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Crítica: ​"Madame X Tour" mostra uma Madonna que tropeça na simplicidade ao se reinventar

Show que a cantora fez entre setembro de 2019 e março de 2020 está disponível ao público através do serviço de streaming do canal Paramount+
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Madame X, novo documentário musical da Madonna, está disponível no Paramount+ (Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Madame X, novo documentário musical da Madonna, está disponível no Paramount+

"A arte está aqui para provar que a segurança é uma ilusão… artistas existem para perturbar a paz". A frase do escritor americano James Baldwin é projetada na abertura do show da turnê Madame X que a cantora Madonna realizou entre setembro de 2019 e março de 2020 e que agora está disponível ao público através do serviço de streaming do canal Paramount+.

O desafio da já sexagenária Rainha do Pop foi transformar seu intrincado décimo quarto álbum num espetáculo que pudesse abraçar as canções pouco radiofônicas e populares, repletas de sotaques e mensagens, para servir a um mundo conturbado e polarizado.

Em sua décima primeira turnê, a artista pioneira, que melhor teatralizou as performances de música pop, optou por uma saída arriscada. Madonna resolveu se apresentar em teatros ao invés de arenas e estádios, fez o público deixar os celulares trancados na entrada e colou-se numa "berlinda" tão frágil como instigante.

Em quase duas horas de apresentação que entremeia novas canções e hits consagrados, o show reúne tudo com o que uma artista de seu quilate poderia contar: 38 artistas em cena, projeções e trocas de figurinos e cenários. Mas dessa vez algo pareceu estar fora do lugar e o tiro pode ter saído pela culatra.

A esta altura do campeonato, Madonna já não precisaria provar mais nada a ninguém, mas, como se quisesse justificar algo, ela já inicia a apresentação numa postura defensiva e combativa. Datilografa um texto de James Baldwin enquanto se vê um performer ser alvejado em cena. Na sequência, ela surge vestida como uma espécie de " Napoleão" com manchas de sangue nas vestes para cantar "God Control". Há o tempo todo uma tentativa de dar alguma espécie de lição de moral ou reafirmar suas mensagens contrárias a violência, racismo, homofobia, patriarcalismo e, claro, a "caretice" em tempos difíceis. Ao conversar com a plateia, tentando parecer mais "íntima", Madonna destila seu humor debochado e autoafirma coisas como "Quanto mais odeiam o que eu faço, mais eu quero fazer" ou "Nunca deixe ninguém te destruir".

Esse "inimigo oculto" parece ser um fantasma que atenta a cantora há algum tempo. Ter sua idade e forma física, que recorre aos preenchimentos e implantes questionados, percebendo que sua música já não atinge mais as novas gerações (nem apelando para "new faces" como Anitta e Maluma) é chato. Saber que suas métricas chegam a ser bem menores que as das "novinhas" recém chegadas nas paradas e influencers, num mundo superficial dos "kardashians" e boybands coreanas, é puxado.

Seus fãs são fiéis, mas foram bem alimentados ao longo de quase quatro décadas de inspiração e inovação. Por isso, já não perdoam facilmente um possível deslize estratégico da "mamãe".

"Madame X" foi um passo em falso na carreira quase irretocável desta artista seminal que cravou seu nome com M maiúsculo no inconsciente coletivo. Pela primeira vez, a cantora cancelou 14 apresentações alegando dores, provocou grandes atrasos, cobrou altos preços de ingressos escassos que foram parar nas mãos de um público "coxinha", pouco afinado com sua verdade e que se sentiu desconfortável ao ser provocado política e ideologicamente pela Rainha do pop.

Me enquadro no time dos que seguem Madonna há décadas, lá fui eu até San Francisco em Novembro de 2019 quando literalmente paguei para ver, o equivalente a R$ 4.500 para sentar a 5 metros de distância. Ao perguntar se meus amigos locais gostariam de ir comigo ver novamente a apresentação que já haviam assistido em outra cidade, me disseram "não". Achei esquisito, perguntei o que acharam e a resposta foi: "Melhor você mesmo ver". Fui pela primeira vez sozinho a um show da Madonna na vida, algo fora do comum para quem já a assistiu 23 vezes pelo mundo, sempre cercado de amigos.

Confesso que senti um mix de curiosidade e agonia, se por um lado queria saber como se comportaria em um palco pequeno, vê-la se desafiando de tão perto me deixou tenso. Com cenário de madeira, sem telões e maquinários de última geração, Madonna estava um tanto claudicante ao realizar as coreografias esvaziadas de desafios como antes, figurinos desconexos e perucas que ao invés de me transportarem além me fizeram perguntar: "por quê?".

É difícil de explicar, mas senti que ficou difícil para ela misturar a fantasia teatral com o suposto "naturalismo" pedido em números como tocar piano, cantar um fado ou dividir a cena com as Batucadeiras de Cabo Verde. O que antes transformava essa baixinha em uma gigante de arenas, dessa vez parecia "teatrinho" de uma artista maior. Madonna não precisava fazer caras e bocas marcadas milimetricamente ao lado de mulheres africanas da "vida real". Mas quem vai dizer isso a ela?

Poucos foram os momentos em que consegui me emocionar, o que somente ocorreu ao ver sua filha Lola dançando lindamente no telão com as axilas peludas como sua mãe costumava usar ou vê-la dividir o palco com suas 3 filhas adotadas na África.

A medida em que eu revia hits como "Vogue" e "Like a prayer" serem apresentados de maneira simplista dentro das limitações impostas pelo formato, eu sentia que uma era havia findado para Madonna, para mim e para a indústria do entretenimento.

Se não transgressor, "Madame X" se mostrou visionário ao parecer dark e sufocante antes de uma pandemia. Ela falou de intolerância, violência e desarmamento da população no limiar da queda de Donald Trump e do assassinato de George Floyd.

Presenciei um casal, talvez ultrajado ou entediado, saindo da primeira fila no meio do show para indignação de Madonna. "Madame X" pode ser tudo menos uma unanimidade.

Madonna não desiste fácil e fez questão de transformar sua combalida tour em um filme muito bem editado. Ao assisti-lo, tive a certeza de que ela não deixará seu posto facilmente.

Ela ainda se faz necessária, acredita em sua missão de olhar pelos "fracos e oprimidos", crê que ainda é capaz de nos fazer pensar sobre controle de armas e questões como igualdade de gênero.

Talvez precise mudar o disco, mas é lindo vê-la botando as pernas "pra jogo", suando a camisa por nossos, cada vez mais, suados dólares e atenção. Mas é certo que Madame X e seus múltiplos disfarces mostraram a "cabeça" do pombo na manga do mágico. Não é possível ser ilusão e estar segura como diz a frase que abre o espetáculo.

Madonna ainda me representa até cantando um fado safado, vale conferir "Madame X" e aplaudir essa artista fenomenal que ainda tem forças para causar por nossas causas.

Madame X Tour

Filme já disponível virtualmente

Onde: serviço de streaming Paramount

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