixo que jogam aí no jardim. Hoje de manhã limpei tudo e agora está assim. O cearense é um povo imundo", ralhei. "Que nada, meu filho, o povo é bom, só precisa ser educado", disse-me com um ar cordial. Fitava-me com um olhar que parecia vir do fundo das eras, sábio e perquiridor. "Égua", pensei, "preciso daquele trago".

"Como vai a vida?", perguntou-me. "Vai-se vivendo, com dificuldade, mas vai-se", respondi. "Tudo pela hora da morte, um (des)governo genocida, mentiroso, ladrão e safado, uma classe política vagabunda, tribunais a anos-luz da justiça e uma população alienada. Não poderia ser pior", provoquei-o. De manso, retrucou-me: "Quem constrói o nosso paraíso e o nosso calvário somos nós mesmos, meu caro. O conhecimento da realidade e o desejo de transformá-la levam a um caminho, a ignorância e a resignação a outro, 'tortuoso e triste', tal como diz esse poeta de vocês", ensinou. "Jáder de Carvalho", falei. "Isso, vê-se que leu e estudou", brincou. "Sou arquiteto e professor", informei. "Mas você também trabalha, não?", riu-se. Saquei que a conversa era para mais de metro.

"Amigo", olhou-me fundo nos olhos, "você sabe o que é um liquidificador?". Fiz que sim com a cabeça. "Pois então bote dentro do "osterizer" a desigualdade socioeconômica crônica, o analfabetismo estrutural, o racismo de séculos, a burrocracia fundamental e a educação concurseira, ligue o bicho no três e ao final você terá um caldo grosso chamado Brasil. Não estranhe a catinga da gororoba, ela é para estômagos fortes", segredou-me, sua fala baixa era ouvir um grito. "Quem falava muito nisso era o Darcy Ribeiro", devolvi-lhe, "que dizia ser o subdesenvolvimento brasileiro não um castigo, mas um projeto". "Gente boa o Darcy, às vezes mais apaixonado pela própria voz do que pela razão", seu olhar fixo no róseo das flores da minha árvore. Um anjo cruzou a avenida...

"Está quente demais aqui. O senhor aceita uma água?", propus-lhe. "Sim, com prazer, meu camarada", agradeceu-me. "Quem seria esse homem tão agudo?", indaguei-me, enquanto enchia o copo na cozinha para servi-lo. Ao voltar, era o lugar mais limpo, nem sinal dele. À direita, o pessoal da oficina vizinha me olhava com preocupação. "Vocês viram um senhor que estava aqui comigo?", perguntei-lhes. "Não tinha ninguém com o senhor não, o senhor é que estava falando só. Pensamos até em levar o senhor para o hospital de Parangaba", disseram, às gaitadas. Vi um bilhete em meio ao jardim poluído. Abri-o e o li: "Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre". Gratíssimo.

 

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